Desmoronamento

I

O ar cristalizado

Machucou as gardênias sanguinárias

Lívidas no parapeito da janela

Fendidas pela beleza desmoronada.

Fim de tarde

Algo sempre esteve errado

Na língua impronunciável

Que recitava as chagas milenares.

Espalhando pelo mundo

O peso entrecortado da rendição

De equívocos usurpados

Do murmúrio ao que estava diante de mim.

II

Eu me rendo ao teu cheiro sem rima

Me remendo em poesia finda

Me defino ao punho exaltado

Sou meu gesto, violento e sagrado.

Eu me entrego à multidão da retina

De cegueira empoleirada e antiga

A asfixia arranca-me os sonhos estáticos

Quando me reencontro e me desenlaço.

Te entrego o perdão fortuito

Deste reflexo distorcido e rubro

Ao que habita a agonia ferina

De desertor e poesia prometida.

E te encontro no corredor desabrigado

Sento ao teu lado, te beijo te abraço

E ao término da noite legítima

O teu silêncio é um beijo de língua.

E o teu peso me é consagrado

Meus ombros sangram no ato

E a cada minuto a boca perfurada

Anseia por um segundo a nossa morada.

III

A corrente de frio percorre

Pelos pés cansados que

Pressionam o chão

Num fluxo libidinoso

Os aromas crescem, me florescem

E eu me rendo

Me ergo agora

E me abro para você

Te escolho e te recuso

Te ignoro e te reivindico

Te carrego e te alimento

Tu me sufocas e me prende

E eu dou a luz a você

Sinto a tua selvageria

Que me arranha aqui dentro

Com garras afiadas

Enquanto permaneço no orgulho

De criar esta benção

Ainda desconhecida para você

E eu te carrego e te alimento

Enquanto clamas o teu poder

E eu me rendo

Te escolho, te ignoro, te recuso

Te negligencio, te deixo todo acabado

Enquanto me beijas

No corredor azulado

Diz que sentiu a minha falta

Que me queria mais

Mas eu só queria descansar

Dentro d’água

Deixá-la limpar o que resta de mim

Para que eu consiga ir embora

De dentro de você.

— — — — -

Deirdre Mayfair

17/05/16

05:07

Photos: “Yueh in the bathroom”, “Guilherme”, “Dionísio na Metrópole” — por @cherrymayfair

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