Meu time ganha tudo na base, mas não revela ninguém!

Zé Ricardo, atual treinador do Flamengo

Tenho acompanhado muito de perto o futebol de base e as divisões menores principalmente do futebol paulista ultimamente e um aspecto em particular vem me chamando muita atenção, nota-se claramente que em pequenos, médios e grandes clubes do estado, a forma de avaliação do trabalho da comissão técnica vem sendo feita de maneira extremamente deturpada, destorcida e equivocada na minha visão, não é por acaso ou coincidência que você vive lendo notícias que o seu time ganha tudo no Sub11, Sub13, Sub15, Sub17 ou Sub20 e não revela ninguém, é impressionante mas você nunca vê as estrelas da base chegarem no seu time profissional e quando chegam, dificilmente conseguem se firmar, o número de jovens que conseguem se firmar em seus clubes é muito pequena, a estatística é assustadora e o erro é nítido mas parece invisível pra quem administra as categorias de base dos clubes.

O principal erro está na raiz, na forma de avaliar o trabalho da comissão técnica das categorias de base, do Sub11 ao Sub20, os treinadores são avaliados pelos resultados em campo, têm que ganhar títulos, golear os times pequenos, não pode empatar e se perder de um time de menor expressão então, tem reunião pra tomar bronca no dia seguinte e já corre o risco de cair, a bronca que o treinador toma da diretoria é imediatamente transferida para os atletas na resenha pré-treino.

Consequentemente e talvez de forma até involuntária, os treinadores de base dos grandes clubes acabam priorizando e dando mais oportunidades aos atletas mais fortes e mais altos, dessa forma, mesmo que a vantagem técnica não seja nítida e não faça a diferença dentro de campo, a diferença física é tão grande que a técnica fica em segundo plano e se o resultado for positivo no fim dos 90 minutos, tudo continua lindo e o trabalho continua bom para a diretoria. É óbvio que existem clubes que fazem um grande trabalho na base e a evolução pós 7x1 no futebol brasileiro vem sendo constante, mas o problema ainda é grande e fica evidente que priorizar jovens atletas mais altos ou mais fortes é uma solução para o curto-prazo, vai ter sucesso no Sub11, 13, 15 e 17 mas quando a idade estoura e a categoria profissional é o que resta, todo mundo é forte, todo mundo é igual e aí o atleta não consegue se destacar entre os profissionais porque lhe falta técnica, falta inteligência de jogo, falta um modelo de jogo no qual ele já esteja adaptado desde a base.

Conversei sobre isso com algumas pessoas em alguns clubes e muitos defendem que a cobrança pela vitória sobre os atletas tem que ser forte para que ele se acostumem a vencer desde muito novos e não aceitem a derrota e com relação a isso eu concordo.

Agora, e se o treinador do Sub20 (por exemplo) tivesse uma meta diferente, e se a meta dele fosse preparar os atletas, produzir atletas de alto nível, não precisa ganhar nada, mas eu (como clube) preciso que o Sub20 promova no mínimo 8 atletas por ano para a categoria profissional, os atletas serão avaliados pelo treinador do profissional e se pelo menos 5 forem aprovados para integrar o elenco principal, sua meta foi batida e está aqui o seu bônus, seu prêmio.

O fluxo de atletas seria contínuo com um modelo de jogo já implementado: Sub11 > Sub13 > Sub15 > Sub17 > Sub20 > Profissional, o foco estaria na produção de atletas capazes de integrar a próxima categoria, vencer campeonatos seria apenas uma consequência do bom trabalho.

Falo do sub20 pois é a categoria mais crítica, mas isso serve para todas. Agora mesmo que você ganhe todos os campeonatos no Sub20, se nenhum atleta do seu time for promovido ou aprovado na categoria principal, será que você fez realmente um bom trabalho no seu sub20?

O Santos que reconhecidamente é um clube formador e revelador têm em seu elenco profissional 13 atletas vindos da base, dos 13, 4 ou 5 são titulares, mas eu gostaria de evidenciar o excelente exemplo do Flamengo nos últimos tempos, que hoje tem o excelente Zé Ricardo como treinador da categoria profissional, é óbvio que o jovem treinador ganhou destaque pelo título da última Copa SP de Futebol em 2016 mas será que vencer a copinha foi o grande trabalho do Zé no Flamengo, será?

Hoje o Flamengo têm em seu elenco principal pelo menos 9 atletas vindos da base, atletas que foram trabalhados e treinados por Zé Ricardo, dos nove, destaco o lateral esquerdo Jorge e o centroavante Felipe Vizeu, mas a lista ainda tem atletas como o zagueiro Léo Duarte, o volante Ronaldo e o meia Lucas Paquetá que brilharam na copinha desse ano. Um dado interessante, Zé Ricardo pode ser o primeiro treinador a vencer a Copinha e o Brasileirão no mesmo ano.

A dúvida é a seguinte, se o Flamengo não tivesse vencido a Copinha, Zé Ricardo teria tido a chance de ser treinador do profissional? Honestamente eu acredito que sim, porque a atual gestão do Flamengo dá sinais de grande profissionalismo, mas eu gostaria de poder perguntar isso ao presidente do Fla.

Isso me leva uma outra dúvida, será que se o Corinthians tivesse vencido o Flamengo na final da Copinha, o treinador Osmar Loss (Sub20) teria tido a chance de treinar o profissional depois da saída de Tite?

Obrigado por ter lido até o final, um grande abraço!