Carta do autorretrato.

Ainda existem assuntos pessoais que eu raramente converso sobre alguém. Até para melhores amigos. Principalmente para a minha família. Não sei como descrever isso ou sequer começar um diálogo sobre isso. Mas durante um bom tempo, mais especificamente dos meus seis aos oito anos, e novamente aos doze, algumas pessoas tiraram vantagem de mim. Da minha idade, do meu medo e do meu corpo.

Na idade em que passava dos doze anos foi a primeira vez que minha depressão bateu a porta do meu quarto. E me disse num sussurro que eu deveria morrer por aquelas coisas terem acontecido durante todo aquele tempo. Passei a ter pesadelos constantes, terrores noturnos e só conseguia dormir bem pelo horário da tarde. Com a janela aberta e luz suficiente para nenhuma sombra me atormentar enquanto descansava.

Foi a primeira vez em que tentei me matar, e não obtive êxito. Mas o sentimento que eu tinha naquela época era de que estava completamente isolado e absorto das pessoas ao meu redor. Eu não conseguia sentir nada daquilo que me entregavam. A sensação de ser um cárcere intensificou quando descobri minha atração por homens. Porque a culpa de tudo aquilo ter acontecido aumentava. “Se eu gosto de homens, então provavelmente deveria ter guardado mesmo”.

Também foi na mesma época em que a minha sobrinha nasceu. E minha cunhada e sua filha mudaram para a nossa casa.

Eu não entendia por que me sentia diariamente pesado e cansado das coisas. Até que me ocorreu o tempo em que eu chegava da escola e passava o período da tarde cuidando da minha sobrinha, para sua mãe se concentrar nos estudos. Meus pais também lutaram para que ela não parasse de estudar, e ela principalmente.

A depressão se afastou quando eu gastava minhas tardes fazendo minha sobrinha dormir, trocando suas fraldas, lhe dando banho e lhe fazendo sorrir. E durante um bom tempo ela não havia dado as caras.

Próximo dos meus dezenove anos ela voltou e não quis mais hibernar. Durante esse período eu ainda me desgastava num relacionamento abusivo com um homem bipolar. E também cuidei dele numa troca de dependências enquanto voltava para o hospital visitá-lo. E me obrigava a vê-lo se autodestruir na minha frente, enquanto não tinha a menor ideia do que fazer com tudo aquilo.

Numa de minhas últimas visitas ao seu leito, ele já havia se tornado alguém que eu não conhecia. Aquele peso já estava voltando e eu não tinha mais forças para continuar ao seu lado. E foi um pouco depois deste momento que terminamos.

Quando a ausência dele passou, a perspectiva que eu tinha de qualquer relacionamento era de dependência mútua. E me tornei ácido, intragável com a raiva constante que eu sentia das coisas. Odiava o que eu havia me tornado, odiava a minha pele e odiava mais ainda por me sentir responsável por qualquer coisa que havia me acontecido. Era tanta raiva que só me sobrava solidão e a vontade de causar algum caos.

Me revoltava comigo por tudo aquilo. Sentia vontade de queimar minha pele, arrancar minha pele. Cortar minha pele profundamente para que eu pudesse entender o que estava acontecendo lá dentro. E dessa forma poderia me sentir um pouco aliviado das vozes na minha cabeça. Da sombra que está sempre ao meu lado me ditando o que fazer, o que dizer, o que deixar de sentir.

Talvez ela tenha nascido no momento em que percebi a minha própria presença. Eu nunca vou saber.

Me tornei o caos que eu queria que acontecesse. Deixei me punirem por razão alguma e na mesma medida também punia com palavras. Principalmente com quem eu amava. Com qualquer um que estivesse do lado de fora eu deixava uma bomba-relógio ao seu lado e voltava pra casa.

Durante um tempo eu permiti que minha depressão ditasse por mim. Tanto pela culpa quanto pela imaturidade. E no último ano ela veio maior, inatingível. E nada do que eu fazia prosperava algum resultado. Já estava cansado de trocar de medicação e a cada mês minha dosagem só aumentava, e ainda decidia colocar álcool excessivamente sobre ela.

Enquanto isso também gostava de me afundar em outros relacionamentos abusivos que me lembrassem a culpa e o isolamento. Que machucassem o quanto pudessem.

A minha apatia voltou e eu passei a tentar me esforçar a comer. Meu estômago corroeu e assim que acordava bebia um gole de vodca. A garrafa sempre repousada ao lado da minha cama. Numa tarde, demorei uma hora para conseguir chegar ao banheiro e ligar o chuveiro, e por alguma razão isso havia me deixado extremamente magoado. Voltei para a cama molhado e passei a socar a parede. Nem a dor física eu conseguia sentir.

Isso me fez sentir raiva de outra coisa, não de mim ou das autopunições que fazia. Mas da minha depressão que tomou conta dos cômodos em que eu morava. Ela me obrigava a me tornar tudo o que eu não queria e tudo o que eu poderia ter lutado contra. E passei a me revoltar contra ela, questioná-la, expulsá-la do meu quarto.

Também passei a me expressar muito mais claramente com as coisas que sempre gostei de fazer. Escrever, fotografar e dançar. Passei a fazer disso minhas terapias pessoais. Mas nem sempre elas funcionam. Nem sempre escrever me faz bem , nem sempre construir um projeto fotográfico me fará ter energia suficiente para enxergar as coisas ao meu redor. Nem sempre irei dançar.

Me demanda uma grande atenção e disposição diárias conseguir me manter estável. Mas eu estou tentando. Eu realmente estou tentando porque depois de todo esse tempo eu não quero que a minha doença se torne vitoriosa e tome o meu lugar. Eu não sou minha depressão, eu não sou minhas tentativas de suicídio. Eu sou um artista, e essa é a minha resposta para o mundo.

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Andrew Oliveira

24/10/15

06:13 AM

Photo: autorretrato da ansiedade.

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