Carta amanhecida

Talvez você só esteja em outro lugar que ainda não conheceu. Você já pensou na possibilidade de estar submersa demais na própria cabeça? De estar tão dentro de si mesmo que acabou dificultando enxergar o mundo aqui fora?

Eu sei que aqui fora é doloroso demais. Por vezes tão insuportável que você acaba se esquecendo das coisas que deveria fazer. E quantos planos se acumularam até esse momento? Quantas possibilidades e pequenas frustrações que cresceram e se tornaram monstros inabaláveis?

Você sente falta daquilo que deveria ter se tornado e sente falta daquilo que você demorou demais para ser.

Mas você ainda está aqui, mesmo que de vez em quando o esquecimento chegue como um tornado. Ele consome tudo, menos a sua essência. Ele te ensina sobre as camadas da perda, aquela ausência já tão conhecida e aquela memória embaçada demais para ser sentida com a devida clareza.

Então quem você é agora e o que você precisa fazer?

A nostalgia amanhece muito lentamente e é como se a noite ainda insistisse em permear o máximo que ela pode, porque a partir desse momento você se torna um alimento dela. Mas você não precisa deixá-la te consumir também. A noite e a nostalgia são partes de você, entretanto elas nunca deixaram de ser complementos. Você é um quebra-cabeças infinito.

Nem mesmo eu consigo prever qual peça irá completar tais sutilezas.

Porque você é feita delas, destas tantas nuances tempestuosas. Você é um dia chuvoso que fez sol as quatro horas da tarde. Você é aquela pequena ansiedade cotidiana que temos quando precisamos tomar alguma decisão com urgência e você também é a tranquilidade que chega depois dela.

Onde você está agora?

Eu só sei que em algum momento você voltou a sentir medo de voltar para aquele lugar. E eu entendo, pois o tempo inteiro eu penso sobre isso. Na possibilidade de ceder e afundar novamente nas ondas, afogar-se na instabilidade. No pavor de perder o controle sobre o próprio corpo e ao mesmo tempo se sentir distante deste corpo.

Não se esqueça de voltar para a superfície.

Eu sei que nem sempre eu estou por lá, pois também me esqueço numa eventualidade ou outra. É difícil respirar com os pulmões cheios d’água. O sal e o calor que me desidrataram, deixaram meus lábios rachados e a minha pele queimada. Aquilo que me fez arder e entrar em autocombustão.

Depressão não te deixa com frio, ela te reduz a cinzas. Você mal tem tempo de sentir frio porque acontece tudo rápido demais. Ela te obriga a encontrar alguma maneira de você se reconhecer pela segunda ou terceira vez. Ela arranca as suas memórias e tudo o que você se esforçou tanto e por tanto tempo para sentir. Todos aqueles sentimentos que você clamou pela independência já não são mais seus.

Não se esqueça de nadar até a superfície, por mais que os seus braços já estejam extremamente cansados e doloridos e você se sinta num piloto automático daquilo que você uma vez foi. Do paladar perdido ou da indiferença crescente.

Não se esqueça de nadar até a superfície. Acredite em mim quando eu digo que você conseguirá respirar novamente e irá assistir a chegada da noite ao meu lado.

De todos aqueles que se perderam na correnteza, você é a única que conseguiu recuperar o fôlego.

Não se esqueça de nadar até a superfície.

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Andrew Oliveira

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18/09/16

06:49 AM

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Photo: “Aure no navio para Buenos Aires (outubro, 2014)” — por @cherrymayfair

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