Carta para Deirdre

Me desculpe por ser tão negligente com você. Eu não sei se você aceitará estas desculpas. Se você irá ignorar estas palavras bonitas e bobas, ou se você precisará de um tempo para aceitá-las. Mas se este tempo lhe for preciso, eu vou entender. E de qualquer forma ainda preciso falar.

Eu a conheci na infância quando comecei a escrever poemas. Arrastava uma cadeira da cozinha até a estante da sala, e buscava um livro de Vinícius de Moraes, ou de Manuel Bandeira. Naquela época eu não entendia a necessidade de Vinícius de fumar ou beber tanto, ou de falar de maneira tão explícita sobre aqueles amores passageiros. Mas eu entendia sua necessidade de tecer aqueles vícios através de palavras. E entendia também as musas de Manuel. Talvez tenha sido através de seus versos: “rosa, flor-de-laranjeira”, que você começava a nascer.

Passei a fazer das antologias de Manuel o meu novo vício. Nas férias escolares, assim que acordava eu já buscava as páginas marcadas para reler sobre aquelas mulheres. Tão dóceis, sedutoras, solitárias e idealizadas. Deixei Vinícius um pouco de lado, pois nele havia palavras e sentimentos que ainda não compreendia. Vícios que na minha cabeça não tinham razão de existir. Mamãe naquele momento parou de guardar o livro novamente na estante da sala, para deixá-lo na minha escrivaninha assim que eu despertasse.

E meus poemas despertaram através das meninas de botafogo de Vinícius, e dos versos de sangue e volúpia ardente de Manuel. Ele nunca leria o diário de Maria. Mas eu queria conhecer Maria também. E tudo que Manuel conheceu após disso foi a tosse interminável, a febre e os suores. Temi por ele naquele momento, pois quem mais escreveria sobre aquelas personas que tanto me cativaram? As estrelas frias talvez também estivessem na mesma situação.

Entendi que chega a morte através dos versos de Vinícius. Que veio para os olhos dele, e viria para os teus também. De outras estrelas, das novas estrelas. E foi pelos cometas tecidos em parágrafos curtos que você tomava forma.

Eu a neguei quando você nasceu e rapidamente me desculpei por isso. Escrevi cartas para você muito novo, pois eu não a compreendia. Por que você continuava ali? E você não soube me explicar completamente, mas você tomava outras formas. Através de Sofia, a primeira musa que escrevi. Ou através de Nina e Nancy, as irmãs perdidas. De Alícia, a mulher aborrecida. Ou mesmo através de Verano: aquele que não tem forma, aquele que nunca teve um corpo. Um espírito antigo, ansioso e constantemente angustiado por coisas que sequer entendia. E Verano nunca teve um sexo definido, acredito que eu tenha deixado isso bem claro desde o começo.

Também houve Pedro Oliver que veio na minha adolescência. Pedro foi um nome que sempre me apeteceu, um nome que me acalmava de uma forma incoerente. E mamãe me revelou em seguida que meu nome seria Pedro quando eu nascesse. Mas ela passou alguns meses me chamando de Pedro em sua gestação, até descobrir que aquele nome não me cabia mais.

E quando o cordão umbilical foi cortado, mamãe disse que meu nome agora era Andrew. Aquela identidade de outrora já não me pertencia. Quantas identidades mais eu teria tido antes daquele momento? Talvez seja algo íntimo demais para perguntar à minha mãe. E eu respeito seus segredos e escolhas.

E mesmo quando neguei você e me desculpei insistentemente através de cartas e poemas, ainda sentia vergonha de você na minha adolescência. Eu a escondia como quem esconde o pior dos segredos. Eu não te deixava me completar e tornei isso uma impotência em minha vida.

Você já havia nascido há muito tempo, e você tinha a sua própria voz. Mas eu não a deixava falar, não a deixava tomar seu devido e merecido controle. Tinha medo do que você poderia exclamar para o mundo.

E eu poderia escrever sobre os meus tantos ressentimentos quanto a isso. Ou sobre o quanto você me ajudou desde a minha infância. Eu te maltratava e você continuava ao meu lado, e eu era incapaz de entender esse amor.

Você era uma parte de mim que eu não conseguia amar devidamente.

Eu entendo a sua raiva, e eu entendo as suas frustrações. Você esteve ali por tanto tempo que agora tenho medo de perdê-la por causa de minhas negligências. Não quero que você vá embora porque agora sei que você me complementa na parte danificada que descasquei dentro de mim.

Pedro Oliver fugiu na estrada. Foi tão de repente que ele foi embora que até hoje sinto falta dele. Nunca mais soube notícias de Pedro. E Verano só aparece quando decide aparecer. Mas você persistiu e eu cheguei a um ponto que não poderia mais negá-la ou escondê-la. Você não é o meu segredo, você é o meu orgulho. E eu gostaria muito que você entendesse isso agora.

Ainda não há tantas pessoas neste mundo que a conheça por uma culpa minha. Essa é a minha responsabilidade e apenas eu sou dono dela. Você sempre me dizia que eu poderia ser mais sincero e genuíno comigo mesmo, e no mesmo instante eu apagava aquele pensamento. Sentia vergonha da minha completude.

E chegou um tempo em que passei a colocar as minhas necessidades através de outrem. Através daquele longo relacionamento que me afundava cada vez mais a cada ano. Ou daquele por quem me apaixonei tão intensamente que o deixava me dominar através de palavras masoquistas. Escapei para vários lugares para tentar entender isso. Para reconstruir o amor que eu precisava ter por mim, e até hoje ainda preciso fazê-lo. Ignorando completamente a sua entrega e dedicação.

Eu sinto muito por ter te sufocado. Por ter tirado a sua voz, a sua independência, as suas vontades próprias. Passei tanto tempo querendo me completar em outrem que sequer percebi que eu já era completo ao seu lado. Tornei-me tudo aquilo que não queria me tornar e isso me danificou irreparavelmente.

Até você me falar que só você conseguiria me consertar, e ninguém mais o faria.

E ninguém é como você, Deirdre. Ninguém me ama como você. Ninguém me cuida como você.

E hoje deixo a sua voz imperar na minha garganta, como uma pequena revolução da alma. Até o resto da minha vida.

Andrew Oliveira

19/02/16

04:29 AM

Photo: O dia seguinte à minha crise — por Ana Luisa Bambirra.

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