A arrogância do orgulho negro

Beyoncé (SuperBowl 2016).

Lembro de poucos anos atrás quando ainda me considerava apenas “moreno” ou “pardo”. Me parecia um crime assumir que eu gostava da minha boca grande, meu nariz proeminente, minhas sobrancelhas grossas e do meu cabelo crespo. Descobri que sim, eu gostava muito de tudo isso. Em fato, percebi que amava meus traços em demasia.

Acredito que com esse medo de ter um amor-próprio declarado acabei permitindo muitas pessoas entrarem na minha vida, pessoas que eu não deveria ter aberto as portas da minha morada. De qualquer forma aconteceu, e tive que lidar com todas as experiências possíveis para conseguir sair de determinadas situações. Bem, essas experiências no final das contas acabaram me moldando para o que viria a seguir.

Você que acompanha os inúmeros leques da cultura pop, deve estar familiarizado(a) com o vídeo de Formation, da artista Beyoncé. Não faz muito tempo em que ela, ao lado de Bruno Mars apresentaram suas canções no intervalo do SuperBowl 2016, no melhor jingado que a black music pode oferecer.

A diferença é que a canção de Beyoncé exalta o orgulho de seus traços negros, e isso lhe custou até mesmo uma manifestação virtual para boicotá-la (manifestação essa em que três pessoas marcaram presença no dia, sendo uma delas apenas um transeunte que distraidamente caminhava por ali).

Sabemos também que Beyoncé precisou galgar muitos anos e hits para consolidar sua carreira a tal ponto que qualquer um nos quatro cantos do globo soubesse de seu nome. Quando conseguiu, tivemos então o lançamento de Formation.

Isso me relembra os anos 90 em que Madonna abertamente defendia a comunidade LGBT, falava sem pudores sobre a AIDS e sobre sua sexualidade. É claro, ela também sofreu um boicote com isso, mas como qualquer artista branco, seus louros vieram em seguida, quando ela abriu portas para que mais artistas pop pudessem fazer o mesmo. Talvez as pessoas tenham esquecido de Grace Jones lá atrás, com seu orgulho impetuoso, sua beleza andrógina, sua personalidade ferina, sua sexualidade e suas inovações na moda e na cultura pop em geral.

Hoje em dia temos artistas que pegam emprestado várias referências destas duas artistas, mas a mais citada sempre é Madonna.

Grace Jones.

Você entende aonde quero chegar, caro leitor? Madonna, em sua coragem e orgulho conseguiu colher os frutos que queria para a sua carreira, também sendo inovadora e transgressora em muitos pontos. Não acho que Grace Jones tenha tido este mesmo privilégio, por mais conhecida e venerada que fosse, ela sequer é citada hoje em dia. A não ser quando ela clama pelas suas próprias ideias roubadas e pastichadas e é pintada como arrogante por isso pela mídia.

E temos também uma breve confissão da senhorita Jones em sua autobiografia que exemplifica um pouco disto:

“[…] Mas eu fiz essas coisas pela empolgação, pelo desafio, pelo fato de que eram coisas novas, não pelo dinheiro, e por muitas vezes eu fui a primeira, mas não a beneficiada”.

Agora voltemos aos tempos atuais. Temos Azealia Banks, temos MC Carol, temos Taylor Swift e Iggy Azalea. E na parte de artistas masculinos temos Eminem, Macklemore e Kendrick Lamar.

Vemos o quanto movimentos sociais e diálogos mais abertos trouxeram a possibilidade para alguns desses artistas de exaltarem seu orgulho, seu empoderamento.

A grande e gritante diferença, é que ainda vemos Taylor Swift na mídia exaltando seu orgulho de ser uma feminista. Não vemos esta mesma atenção para com Azealia Banks.

Azealia, assim como Grace Jones, é conhecida por ter uma personalidade ferina e sem papas na língua. De tal forma, ela é vista como arrogante, grosseira, uma verdadeira recalcada que só sabe falar mal de outros artistas para exaltar a si mesma (embora os seus fãs saibam da imensa quantidade de artistas que ela elogia e admira, muitos deles também brancos, mas as pessoas parecem ignorar isso). O seu quadro piora quando ela se defende do público gay branco que a considera homofóbica.

O mesmo público que acredita que Iggy Azalea e Macklemore sejam os melhores rappers da atualidade.

Mas, espere um instante. Azealia é bissexual. E ela já falou inúmeras vezes que o movimento LGB branco não a contempla. Homens gays brancos principalmente. E é a mais simples e boba verdade. É tão óbvio que chega a ser risível. Ela é uma mulher negra e bissexual, extremamente talentosa com suas incontáveis letras, seus alter-egos e personagens, as histórias que tece em suas músicas inspiradas em experiências pessoais. Ela sabe que é talentosa e exalta este orgulho pertinentemente. Ela sabe que ser ela mesma incomoda profundamente.

Azealia Banks.

Beyoncé precisou de mais de uma década para falar com todas as letras que sim, ela é preta e orgulhosa disso. O pai de Alabama, a mãe de Louisiana, o amor ao cabelo afro da filha (que já foi alvo de piadas em programas de humor norte-americanos. Sim, isso mesmo. Fizeram piada com o cabelo crespo de uma criança. Homens adultos e brancos, mulheres brancas também). Beyoncé precisou de mais uma década para conseguir falar sobre o que Azealia sempre fala desde o começo da sua carreira. Para tocar na delicada corda da apropriação cultural (que ironicamente parece ferir mais os sentimentos de gente branca quando o assunto é abordado. Eu disse parece).

E isto foi o que mais piorou o quadro da senhorita Azealia. Seu orgulho escancarado sendo uma artista negra ainda em ascensão. Fez com que portas fossem fechadas em sua cara, a mídia se deleitasse com qualquer frase sua fora de contexto. A preta, a barraqueira, a recalcada, a homofóbica. A preta.

Isto também me faz pensar em inúmeros artistas negros que exaltam seu orgulho negro e não têm a mesma atenção da mídia que o orgulho de ser uma feminista branca ou um gay branco que saiu do armário. Gostaria de ver mais sobre Mykki Blanco ao invés de Sam Smith que alega ser o primeiro gay assumido a ganhar um oscar. Gostaria de ver mais RuPaul em programas norte-americanos falando sobre a cultura drag e suas experiências pessoais, ao invés de um programa chamado LipSync Battle (onde vemos descaradamente o quanto a cultura pop hetero adora sugar coisas da cultura pop gay, e clamam sua “originalidade” na cara dura, porque eles sabem que serão ovacionados por isso, não é RuPaul ou qualquer outro negro transgressor que será). Gostaria de ver um reconhecimento melhor para o estrondoso talento de Azealia Banks em tecer suas letras e fazer monstruosos freestyles nos seus shows. Ao invés de Iggy Azalea que mal consegue manter o fôlego enquanto canta palavras inexistentes para embromar seu público — público este que sempre a considerará uma rapper talentosíssima. Não importa o quão contestável isso seja. Ela é branca, seu passe livre de privilégios já está prontíssimo para pegar na primeira fila.

RuPaul

O orgulho negro é visto como arrogante porque ele fere as normas que nos foram impostas. Não deveríamos nos amar, não deveríamos nos exaltar. É extremamente incômodo para os brancos, que tanto roubam nossas ideias, nossas transgressões e nossa cultura, nós chegarmos e falarmos “para de clamar originalidade por algo que não foi você que criou. Este orgulho é meu, isto vem de mim, da minha cultura, do meu povo”.

E quando damos um basta para esses furtos descarados, eles alegam que somos arrogantes e grosseiros demais. Que somos extremistas. Imagina o quão chata seria a cultura pop se não tivesse toda uma comunidade criativa por trás de tudo o que os brancos “fazem”.

A diferença agora, é que já cansamos disso. Mas ainda temos mais, muito mais, sempre teremos mais. Porque a negritude é um poço infinito de criatividade.

Não posso dizer o mesmo daqueles outros.

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Andrew Oliveira

24/03/2016

17:37

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