Em nossa memória, viver não cansava

Quebrei as correntes nocivas
Adormeci a semente germinada
Na terra natimorta contradita
Na minha carne dissipada.
Isolei neste meu deserto rendido
O filho de sol assassinado
Sem fome crime ou espinho
Que me tornasse um machucado.
No pergaminho dos mil silêncios
Encontrei a chave dos olhares
Decifrados, livres e violentos
Entalhados, ressoantes aos mares.
Naquela fé de murmúrio árido
Fugi daquela terra sem nome
Nascida de um animal cálido
Angustiar que se tornou fome.
Já fui sem lar, sem palavra
Já fui meu luto que sangrava
O vidro no pé que escapava
A alma imersa que me condenava.
E na lacrimosa que atravessava
Este meu deserto debaixo d’água
Na minha memória tão cansada
Viver era reflexo de palavras.
Então me escondi lá dentro
De mim, do meu lamento
Não esperei por este peregrino
Aquele tempo me deixou partido.
O mundo de mim ausente
O mundo de mim lembrança
A culpa que me infindamente
Borbulhou em nossa ínfera dança.
Pois resolvi-me ir, afogado
Deixei-me para trás, naufragado
Na areia que escorria degelada
Na proa de navio desembarcado.
E decidi não mais voltar, estou cansado demais para o amor.
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Andrew Oliveira
30/04/16
04:36 AM
Photo: Cherry Mayfair — “Anxiety”.