A jornada da ética afetiva contada pelo feminejo

Queira ou não, o sertanejo é a voz do Brasil. Nunca um gênero foi tão capaz de se reinventar e readaptar. Com domínio absoluto nas rádios, nos festivais e nos streamings desse nosso país, só o céu se mostrou o limite para os cantores do gênero.

Eis que os SOCIÓLOGOS DA VIOLA aprontaram de novo e deram espaço a uma voz raramente valorizada: a das minas. Nada mudou, mas tudo estava diferente.

Nada mudou porque a música está aí. Mas tudo está diferente porque pela primeira vez na história do gênero alguém levantou a voz e disse: VOCÊS NÃO SABEM NADA SOBRE FALAR UNS AMOR.

Elas sabem. Pra entender melhor isso, precisamos entender a famigerada ética das afetividades que domina esse Brazilsão. Aqui vale começar com uma diferenciação da ética e da moral. Ética deriva da palavra grega VALOR. Moral deriva da palavra grega COSTUME. É por isso que os dois termos andam tão lado a lado: a moral é a confirmação da ética. Mas, principalmente no mundo moderno, Marilena Chauí diz que estamos aos poucos entendendo que a presença de uma ética nem sempre implica na presença de uma moral, e vice-versa. A música sertaneja aborda isso, acredito, por duas perspectivas.

Saca só: ateu ou não, é inegável o fato de que nós, os brazukas, fomos criados sob uma ética JUDAICO-CRISTÃ que prega, sutilmente em sua ideologia, a construção de uma família, e que é na sustentação dessa família que encontramos uma vida que vale a pena ser vivida, ou o pleno exercício da virtude humana. Contraste isso com alguns dos valores hedonistas da modernidade tardia: a vida é uma só, a rotina não sacia nossas angústias, e tudo o que queremos e desejamos está ao nosso alcance; basta buscar.

Essa salada explica (em parte e bem superficialmente) por que o sertajeno universitário foi tão longe: os hinos de declaração saciam a nossa necessidade por afagos monogâmicos, enquanto os sons mais festeiros insistem pra gente que zoar e beber nunca é demais. Sempre com o homem como figura central.
A inversão de gêneros no sertanejo dá um grande tapa na cara nesta destes valores e denuncia que nós não entendemos é nada de afetividade.

Quem disse isso não fui eu. Quem disse foram elas, nos ditos e não ditos das suas letras.
Quer ver? Acompanhe essa história comigo. Leia cada capítulo acompanhando a letra — te prometo que é uma caminhada bem divertida.

1) TANTO AMOR GUARDADO TANTO TEMPO

Em “Medo Bobo” de Maiara & Maraísa, o EU LÍRICO se alivia ao saber que o(a) pretendente tem as mesmas intenções amorosas que ele(a). Atenção aqui: não é felicidade, é alívio. “Eu não aguento mais um amor não correspondido”. Estamos tão inseguros de morrer sozinhos que a oficialização de um relacionamento cria expectativas maiores do que são. E expectativa alta é sinônimo de decepção. Duvida? Se liga só.

2) AI,QUE QUE EU FIZ, ME ENROLEI.

quem nunca ne marilia

Marília Mendonça lamenta a péssima escolha que fez para compartilhar afetos: não só ela está com um menino nada a ver, como ainda cometeu a audácia de terminar com um parceiro que virava o copo. Escolhas ruins, sumariamente, todos fazemos, mas a modernidade nos aconselha a lidar com elas com muita esbórnia.

3) EU TÔ LIGANDO SÓ PRA TE DIZER…

nao consigo parar de ouvir mim ajuda

Mal sabia Marília que a esbórnia não era só voltar pra casa louca pra você largar de mim. Simone e Simaria assumem o fardo da safadeza e chutam para escanteio AS LEIS DO AMOR. Convidam o interesse amoroso, extra-namoro, a viver um caso de adultério. A punição é só uma: condenados a viver compartilhando prazer na cela da paixão. Chora não, coleguinha!

4) CÊ TÁ DE BRINCADEIRA

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QUE BONITO! Como a mentira tem perna curta, o tempo fechou, e o casal foi desmascarado(a) pela Naiara Azevedo, logo no motel que ele a trouxe pra lua de mel. A vontade incontrolável de viver todas as sensações prazerosas possíveis tirou o chão de uma pessoa. Que lixo! Mas Naiara manteve a cabeça forte, e deixou ainda uns 50 reais pra não atrapalhar a noite de prazer de ninguém.

5) JÁ TÔ ESCORADA NA MESA

Maiara e Maraisa assumem o palco pra lidar com o fim abrupto do relacionamento. Não tem outro jeito: agora é beber dobrado ouvir um modão pra cicatrizar a ferida. Quem disse que ia ser fácil? A terceira música no DVD mal acabou e as memórias dos tempos bons já voltam. Quem sofre mais ainda é o bolso: um lamento é uma dose, que cai na conta e aumenta os 10% do garçom.

6) VAMOS CURTIR A NOITE DE PATROA

bicho que calor

Simone e Simaria pedem uma ajuda da Anitta pra dar uma dica pra esse coração partido: é necessário esquecer aquele cara safado que te fez sofrer. Tá aí um grande ensinamento ignorado pelo nosso código moral: tá tudo bem errar na escolha. Não sofre no presente por causa do seu passado. O negócio agora é entrar no carro e aumentar o som.

Em resumo, o feminejo está aí pra deixar claro pra todo mundo que as nossas afetividades vivem um mundo da ética sem moral (conceito concebido por Adela Cortina): nós estamos muito desesperados em sermos felizes e tornar mais felizes aqueles que amamos. Mas o nosso desejo por essa felicidade é tamanho que perdemos a capacidade de refletir sobre a moral que conduz a nossa ética afetiva. E acabamos tornando infelizes não só nós mesmos, mas também aqueles que amamos.

Muito cuidado pra não descobrir isso no dia do seu casamento, senão vai ter gente te mandando jogar a aliança fora.