Sharp Objects e a dor cíclica

*Texto livre de spoilers*
Sharp Objects, para quem ainda não conhece, é a nova minissérie da HBO cujo último episódio foi ao ar neste domingo passado (25/08). Adaptada da obra de Gillian Flynn, do mesmo nome, e estrelada pela sempre ótima Amy Adams no papel da protagonista Camille Preaker, com a presença impetuosa de Patricia Clarkson como a sua voluntariosa mãe, Adora Crellin, e a refrescante Eliza Scanlen incorporando a irmã mais nova de Camille, Amma Crellin. Sharp Objects é uma série de drama disfarçada de suspense policial. Literalmente falando, um lobo na pele de outro lobo.
Como background, temos dois assassinatos de duas jovens garotas na terra natal de Camille que, por conselhos de seu chefe, resolve revisitar para enfrentar seu passado e os demônios internos que ficaram adormecidos após a mesma ter saído recentemente de uma clínica psiquiátrica. É aqui em que a trama vende seu peixe através do suspense, embora esse não seja exatamente o seu grande foco. É um pano de fundo estruturado para trabalhar com a psiquê das personagens ali construídas, sobretudo Camille Preaker: esta que não é heroína, nem anti-heroína, não tem uma trajetória epopeica, poética e sequer há mensagens universais que possam chamar a atenção de maneira eficaz. Ela é extremamente subjetiva em suas nuances, impetuosa, contraditória e arisca, uma personagem “suja”, por vezes até mesmo animalesca. E é isto que a torna tão interessante, tão pungente, quase como se estivéssemos assistindo suas sombras dançarem por detrás de uma cortina, uma cortina que é uma tela televisiva (ou de computador).
Isso se deve muito ao trabalho de Gillian Flynn, que deixa bastante claro em suas declarações que gosta de construir mulheres complexas, nada romantizadas e mais próximas de nós. Não há espaço para uma trajetória de sentimentos fáceis de serem absorvidos quando se trata de Camille Preaker. E a direção de Jean Marc Vallée foi bastante certeira em nos entregar flashbacks com histriônicos silêncios, biles na garganta seca e a constante sensação incômoda de estarmos assistindo os movimentos e os pensamentos de uma personagem tão insuportavelmente humana. É aqui onde vaga a violência e o medo, não na literalidade dos assassinatos, mas na morbidez que alimenta os nossos traumas e as marcas que nos deixam — ou as que cometemos.
Camille é o tipo de personagem que todo escritor — roteirista ou romancista — precisa ao menos ter passado por algumas experiências de vida para que ele possa ser criado e, assim, construído e apreciado como merece. Como sabiamente disse Letícia Wierzchowski em seu romance, Sal (Intrínseca, 2013): “fazer ficção é se sujar um pouquinho na vida. Quer dizer, você tem que entrar lá, no âmago da coisa. Enquanto a maioria das pessoas olha a flor e diz que cores lindas, o escritor está enfiando a mão discretamente no vaso para poder tocar as nervuras da raiz”.
A partir deste ponto, entrarei em um território delicado no texto para relatar algumas experiências pessoais sobre self-harm (ato de se mutilar, geralmente engatilhado por um transtorno mental), e a minha identificação com a personagem Camille Preaker neste aspecto.
É claro que não é realmente necessário — e tampouco uma regra — que um autor passe pelos mesmos traumas e dores que o seu personagem, para que ele se torne mais crível e visceral. Ainda que a arte esteja intimamente ligada à autodestruição e ao perecimento de uma certa estabilidade mental. Contudo, nossa arte não se torna infinitamente mais potente quando colocamos nossos demônios e métodos de tortura psicológicos que induzimos a nós mesmos? A conhecida história de ir ao inferno e voltar. Expurgar, exorcizar, faz-se sempre necessário quando o assunto é uma literatura e/ou audiovisual que trazem uma personagem como Camille Preaker.
Particularmente, a minha trajetória com self-harm é longa e também envolve muito de alcoolismo e abuso de outras drogas. A minha autoflagelação não vinha no impulso de sentir dor, mas de querer sentir um certo alívio, um toque de vida que a depressão me arrancava. Algo que eu fazia para que me afastasse da indiferença e da apatia, como um lembrete. Até hoje tenho problemas de tirar a camiseta em praias e outros lugares porque meu braço esquerdo é todo preenchido de cicatrizes (além de algumas no antebraço que tive que aprender a não me importar quando olhares de terceiros percebem). Cada corte significando uma semana, um dia específico, um acontecimento, transformei meu corpo num relicário da lâmina. E talvez por esse motivo eu tenha sentido uma ligação de amizade com a personagem que eu assistia semanalmente. Porque eu entendia, o constrangimento dela também era o meu (aquela cena no vestiário da loja, no quinto episódio, me foi particularmente dolorosa de assistir). A dificuldade dela em se abrir sobre isso e conversar a respeito e afastar qualquer possibilidade de relacionamento também me era identificável.
O que se torna um pouco contraditório neste parágrafo de agora, porque não me identifico tanto com a personalidade de Camille, hoje. Eu me identifico com aspectos de sua autoflagelação porque já me aconteceu. A minha identificação vem de acontecimentos passados, com uma pessoa que já fui, alguém que hoje revisito em minha biblioteca de memórias e por vezes até converso com ela.
Os personagens autodestrutivos, viciados e inconsequentes que escrevo são todos frutos desta época confusa e rachada na minha vida. Em que os picos ora depressivos ora ansiosos eram donos do meu livre-arbítrio. Me cortar era como me sentir no controle disso tudo, o que acabava sendo apenas mais um véu que o meu transtorno colocava sobre meus olhos. Eu vivia numa espécie de labirinto dentro da minha cabeça, então eu carimbava as paredes do labirinto com sinais me lembrando de que eu já havia passado por ali, e estava apenas repetindo a mesma rota. Os cortes eram estes carimbos, o cotidiano eram estes cortes e estes carimbos, os traumas eram epifanias raivosas que me faziam esquecer da dor e eu vou parar por aqui senão entrarei num looping que pode durar por longos parágrafos.
De toda forma, o alcoolismo também estagnou bastante a minha escrita, a minha capacidade técnica de descrever situações e desenvolver personagens. E naquela época eu realmente não me importava se estava fazendo algo “tecnicamente bom” ou bem trabalhado e desenvolvido, eu só queria fazer verborragias enquanto bebia e inventar personagens tão idênticos que eram quase a mesma pessoa tendo diálogos internos consigo mesma. Porque era o que de fato ocorria.
Pois bem, isso eu realmente não mudaria em nenhum aspecto. Eu posso ter me atrasado ou me estagnado em dado momento da minha vida. E vivido por muito tempo adormecido no meu entorpecimento e submerso no meu transtorno, alimentando a minha autodestruição com variados vícios, escolhas escabrosas e atentados contra a minha vida. Ainda assim eu não mudaria nenhum destes dias porque hoje posso revisitá-los no meu palácio mental e criar novos personagens que falem, de maneira mais madura e bem trabalhada, sobre tudo que me aconteceu.
Hoje consigo, agora sóbrio e cuidando da minha depressão, expor na minha arte os antigos motores autodestrutivos de modo efetivo e circunspecto. Sem que eu caia nas minhas próprias armadilhas mentais (o que também me demandou muitos anos de trabalho comigo mesmo para que isso acontecesse). Hoje conheço as minhas sombras, os meus demônios e me lembro de cada dia em que me cortei e me afundei na ideia de estar morto. Acredite quando digo que por várias vezes eu tinha ampla certeza de que já não existia mais neste mundo, que tudo o que estava vivendo era como um espectro preso em ciclos eternos.
Hoje posso, também, acompanhar a trajetória de personagens como Camille Preaker e entender perfeitamente bem o porquê dela ter rabiscado seu corpo com palavras. E refletir sobre a trajetória dela e da minha e admirar escritoras contemporâneas como Gillian Flynn que trouxeram à luz personas que são como eu (ou melhor falando, que eu já fui). Diretores da cultura pop como Jean Marc Vallée que deram vida visual e sonora a estas personas. E celebrar a vitória da arte perante aos infernos mentais aos quais já passamos. Sempre olharei Camille Preaker com bons olhos, jamais com qualquer sinal de julgamento, e criando personagens que se tornem tão importantes de serem lidos e vistos quanto esta.
Podem não haver heróis e heroínas no dia-a-dia, no entanto, há inúmeros que sobrevivem às tempestades de dor. E estes, posso torná-los meus heróis e heroínas se eu assim quiser, porque a literatura me permite tudo. Até mesmo me recriar e me remodelar, desta vez mais forte, desta vez mais difícil de ser abalado. Desta vez mais humano. Afinal, não é a dor, sob os olhos de quem cria, um lembrete constante do quanto somos sensíveis e perecíveis nesta breve experiência na terra?
Andrew Oliveira
02/09/18
00:12
