Caroline

Ela não tinha mais tanta certeza se ainda deveria guardar aqueles antigos diários ou jogá-los fora. Não é como se ela tivesse mais algum sentimento afetuoso por eles. Porque tudo o que havia escrito naquela época não lhe cabia mais. E ela detestava a maneira que escrevia anos atrás. Caroline era bastante objetiva quando se tratava de tomar alguma decisão crucial. E entre queimar os seus diários ou jogá-los fora, ela preferiu colocá-los no depósito de seu apartamento.

Naquele minúsculo espaço entupido de móveis desmotandos, colchões, uma bicicleta surrada pelo tempo e vassouras carcomidas. Caroline era uma colecionadora nata, mas ela detestava se denominar como uma. Na sua cabeça, todas as pessoas guardavam coisas inúteis porque era algo inerente da natureza humana. Ela não sabia muito bem como explicar didaticamente sobre isso, mas era uma análise apenas sua.

“A gente guarda porque tem que guardar”.

Acontece que Caroline tinha um sério problema em guardar não apenas objetos inutilizáveis ou escritos juvenis, mas também memórias intensas e constantes de tudo aquilo que ela havia vivido. Caroline vivia o tempo inteiro transitando entre o passado e o presente, e vez ou outra se permitia um vislumbre de uma possibilidade futura.

Não era culpa dela, mas ela também se culpava por isso.

Caroline era caterógica e frívola quando queria. Se algo não a agradava, isso ficava bem claro através de suas palavras ferinas e seus gestos indomáveis. Ela chegava e falava. Ela gritava. Ela tinha crises de depressão às três da manhã e não conseguia dormir porque acreditava estar sendo observada por alguma força. E isso a irritava profundamente porque fugia do seu controle. Seu próprio descontrole era tratado como um problema objetivo a ser resolvido imediatamente.

Mas era neste detalhe que ela falhava. Porque Caroline nunca se enxergou como uma pessoa instável emocionalmente. Era mais como uma criatura que havia nascido da fúria e da frustração. A pele preta, os lábios gigantes, o cabelo crespo.

Caroline havia passado toda a infância até o final de sua adolescência odiando seus traços. E até um pouco durante a fase adulta isso ainda havia perdurado inexoravelmente. Era um absurdo ela ser tão talentosa e, ao mesmo tempo, tão invisível e pouco notada. Caroline sempre colocou em sua cabeça para se refinar o máximo possível em suas virtudes, mas isso também não adiantava.

Pois a pele, pois os lábios, pois o cabelo armado.

Caroline deixara de clarear a sua pele em seus autorretratos três anos atrás. Por algum motivo isso passou a ser apreciado por aqueles que lhes eram próximos. Mas apenas por aqueles, nunca pelo mundo inteiro. Caroline queria o mundo inteiro. Caroline era pura fúria e ambição.

De repente lhe pareceu uma ideia estúpida ainda guardar aqueles diários. Escritos juvenis onde ela almejava por um príncipe pálido de boca fina e furinho no queixo. Por que aquela Caroline era tão imbecil e repleta de ideologias ingênuas? Quanto mais ela escavava por respostas que não faziam diferença alguma, mais ela ficava presa ao passado.

Ela vivia lá atrás, submersa na sinestesia de sua própria memória. Demorou apenas mais quatro anos para ela sair daquele lugar em que havia se submetido. Escrava de tudo o que sentia, Caroline se percebeu saturada e extremamente puta da vida. Por que ela havia permitido isso? Por que ela achou que precisava disso?

Mas Caroline só aprendia quando levava na cara, como sempre ditaram os roteiros que o mundo lhe entregava. O mundo era arrogante demais para aturar sua pele preta e seus lábios enormes. E Caroline era arrogante demais para se dar por vencida.

Cansada de procurar por um rumo mais claro, ela decidiu então abraçar por completo a sua depressão. Passava semanas sem aparecer na faculdade, raramente entregava os trabalhos, dormia três horas num dia e doze horas três dias depois. Quando ficava tempo demais acordada, suas alucinações se intensificavam e a sensação de estar sendo vigiada e perseguida era constante. Caroline sentia pânico quando precisava sair. A comida não tinha gosto. Seus passos não tinham peso. Seus olhos lacrimejavam por qualquer motivo, até mesmo por uma louça que ela havia esquecido de lavar no dia anterior.

Caroline cortou os pulsos porque estava muitíssimo bem decidida, obrigada. E ela não tinha qualquer pretensão de causar transtornos a terceiros. Mas arrogante como era, seus planos mais uma vez falharam e ela teve que lidar com o temido “depois”. Caroline tirou a mãe aflita de sua cidade natal para cuidar dela nos dias após seu ato inconsequente.

E a mãe lhe deu banho, trocou seus curativos, lavou suas roupas e organizou seu quarto. A mãe não sabia o que falar e ela também não. Talvez tenha sido melhor assim, porque a gente não precisa de resposta pra tudo.

Alguns espaços vazios são necessários.

Caroline ainda pensou em concluir sua vontade vez ou outra. Mas ela lembrou da mãe. Aquela mulher tão ímpeta e corajosa que cruzou meio país para niná-la em seu colo mais uma vez. A mãe tinha esse velho hábito de salvar Caroline dos seus vícios em correr em direção aos precipícios.

Era culpa de Caroline ou do mundo? Provavelmente dos dois. Mas por que tudo sempre se resumia a alguma culpa? Ela também estava puta da vida com isso.

Caroline sempre quis ter metade da coragem que sua mãe tinha. E tentava provar o tempo inteiro para si mesma que um dia conseguiria chegar ali. Mas Caroline correu até ao infinito e se perdeu por lá inúmeras vezes. Esse era um péssimo costume seu, o de se jogar nas correntezas e fechar os olhos para o próximo destino.

Depressão dos infernos.

Caroline se tornou ainda mais arrogante. Porque estava viva e porque decidira que aquele não era um parágrafo final. Era ela completamente vontade de esbravejar e provar que ainda existia.

Os diários permaneceram guardados e intactos no depósito. E ela decidiu sair guiada pelo anseio de comprar flores para a mãe.

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Deirdre

01/04/17

10:32 AM

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Photo: “Deirdre debaixo d’água” — por @cherrymayfair

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