Sem explicações

Às vezes eu tenho a impressão de que a coerência humana é mera aparência, impossível de ser concretizada e sempre suscetível a ser desmontada por um debate Tomo como exemplo a minha própria vivência. Deliberacionista desde que li Habermas pela primeira vez, costumo defender (ou parecer defender) que a discussão justa e inclusiva é a melhor forma de se produzir consensos dentro de uma democracia. Com uma crença dessas, é de se esperar, por exemplo, que eu abomine governos que se esquivem da missão de promover o acesso à educação cidadã e reduzir as assimetrias de poder entre os mais pobres e os mais ricos. Todavia, nos últimos meses, eu me peguei em uma luta acirrada em defesa de um governo que não fez nada disso. Por que? Por que cargas d’água eu bradei ferozmente contra os inimigos(outrora amigos) mais recentes do PT? A resposta é um clássico “ não sei”. Em tese, o partido fez coisas que eu abomino enquanto esteve no poder: ignorou a reforma agrária; manteve a boa e velha estrutura política brasileira e ainda se aproveitou da pior parte dela; desceu a porrada em estudantes e trabalhadores; e até apoiou pastor homofóbicos em comissão de direitos humanos no Congresso Nacional. Talvez eu tenha defendido o partido pelos poucos ganhos sociais(muitos dependendo de quem atingiram) que promoveu enquanto esteve no poder. Talvez eu também tenha levado em conta que, apesar dos pesares, eles ainda ofereciam empecilhos a um plano de neoliberalização total do Brasil. Talvez eu não fosse com a cara do Temer. Ou talvez todos esses “talvez” juntos. O fato é que não vou poder dar certeza a ninguém. Acho que, da mesma forma, vocês não podem me dar isso. Então, é melhor assumirmos que não existem certezas e que a melhor forma de não cairmos em posições extremas e perigosas é a capacidade de discutir, o que me leva a crer que sou o sujeito mais coerente do mundo, pois acredito piamente no debate.

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