Um provérbio chinês que não é provérbio e nem é chinês

Como a maioria das histórias que trazem moral são confundidas com provérbio chinês, e essa história não é pequena como um provérbio e nem grande como um conto, decidi chamá-la de crônica chinesa. Ela se passa no Japão.

Essa história aconteceu no Séc. XII.

É sobre dois homens que desde muito pequenos trabalhavam em uma fazenda de arroz no interior do Japão. Uma herança infeliz deixada por uma família de escravos de guerra e sustentada pelo patrão, um espadachim aposentado do Shogunato — o regime militar feudal que daria lugar à Era dos Samurais.

O primeiro dos homens é um sonhador. Quando menino, a família foi morta brutalmente em uma das inúmeras guerras entre feudos e, a ele, só restaram sonhos e ambição. Já o outro serviçal, apesar de tudo, teve um pouco mais de sorte na vida: formou uma família pela qual era apaixonado. Tinha mulher e filhas pelas quais ele se esforçava muito para satisfazer as necessidades, e nunca buscou nada além disso.

Após árduos anos de trabalho, o sábio patrão decidiu quebrar o protocolo pela primeira vez na história japonesa e premiar a competência e a lealdade daqueles dois homens que estiveram ao seu lado durante todo esse tempo. Como forma de gratidão, ele deu um lote de terra para cada homem e lhes disse que podiam fazer o que bem entendessem com o presente. Estavam livres.

No entanto, havia um porém: o Japão há anos passava por um forte período de estiagem, e a maioria dos campos do país estavam secos e tomados por cactos. Além disso, os lotes que o chefe deu ficavam consideravelmente longe da fonte de água.

Sabendo disso, o primeiro homem começou a pensar em uma forma para impedir que seu feudo sucumbisse à seca. Ficou dias, semanas e meses rabiscando ideias e mais ideias à procura de uma solução para o problema. Nos intervalos, percorria todo o percurso até a fonte e buscava dois baldes cheios de água — tudo o que ele conseguia carregar com seus braços.

O segundo homem deixou o terreno como segunda opção na lista de prioridades. Ele usava o conteúdo de um balde e meio para o bem da família, e o pouco que restava era usado para regar o terreno. Mas ele sabia que não podia desperdiçar o terreno, embora soubesse que não tinha tempo para cuidar dele. Mas como ele precisava fazer o caminho para pegar água todos os dias, pediu para sua esposa limpar a terra cortando os cactos enquanto isso. Assim ela fez. Quando voltava, utilizava um copo para regar e jogava um único grão de arroz na terra. E todos os dias fazia a mesma coisa, água e um grão, em um local diferente do terreno.

Um ano se passou, e enquanto um chegava perto da solução ideal — ele já sabia como se abastecer de água para regar todo o latifúndio e já havia rabiscado uma traquitana para espalhar a semente de maneira homogênea em todos os lugares, o outro continuava gastando o seu esforço com a família e jogando apenas um grão de arroz por dia em um local que ainda não havia feito isso.

Um dia, sem explicação nenhuma, começou a chover. E foi um toró que durou 24 horas seguidas. Vendo toda aquele aguaceiro, o primeiro homem saiu correndo para fazer o cultivo. Pegou um saco de arroz e começou a jogar alucinadamente, em mãos e mãos cheias, o arroz pela terra encharcada.

O segundo homem, diferente do primeiro, não fez nada: ficou com a família na segurança do lar e aproveitou aquele dia chuvoso para acalmar os filhos e a esposa que estavam com medo das trovoadas.

Após algumas semanas os resultados da chuva começaram a aparecer.

O segundo terreno produziu em abundância. Acontece que, por pior que tivesse sido a estratégia do seu dono em apenas jogar um grão por dia, cortar os cactos foi de fundamental importância para manter a terra respirando. O cacto absorve e armazena a água do solo, e ao ser cortado, deixou cair algumas gotas que hidrataram o solo seco, fazendo com que ele aguentasse um pouco mais a porrada.

E quando surgiu a oportunidade na chuva, o trabalho duro já tinha sido feito. A semente já tinha sido plantada e os cactos já haviam sido retirados para que existisse a oportunidade de florescer. Não havia mais nada a ser feito.

A família enriqueceu vendendo o excedente de produção para os feudos vizinhos. Já o primeiro terreno, mesmo após o esforço absurdo feito no dia da chuva, continuou estéril, sem brotar uma muda sequer. Todos os planos e ideias geniais foram diretamente do papel para o lixo, pois quando a chuva chegou a terra já estava morta.

Ele havia perdido o tempo.

FIM.

Bom, e qual é a moral disso tudo?

Que de nada adianta toda a ambição do mundo se você for incapaz de retirar os cactos do caminho, preparar o terreno e plantar no chão, mesmo sem todo o tempo do mundo, um grão de arroz, que seja, por dia.

Na nossa profissão não é muito diferente. Porém, em vez de cactos, temos pepinos. Problemas para resolver todos os dias e dos quais raramente tiramos algo realmente criativo. Mas eles são importantes por um motivo: resolvendo os pepinos do dia a dia com talento, abrimos um espaço na terra para plantar um grãozinho de arroz. Ou, para comparar, plantamos uma ideia que a gente acredita, uma ideia que pode mudar uma situação.

E podemos fazer isso todos os dias se quisermos. Uma insistência que, às vezes, chega a ser imbecil de tão sem sentido, sendo que poderíamos estar em casa com as nossas famílias.

Até que chove.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated André N. Bueno’s story.