Primavera

Naquele momento de ruptura, eu não me sentia mais apta a pensar sobre o que significaria tudo aquilo que aconteceu. Arrumei minhas coisas rápido demais, planejei tudo rápido demais para que eu pudesse sair daquela metrópole para me enroscar em outra. Ainda não tenho muita certeza sobre isso, o que era impulsividade e o que era necessidade premeditada.

Como eu poderia saber?

Certa vez eu me senti sufocada numa cidade pequena e planejei a primeira fuga. Observei a lua nova e tudo o que ela me traria a partir daquilo. E, em conseguinte, todas as fases da lua que eu nunca esperei ter — ou sentir.

Foi então quando cheguei naquela metrópole, sem saber muito bem quem eu era ou quem eu me tornaria. Mas de uma forma ou de outra, me tornei tudo aquilo que nunca esperei ser. Durante a viagem inteira, permaneci de olhos fechados.

Durante a viagem inteira, apenas abri os meus olhos algumas vezes. E isso tanto me esclareceu quanto me cegou em demasia.

Fiz da raiva dona de mim. A raiva era minha gasolina diária. Eu queria que o mundo se lembrasse de mim como alguém que machucou todas as impressões sobre uma totalidade completamente incoerente. Eu queria que o mundo entendesse a minha raiva, até o momento em que só restou me tornar fúria.

Ouvia todas aquelas vozes, aquelas palavras de força e apoio incondicional. E tudo o que eu conseguia pensar era no quanto eu gostaria de estraçalhar todas elas. Todas aquelas conveniências me irritavam. Afagos mecânicos e astutos, sentimentos ensaiados, a complacência.

Sentia vontade de destroçá-las em minhas mãos, pisoteá-las, cuspir sobre elas.

Foi num momento como esse em que meu corpo não tinha mais qualquer controle ou atividade conveniente. Fugi para fora de meu corpo e ele se rebelou contra o mundo. Este corpo queria a destruição, este corpo queria morrer.

Lembro de mim sem forças no hospital, incapaz de responder aos chamados desesperados que jogavam sobre os meus ouvidos. Mas tudo me parecia distante demais para responder. Eu era apenas uma casca vazia sem rumo ou totalidade que pudesse compreender aquilo. E como aquilo seria compreendido?

Naquele momento eu me observava com seis anos de idade ouvindo as palavras de alguém mais velho. Caminhando num corredor muito estreito. Sugando o sexo, chorando, com raiva. Com um familiar sentimento assassino. A morte me parecia intensamente irresistível. E dela fiz o meu sarcasmo inabalável. Quanta ironia, quanta piada, quanta vontade de socá-lo até a sua cara afundar em meus punhos.

E outras versões daquele homem vieram em seguida. Tsunamis previsivelmente tediosos que já me deixavam puto da vida com o fato de serem tão… Comuns.

Então ansiei por algo que me fizesse sentir o mundo com mais intensidade. Dancei com as sombras solícitas e com o peso pré-determinado de uma fuga. Corri para fora de casa, senti a chuva, fechei os olhos, apertei os punhos, e um grito adoeceu a minha garganta pelo resto da minha vida.

Minhas amígdalas incharam e eu tossi sangue por algumas semanas. Alguém me disse num segredo que a causa disso era a quantidade de raivas que eu nunca expus. Que eu tinha o velho costume de afogar palavras e, por esse motivo, eu era o aniquilador da primavera dos versos.

Até que veio outra versão dele, uma nova versão dele. Mais inexorável, mais indestrutível, mais e sempre mais. E que direito eu tinha de responder?

Minha garganta estava tão inchada que me foi impossível formular uma resposta. Aquele outro ele me roubou as memórias. Sustentou-se na minha confiança e roubou as minhas memórias. Depredou os muros e roubou as minhas memórias.

Então por que eu teria o direito de sentir falta de algo que eu sequer me recordo?

Foi quando precisei voltar para a metrópole mais uma vez, pois aquilo me dava um gosto amargo no peito.

Retirei o coração e despejei sabão líquido para lavá-lo. Extraí os pulmões e os pulverizei com uma escovinha e sabão de coco. Coloquei o estômago entre as duas mãos e apertei, para que o veneno pudesse ser extraído e lavado.

Não consigo mais lembrar aonde fui que me esqueci, e eu sinto tanto por isso. Me perdoe por ter esquecido de mim. Me perdoe.

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Deirdre Mayfair

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31/08/16

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05:37 AM

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