"Lolita" não é uma história de amor

Entendendo as diferenças entre o romance de Vladimir Nabokov e o filme de Adrien Lyne

“Lolipop” , por Palindrômica

Ela usa batom vermelho, é apaixonada por doces e gosta de revistas em quadrinhos. Também foi molestada pelo padastro durante a infância e a adolescência, mas isso raramente é levado em consideração.

Desde a publicação de “Lolita” em 1955, o apelido da personagem Dolores Haze virou sinônimo de uma jovem hipersexuada, sedutora e maliciosamente ingênua. Na verdade, esse arquétipo da ninfeta consolidado no imaginário popular tem pouco a ver com a personagem do livro de Vladimir Nabokov.

Para quem não leu: Um professor de meia idade, Humbert Humbert, aluga um quarto na casa de Charlotte Haze e sua filha Dolores, de 12 anos. Ele se casa com Charlotte, que morre algum tempo depois. Humbert e Lolita, como é apelidada Dolores, passam a viver como pai e filha perante a sociedade. A garota é submetida a uma série de abusos até fugir para cair no jugo outro pedófilo, Clare Quilty. Isso dificilmente soa como uma bela história de amor, não?

Aos 14 anos, Alicia Silverstone interpreta uma adolescnte capaz de seduzir um jornalista adulto e tramar o seu assassinato

Então quem foi o responsável por nos fazer acreditar que é de boa celebrar uma vítima de pedofilia como um ícone sexual? Lolita é referência para diversos produtos da cultura de massa, desde ao thriller de 1993 "The Crush", estrelado por Alicia Silverstone, às letras de Lana del Rey, que chegou a receber a alcunha de "Lolita perdida na periferia". Fica difícil apontar dedos e estabelecer qual é a fonte original.

Culpe Hollywood?

A pesquisadora Denize Lazarin acredita que a culpa é das adaptações do romance em filme. Lolita ganhou o cinema duas vezes: em 1962, nas mãos de Stanley Kubrick, e em 1997, por Adrien Lyne. Essa visão, no entanto, é um tanto rasa, uma vez que interpretações tendenciosas já apareciam em críticas literárias publicadas no ano da publicação do romance de Nabokov.

Um dos críticos, Lionel Trilling, teve a pachorra de escrever que Lolita tinha poucos sentimentos a serem violados. Trilling acreditava que “Lolita é sobre amor. Quase cada página expõe uma emoção erótica explícita e ainda assim é sobre amor”.

O narrador infiel

O problema é que o romance é narrado pelo próprio Humbert Humbert. É o narrador quem controla a história, escolhendo o que será revelado e como. Quando lemos Lolita, estamos completamente à mercê de Humbert — assim como Dolores Haze. Os mais desatentos, ou mal-intencionados, tendem a concordar com o molestador, sem perceber que a narrativa a qual têm acesso é tendenciosa. Humbert faz questão de romancear seu relato com arroubos de lirismo calculados para fascinar o leitor.

Se no livro é tão difícil perceber a verdade, nas adaptações para o cinema a coisa complica. Já que não podemos exergar os filmes como os criadores do arquétipo da Lolita, podemos analisá-los como sintomas. A versão de Kubric teve o roteiro escrito por Nabokov, mas o diretor pouco se ateve a ele. Kubric preferiu dar o papel de destaque a Quilty, que assume um caráter de bufão. A censura da época impediu que os aspectos mais sexuais e gráficos do livro fossem abordados, o que pode levar o espactor desavisado a confundir o relacionamento de Humbert e Lolita como uma estranha amizade.

Pôster da versão de Kubrick, realizade em 1962

A adaptação de Adrian Lyne costuma ser considerada mais fiel à obra de Nabokov. Embora elementos chave do enredo estejam presentes no filme, a história é abordada, nas palavras de Charles Taylor,“com lirismo manufaturado e romantismo embasbacado”, substituindo o tom de sarcasmo e auto-crítica da narração de Humbert. É no filme de Lyne em que podemos perceber com clareza quais são os elementos que fazem as pessoas exergarem Lolita como uma história de amor, e não um relato de abuso.

O pedófilo expurgado

Lolita é apresentado por Lyne como um romance proibido e não-correspondido. Não há a tensão entre desejo e moral presente no romance. O espectador não pode fazer nada além de aquiescer com a suposta paixão de Humbert, pois não são levantadas dúvidas quanto a sua honestidade.

A distorção ocorre por meio de várias artimanhas, como a omissão de pontos importantes da narrativa. Se no romance o leitor tem consciência da pedofilia de Humbert, ela é disfarçada no filme. Em nenhum momento o Humbert fílmico menciona sua condição de pedófilo, enquanto o Humbert do romance o faz prontamente. A omissão faz parecer que a atração por Dolores se trata de uma exceção, e não um padrão na vida sexual do padastro.

A atriz Dominique Swain, que interpreta Dolores, tinha 17 anos quando realizou o filme. O corpo adolescente de Swain disfarça a pedofilia de Humbert, tornando menos ofensiva ao público a atração física pela garota. A câmera desliza pelo corpo da atriz, convidando a gente para apreciá-lo da mesma forma que Humbert. O espectador é cúmplice do pedófilo.

O narrador de Lolita é um homem controlador, manipulador e cônscio do efeito de suas ações. É o control freak, e não o apaixonado, que de seu carro observa Dolores enquanto a garota encontra os amigos numa lanchonete. O assassinato de Clare Quilty, sequestrador de Dolores, não é motivado por amor, e sim por vingança. É a forma que Humbert encontra para recuperar o controle da situação. Depois de matar Quilty, escrever é o último recurso que Humbert encontra para exercer sua vontade de controle: "Oh, my Lolita, I have only words to play with!”. Jogo de palavras exímio: “play” significa “brincar”, mas também “manipular”.

O Humbert fílmico é um homem passivo, impotente e inconsciente de suas ações. Os encontros com Dolores parecem acidentais, e não orquestrados por uma mente obcecada e inquieta. A tentativa de drogar Lolita para estuprá-la no hotel The Enchant Hunters, presente no livro, é eliminada no filme. Diante do “poder de sedução” da menina Haze, Humbert é incapaz de qualquer resistência. É a garota de 12 anos que manipula o homem de 40, uma inversão de papéis que soa absurda.

Dominique Swain em Lolita (1997), de Adrian Lyne

Inocência perdida

A violação de Lolita, portanto, não é apenas perdoável como inevitável. É a reprodução do discurso do homem que não pode controlar seus desejos e da fêmea que deve “terminar o que começou”. Lolita é "inestuprável" a partir do momento em que manifesta curiosidade sobre sexo e revela já ter se engajado em práticas sexuais — com crianças da mesma idade — antes de Humbert molestá-la. O Tumblr Those Kind of Girls compila relatos de meninas que se engajavam em atividades sexuais com outras crianças durante a infância. Todas estavam prontas para consentir em fazer sexo com um homem de 40 anos de idade?

Há uma tentativa de isolar Lolita como uma garota hipersexuada, que portanto convida os abusos de Humbert. Enquanto as experiências sexuais de infância de Humbert exibidas no começo do filme são vistas como comuns, as de Dolores são anormais. Em Lolita de 1997, a sexualidade feminina é um fenômeno excepcional e incomum. O despertar natural de uma menina para o sexo é apropriado e exibido como uma queda para a depravação. Isso responsabiliza a vítima–Lolita–pelo próprio abuso.

A sexualidade de Lolita, em vez de ser um instrumento de subversão, serve apenas para confirmar a ordem da mulher assexuada. Ao relegar a menina cônscia de seu sexo a uma situação de exceção mítica, estamos negando a sexualidade feminina. Não é o sexo que corrompe Lolita. É a objetificação efetuada por Humbert que a degrada e a desumaniza.

O filme de 1997 omite também a resistência de Dolores a Humbert. Se no romance ela o arranha, procura nas viagens se rodear de adultos, evita e recede conta seus avanços sexuais, nada disso é mostrado na obra de Lyne. Nele, Dolores não apenas não evita como sente prazer em ser "conquistada" por Humbert. O que era estupro é transfigurado em sexo consensual.

A exigência de Dolores por compensação financeira em troca de sexo, com o fim de juntar o dinheiro para uma fuga, não é retratada como uma tentativa de subverter o domínio do padrasto e sim como mais uma característica na construção de uma personagem egoísta, insensível e cruel.

O herói e o pedófilo

Nabokov constrói uma dualidade entre Clare Quilty e Humbert que é eliminada no final do livro. “I rolled over him. We rolled over me. They rolled over him. We rolled over us”. Humbert se refere a Quilty como “meu irmão”. Adrian Lyne exarceba a oposição entre os personagens e não restaura a unicidade final. Isso cria uma disputa entre Bem e Mal. Humbert é representado como o herói apaixonado e Quilty como o vilão pervertido.

Os abusos que Humbert perpetua sobre Lolita são retratados como prova de amor, enquanto Quilty é “o verdadeiro pedófilo”. Todas as características negativas são transferidas a Clare, restando a Humbert assumir o papel de herói romântico e trágico. Nesse contexto, o assassinato de Clare Quilty é desejável, já que representa a eliminação suprema do Mal pelo Bem e a expurgação de Humbert — para quem a maioria está torcendo.

No romance não há uma realidade concreta a ser comparada com as elucubrações de Humbert, já no filme de Lyne o subjetivo se traveste de objetivo. O espectador se resigna ao papel de voyeur, observando as cenas transcorrerem. Quem assiste o filme de Lyne é mais passivo do que quem lê o livro de Nabokov, pois não te m direito à dúvida. Como diz Lazarin,

"Enquanto no romance estamos cientes a todo momento da condição de discurso construído, na adaptação de Lyne, a trama assume um efeito de realidade”.

É por meio desse travestismo que o filme de 1997 reforça o discurso da Lolita mítica, embora não seja o seu criador.

Ninguém se importa com Lolita

Apesar de ser a personagem que dá o título ao filme, Lolita em si não é importante. Ela serve apenas para provocar sensações em Humbert; o verdadeiro protagonista é a suposta paixão que ela desperta. O desejo sexual de Humbert é mais importante do que a integridade física e psicológica da menina. Não se pode dizer não a um homem apaixonado, mesmo que seu objeto de afeto seja uma criança orfã.

Perante o amor do herói romântico tudo é justificável, seja sequestro, abuso sexual, violência doméstica ou assassinato. Adrian Lyne constrói o filme de tal forma que o choca a plateia não é a pedofilia, e sim a sexualidade manifesta de Dolores e a rejeição de Humbert.

Alguém aí pode argumentar que uma adaptação cinematográfica não tem obrigação de corresponder à obra original. Nenhum filme existe no vácuo. Qualquer produção está sujeita a valores culturais e ao mesmo tempo tem o poder de influenciá-los. O diretor, quando seleciona o que será mostrado ou não e de que forma isso ocorrerá, está inevitavelmente construindo um discurso. E tem total responsabilidade sobre o que produz.

Ao omitir o estupro e a violência de Humbert sobre Lolita, ele afirma que esses episódios são irrelevantes para a construção da história. Em Lolita de 1997, o desejo masculino é mais importante e digno de ser contado do que a violação e a tortura psicológica de uma pré-adolescente. Humanizar o molestador não significa redimí-lo: é nessa tenuidade que Lyne e os entusiastas das ninfetas se confundem.


Essa não foi a primeira vez que o diretor Adrian Lyne adaptou um livro sobre um relacionamento abusivo para transformá-lo em um clássico do cinema erótico. Quase uma década antes, ele fez o mesmo com "Nove semanas e meia de amor", um dos filmes considerados como a "versão original" de "Cinquenta tons de cinza". Leia a análise que fiz para o site Verberenas, Nove semanas e meia de abuso: a erotização do estupro, aqui.

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