Representatividade Feminina e Tipografia

Jan 22, 2018 · 10 min read

Ano passado, fui convidada para palestrar do Diatipo São Paulo 2017, um evento que tradicionalmente há quase 10 anos encerra dezembro para todos aqueles que se interessam pela área no Brasil. A princípio, havia planejado um conteúdo para falar um pouco da minha carreira, fazer um paralelo com mulheres que me inspiraram e provocaram a continuar estudando tipografia, mulheres que eram minhas referências e exemplos. No entanto, o lineup do evento mostrava que eu e Elaine Ramos da Ubu Editora, seríamos as únicas duas representantes do gênero em uma lista que totalizava 16 convidados.

Organizações de eventos são desafios pouco reconhecidos, principalmente a gestão de um evento sem fins lucrativos, como o Diatipo é. No entanto, era difícil ignorar uma temática recorrente, que inclusive já foi tema de dois posts da Indra Kupferschmid: o baixo contingente de representatividade feminina em conferências.

Durante o período que estudei na Pós Graduação em Tipografia da UBA, em Buenos Aires, me recordo de procurar trabalhos de mulheres para conceber meu projeto final. Comecei pelo básico, pelo livro Elementos do Estilo Tipográfico, do Robert Bringhurst, que constava na bibliografia básica do curso. Ao verificar o índice de tipógrafo citados, dos 105 nomes apenas 3 eram de mulheres.

Então, tendo em mente que esta não seria uma questão exclusiva de conferências, me pergunto: o que acontece?

O quê?

Existe um consenso — velado ou não — que o design de tipos é ocupado em sua maioria por homens, consenso que reside na gênese da profissão, quando tipografia envolvia chumbo, máquinas de 1 tonelada e ambientes insalubres. Mulheres foram excluídas naquele momento e hoje, ao receberem o “aval” para serem incluídas, ainda existe uma forte resistência em aceitar a presença e a importância da mulher na produção tipográfica, seja produzindo fontes ou pesquisando sobre o tema.

Meu questionamento é se esse afastamento de fato reside no aspecto cultural, se a barreira da capacidade física realmente era o que impedia mulheres de se aproximar de oficinas tipográficas.

Durante a pesquisa para a palestra, encontrei Emily Faithful, inglesa, abriu uma gráfica em 1860, tendo como objetivo fazer a sua parte para diminuir o desemprego feminino, um problema do país naquela época. Contrariou as associações de gráficos e empregou 16 mulheres, manteve a Victoria Press (o nome da gráfica) aberta por 20 anos e imprimiu 35 volumes da Victoria Magazine, uma publicação feminista. Emily empregava sim, alguns homens para fazer o serviço mais pesado, mas sua equipe era basicamente formada por mulheres que trabalhavam na composição de tipos. Diz-se que outros homens que trabalhavam em gráficas sabotavam a de Emily, sujando os vestidos das mulheres (muito maduro) e bagunçando as letras nas gavetas de tipos (realmente, muito maduro)

Foto: Pedro Botton

No entanto, também encontrei um dado muito interessante: muitas mulheres que fazem por onde no cenário tipográficos, muitas mulheres interessadas no tema e trabalhando com tipografia e quase sempre, invisíveis. Achei que esse deveria ser o tema da palestra, uma investigação para levantar números e porcentagens.

Meu critério de abrangência era bem simples, de olhar a instituições e organizações que fizessem parte da convivência diária da profissão. Comecei pelo pelo Type Directors Club, investigando o TDC Medal, um prêmio concedido anualmente a “profissionais e instituições que contribuíram para o campo da tipografia” (em uma tradução livre).

O prêmio existe desde 1968 e me chamou a atenção que a primeira mulher premiada por esta medalha foi a Paula Scher, em 2006. Felizmente a próxima mulher a ser premiada foi em 2015, Louise Fili, em um intervalo menor que 38 anos. No ano seguinte, 2016, a type foundry Emigre recebeu a medalha e então acho que podemos considerar um prêmio para Zuzana Lycko.

Em 2015 o TDC, que já tinha um programa de incentivo estudos acadêmicos, lança o projeto Bolsa Beatrice Warde somente para “mulheres que amam tipografia”. Ao mesmo tempo que sim, é algo bastante positivo para mulheres da área, por outro é mais uma chancela que denota a existência da discrepância.

Mas continuei examinando o TDC e avaliando com atenção estas mudanças sutis. Em 2017, o júri para a seleção de fontes para o TDC Awards foi inteiro composto por mulheres: Elizabeth Carey Smith encabeça o painel que conta com Sahar Afshar, Verena Gerlach, YuJune Park e Dyana Weissman. Acredito que sim, isso é muito positivo e não, não entendo como outra visão unilateral de um gênero: temos uma nova perspectiva. E ainda otimista, posso dizer que ao checar a presença feminina no júri, constatei um gráfico ascendente nos últimos anos.

fonte

Mulheres Acadêmicas

Novamente veio a lembrança da minha turma de Pós. O curso tinha em sua maioria mulheres, todas participativas e com bons projetos. Considerando este recorte do tempo que o Diatipo se consolidou, quis entender como era a participação feminina em outras instituições acadêmicas. Ao pesquisar sobre dados de outras instituições, uma das minhas principais referências foi o levantamento da Isabel Urbina Peña, publicado no site Yesequal.

De 2011 a 2016 em Reading, no Reino Unido, a porcentagem de mulheres graduadas é de 49,4%. Inclusive, Gerry Leonidas, afirma que este número vem aumentando gradualmente.

Em Haia, na Holanda, a KABK apresenta uma porcentagem feminina de 40,5% em relação aos homens no mesmo recorte de 2011 a 2016.

Na Universidade de Buenos Aires, na Argentina, desde a criação da Pós em 2009 (que a partir de 2015 se tornou um mestrado) o contingente feminino é de 75% em relação aos homens.

E a primeira pós graduação em tipografia do Brasil, no SENAC, que ainda está formando sua segunda turma, também segue a estatística latina de superar os 50/50: 53,5% de mulheres.

Ao seguir pesquisando sobre representatividade, no Tipos Latinos, a Bienal Latino Americana de Tipografia que existe desde 2004, constatei que em 2006 a porcentagem de mulheres selecionadas era de 5,9%. E quando digo mulheres selecionadas, me refiro a uma única mulher: Veronika Burian, sócia na Typetogether e nascida em Praga.

A média de mulheres selecionadas nos Tipos Latinos, de 2010 em diante, começa a ascender, chegando 23% em 2014, a edição com mais participantes do sexo feminino até então.

fonte: www.tiposlatinos.com

Favorecer a equidade de gêneros

Ainda não é o ideal, porém, em um olhar mais atento, vi mulheres que estudaram na UBA serem selecionadas nos Tipos Latinos. (Inclusive, eu fui uma delas em 2016). Até a 6ª edição, nenhuma mulher havia sido selecionada para a categoria Família (atualmente, extinta). Na edição em questão, 6 mulheres tiveram seus trabalhos expostos na Bienal.

O board da Atypi de hoje conta com uma participação de 27% de delegadas mulheres. Mas quando examinamos no micro, na diretoria, existe uma porcentagem de 50/50.

E retomando a participação femininas em conferências em 2016, em um levantamento de dados no blog Alphabettes. Apenas 3 conferências chegaram a uma equiparação de gêneros: Sans Everything, 57,89%, na França, ICTVC, com 52,08% na Grécia e a Typographics, com 50% nos Estados Unidos. O restante, outras 25 conferências listadas ao redor do mundo com um número abaixo da metade de mulheres.

No começo de janeiro de 2018, quase 1 mês depois da palestra, o Alphabettes divulgou os dados de 2017, com número mais otimistas.

E se vocês me perguntarem se quero cotas, respondo que sim. A Indra também sugere em outro post do Alphabettes (que como vocês podem perceber, foi uma inspiração constante para boa parte das reflexões que compartilho aqui) que não deveríamos aceitar a participar de eventos nos quais mulheres não representam uma porcentagem de 30%.

A Sassconf, um congresso de linguagem Sass, seguiu o caminho da equidade de gêneros em na curadoria de seus palestrantes e conseguiu subir a porcentagem de mulheres inscritas de 5% para 28% no ano seguinte.

Mulheres podem ter outras maneiras de se expressar. Se expor no formato palestra/palco/público não é sempre o mais amigável: muitas garotas recusam convites. Não é uma tarefa simples se sentir confortável em um ambiente masculino. É necessário abrir espaço para que esses números mudem, seja revendo formatos, seja no esforço de trazer mais mulheres.

Empatia e outras perspectivas são bem-vindas

A partir do momento que encontramos mais modelos aspiracionais, a tendência é que realmente os números subam. Fui questionada no palco qual era a minha opinião sobre o número massivo de mulheres na caligrafia por exemplo, que não deixa de ser uma participação feminina na tipografia. Porém, em 2017 divulguei um questionário, destinado a pessoas do gênero, interessadas em tipografia e uma das perguntas era: “Existe alguma área da tipografia na qual você gostaria de se aprofundar mas ainda não o fez? Saberia dizer por quê?” Seguem algumas respostas:

“Desenvolvimento de fontes, com certeza! É um trabalho mega metódico, mas que acho que eu acharia meio terapêutico de certa forma. Queria estudar mais essa área, mas sinto que ou os cursos são muito caros e longe das minhas condições financeiras no momento, ou eles exigem que você já tenha certos conhecimentos prévios que acho que eu não tenho.”

“A área é extremamente complexa e eu não sei nem por onde começar”

“Type design, comecei uma fonte mas desisti por não ter a liberdade que adquiri no lettering. Ou talvez só não soube reproduzir a mesma liberdade”

“Desenvolvimento de fontes, porque estudar algo que nao esteja na grade curricular é dificil, e como terei oportunidade de estudar mais a fundo nos semestres mais a frente optei por esperar chegar esse momento”

“Desenvolvimento de fontes, parece muito complexo

“Acredito que todas porém criação de fontes me assusta por ser uma arte tão difícil, pelo menos quando é bem feita”

“Desenvolvimento de fontes. Falta de tempo para pesquisar e finalizar os alfabetos já desenhados. Também dá sempre medo de fazer uma fonte, pois a área da tipografia é muito detalhista e não possuo total conhecimento.”

“Desenvolvimento de fontes, acredito q ainda não tenha base para tal.

Quando entrevistei Matthew Carter, em 2014, lembro de ter comentado com ele sobre ensino acadêmico e sua resposta foi que “Apesar de existirem bons cursos hoje, acredito que todo designer de tipografia é autodidata; na maioria, aprendem sozinhos.”

De fato, tenho muitos colegas do gênero masculino que seguiram na profissão sem necessariamente precisar de um aprofundamento acadêmico. Por outro lado, para mulheres, ainda em 2017, mesmo com todos estes dados que encontrei segue essa percepção quase intimidadora que tipografia é algo complicado, difícil e que não é para a gente.

Na prática, reitero: estamos desenvolvendo conteúdo de qualidade na tipografia. Novamente o Alphabettes que, além de abordar desde representatividade até questões técnicas, também conta com um programa de acompanhamento para mulheres que queiram uma ajuda para se iniciar no type design.

Também recomendo o Yesequal, um índice no qual você pode encontrar representantes do gênero que trabalham em diversas áreas pelo mundo todo. Além de ser um buscador, o blog do Yesequal tem posts que abordam a temática com dados e gráficos.

Victoria Rushton fez um índice geral de fontes e suas respectivas desenvolvedoras, um panorama necessário para entendermos o tamanho da nossa atuação na área.

Tanto Reading como a KABK disponibilizam em seus sites os projetos de seus alunos. Durante minha pesquisa para a palestra fiz questão de olhar trabalho por trabalho. A última turma do mestrado da Uba tem uma conta de instagram, a 27caracteres .

No Brasil existe uma iniciativa chamada a “Letra Dela”, super recente mas já cheio de vontade de mostrar a cara de mulheres do type design, lettering e caligrafia.

E por fim, inspirada por Elizabeth CareySmith, sugiro 3 coisas simples, porém importantes para contribuir com os números compartilhados neste post:

Encoraje uma mulher

Encorajar uma mulher não é o mesmo que dizer para nos esforçarmos mais. Sabemos bem como fazer essa parte. Encorajar também não significa ignorar a diferença entre gêneros, fingindo que ela não existe ou que “é coisa da nossa cabeça”.

Divulgue o trabalho de uma mulher

Parece simples mas ainda é uma ação que precisa de mais engajamento. Compartilhe um trabalho, mencione, taggueie, comente.

Conheça o trabalho de uma mulher

Buscar referências de outros gêneros. Fazer o exercício de olhar portfolios, se aprofundar em nossas histórias, falar com a gente.

Mesmo me envolvendo com a causa da representatividade, ao fazer esta imersão aprendi muito e tive contato com muitos trabalhos realizados pelo gênero que não fazia ideia que estavam em andamento. É importante termos consciência que o fato de não vermos divulgação de nossos trabalhos não significa que não estamos produzindo. Estamos aqui sim e queremos fazer acontecer tanto quanto qualquer homem.

Foto: Pedro Botton

Deia Kulpas

Written by

Tipografia, representatividade feminina e indie rock.

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