Os Amantes no baralho de Barbara Walker

Como o tarô reforça papéis de gênero — é, você leu certo

Uma tentativa de tornar o esoterismo mais suportável para feministas. Bom, alguém tinha que falar sobre isso.

Quando comecei a jogar tarô, percebi que nutria uma antipatia a princípio inexplicável por algumas cartas. O Papa e o Imperador, por exemplo, sempre produziam alguma reação desagradável ao saírem em uma tiragem. O contrário era válido para as cartas representadas por figuras femininas, como a Papisa e a Imperatriz, pelas quais eu conseguia simpatizar.

Essa dinâmica reflete um conflito pessoal do qual estou começando a me conscientizar agora, aos 21 anos. Eu sempre tive dificuldade de me relacionar com aspectos tradicionalmente definidos como masculinos: agressividade, assertividade, intransigência.

O Imperador no baralho de Crowley. Eu totalmente consigo imaginar esse cara me mandando parar de reclamar na internet e ir lavar a louça.

Na real, eu sempre associei minha identidade ao racional, lógico, ao lado mais mercurial do masculino — coisas que nunca foram tradicionalmente vistas como femininas. Mas sempre temi e busquei me afastar do lado visceral do homem, porque obviamente aquilo representava uma ameaça à minha sobrevivência como mulher. Isso aconteceria se a agressividade partisse de um homem, mas também se eu ousasse incorporar esses aspectos nas minhas atitudes.

The Collective Tarot, uma tentativa de tornar o tarô mais moderninho.

Tendo a me alinhar com o feminismo radical, então acredito que homem e mulher são duas classes sociais criadas a partir de características biológicas. A cada uma dessas classes, são atribuídos comportamentos diferentes e mutualmente excludentes.

No tarô, isso fica especialmente evidente nos dois casais de arcanos maiores já citadas: o Papa e a Papisa, e o Imperador e a Imperatriz. Em cada dupla, as cartas parecem dizer respeito à mesma energia, que foi polarizada.

Enquanto o Papa trata da espiritualidade institucionalizada, por vezes autoritária e distante, a Papisa cuida da espiritualidade individual, intuitiva, que escapa ao racional. O Imperador é aquele que governa autoritariamente um país, a Imperatriz governa o próprio ventre. Ele é o comando criativo, ela é a fertilidade receptiva.

A Força no baralho Rider-Waite-Smith.

Em outros arcanos, isso aparece de uma forma menos direta, como na Força, em que uma dama domina um leão, não por meio da força bruta e autoritária, mas de uma integração sutil. Culturalmente, a Força não poderia carregar o mesmo significado se fosse representada por um homem. Enquanto a imagem de uma mulher domando um leão surpreende, um homem na mesma situação pouco intrigaria.

O Louco de Rider-Waite-Smith.

Da mesma forma, não seria possível que o impulso caótico a nos guiar para o abismo do Louco aparecesse em forma de uma mulher, pois “aventuras femininas” sempre costumaram significar algo próximo de colocar um pouco mais de curry no frango ou ir a um salão de beleza diferente.

Talvez o momento em que o binarismo de gênero é mais óbvio seja nas cartas de corte. No baralho de Rider-Waite-Smith, as rainhas representam a internalização da energia do naipe, enquanto os cavaleiros indicam a sua manifestação externa. Os reis são aqueles que dominam e exercem controle sobre os elementos, enquanto o andrógino valete é uma fagulha imatura, a ser trabalhada.

A Rainha de Paus do tarô de Dalí.

Isso atinge níveis mais problemáticos quando o tarólogo adota uma postura estritamente divinatória e tenta interpretar a rainha como uma mulher, e o rei e o cavaleiro como homens. De acordo com esse tarólogo literalista, uma mulher jamais poderia ter a personalidade de um Cavaleiro de Paus, enquanto um homem nunca seria parecido com a Rainha de Copas.

Diante do tarô, é tentador atribuir determinadas características como essencialmente femininas ou masculinas. Aí ouvimos baboseiras como “a mulher precisa entrar em contato com sua Imperatriz interior” ou “você está negligenciando a sua Papisa”. E o meu Imperador interior, por que ninguém dá bola para ele?

Ao ignorar os aspectos sociais e políticos da realidade na qual vivemos, o tarólogo se sujeita a emitir preconceitos que parecem se sustentar nas cartas, mas na verdade são apenas projeções pessoais. Esse tipo de leitura pouco ajuda o consulente. O tarólogo essencialista comete dois pecados: o primeiro, de ser sexista; e o segundo, de interpretar as cartas erroneamente.

O tarô não inventou o patriarcado, ele apenas o reproduziu. É preciso ter essa consciência ao ler as cartas. O fato de uma mulher representar a Papisa não significa que mulheres têm uma essência intuitiva, mas sim que fomos socializadas para desenvolver nossa intuição, já que o conhecimento racional, as letras e o poder nos foram barrados.

A Papisa do tarô de Dalí.

Em alguns aspectos, o tarô pode ser até mesmo subversivo, ao colocar características tradicionalmente masculinas e femininas em pé de igualdade. Afinal, se no mundo o real o Imperador é que tem protagonismo, no tarô a Imperatriz é igualmente importante. A Igreja Católica não se mostrou capaz de eleger uma Papisa, mas no baralho ela existe e é tão soberana quanto o Papa.

Enquanto a intuição, a introversão e os sentimentos costumam ser vistos como inferiores à racionalidade e à assertividade, nas cartas eles se complementam. Todos possuímos características introvertidas e extrovertidas, independentemente do gênero ao qual fomos assignados ao nascer. O desafio do gênero, como todo bom paradoxo, está na integração entre os opostos.

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