Estupro é mais traumático do que combate de guerra, afirma especialista

Muito do que achamos que sabemos sobre estupro está errado, mostra criminalista David Lisak

Bruna de Lara
Apr 2 · 11 min read

Por Bruna de Lara

Foto: Ramon Aquim/Mídia NINJA

A entrevista pode ser reproduzida livremente, desde que a repórter seja creditada.

Seis pessoas foram estupradas a cada hora no Brasil em 2017. Assustadoramente comum, o estupro ainda é uma violência muito pouco compreendida. As pesquisas do criminalista David Lisak, especialista norte-americanos em violência sexual, comprovam que muito do que achamos que sabemos sobre o estupro está errado.

O estereótipo do estuprador como um psicopata armado que encurrala mulheres em becos, por exemplo, está longe da realidade da maior parte desses crimes. Os estudos de Lisak mostram que os estupradores são simplesmente homens comuns que não sabem a diferença entre sexo e estupro. Em Missoula: o estupro e o sistema judicial em uma cidade universitária, Lisak conta ao jornalista Jon Krakauer que esses homens relatavam os casos de estupro que haviam cometido com naturalidade, já que suas experiências não se encaixavam nos mitos que nutriam sobre o crime.

No Brasil, segundo uma pesquisa do Instituto Avon, 38% dos universitários brasileiros já cometeu algum ato de violência sexual contra uma mulher na universidade ou em festas promovidas pelos cursos. Para quase um terço dos estudantes homens, abusar de uma mulher alcoolizada não é considerado violência. Aqui, sete a cada dez estupradores são namorados, maridos, amigos, familiares e outros conhecidos das vítimas.

Lisak também desbanca uma série de mitos sobre o comportamento das vítimas de estupro. Ao contrário do que se imagina, a maioria delas não resiste fisicamente durante o abuso, porque é tomada por um medo paralisante. Elas também podem interagir normalmente com o agressor depois da violência, caso ele seja conhecido. Lisak explica em Missoula que a dor de reconhecer que uma pessoa em quem ela confiava a machucou dessa forma é esmagadora. Por isso, a mulher pode inconscientemente tentar fingir que nada aconteceu, ainda que se sinta péssima.

Em entrevista por Skype em 2017, Lisak falou sobre como o trauma afeta a memória da vítima e sua saúde. O criminalista ressaltou que os estereótipos correntes no senso comum também atrapalham a percepção das sobreviventes sobre a violência e interferem na forma como são recebidas nas delegacias e no sistema de justiça. Suas pesquisas revelam, por exemplo, que só 6% das denúncias de estupro feitas nos EUA são falsas. Apesar disso, só 20% dos casos são notificados e 1% desses registros terminam em condenação, segundo dados trazidos por Jon Krakauer em Missoula. No Brasil, estima-se que menos de 65% dos estupros sejam registrados e só 3% das denúncias resultam em condenações. Leia a entrevista:

No Brasil, assim como nos EUA, as taxas de subnotificação de estupro e violência doméstica são altíssimas. Por que tantas sobreviventes escolhem não denunciar seus agressores à polícia?

A violência sexual e interpessoal, como a violência doméstica, é tão profundamente íntima que existe uma reação natural de qualquer pessoa que tenha sofrido isso de evitar qualquer exposição pública do que aconteceu. É uma ferida muito, muito íntima e é quase característico dessas pessoas quererem se fechar e não revelar [o caso] a ninguém fora do círculo de amigos e familiares mais próximos — muitas vezes, nem a eles. Além disso, há várias outras questões, mas a mais prejudicial é provavelmente o fato de que temos um longo histórico — isso certamente acontece na América do Norte, nos EUA, no Canadá, no México, mas também em todo o mundo… As mulheres e os homens que sofrem esses crimes têm sido expostos à vergonha e culpabilizados por sua própria vitimação por tanto tempo, que as vítimas realmente tomam para si de forma automática grande parte da culpa e da responsabilidade. Elas acham que, de alguma forma, fizeram algo para provocar a violência, que o comportamento delas causou isso e, infelizmente, é frequente que elas se deparem [com essas acusações] de forma muito direta, e às vezes de forma mais sutil, implícita. Elas encontram esse tipo de culpabilização por parte das pessoas com quem interagem, sejam as autoridades ou seus próprios amigos e parentes. E isso aumenta ainda mais seu silenciamento. Então você tem alguém que foi vitimada, que pode estar parcialmente aberta à possibilidade de expor ou denunciar esse crime. Se elas encontram esse tipo de culpabilização, se elas se deparam com o ceticismo, se as pessoas simplesmente não acreditam nelas, se fazem comentários sobre o que estavam vestindo, ou por que estavam na rua até tarde, por que estavam bebendo, esse tipo de coisa, isso com frequência simplesmente as silencia e acaba com a possibilidade de elas denunciarem. Então, há muitas camadas nessa questão, e infelizmente a maior parte das vítimas vai se deparar com isso em algum nível. Elas podem prever o que vão encontrar, caso decidam fazer uma denúncia. E, claro, muitas vítimas também já leram, já ouviram falar desse tipo de recepção que as vítimas tendem a receber no sistema de justiça criminal e elas não veem a denúncia como uma opção para elas. Vai ser simplesmente mais uma punição.

Você disse que muitas vítimas tendem a internalizar a culpa. Embora seja verdade que a sociedade tende a culpar a vítima, você diz em Missoula que a culpa também uma forma de mecanismo de defesa. Pode explicar isso?

Uma das coisas que acontecem com frequência é que quando alguém passa por um sofrimento profundo, especialmente quando é causado por alguém que conhece, ou com quem tivesse algum tipo de envolvimento, ou que conheceu em um cenário social informal, muitas vezes é profundamente desestabilizante ser confrontado com a realidade de que você confiou em alguém e sua confiança foi completamente traída e violada. Quando isso acontece, é comum que as vítimas se sintam muito abaladas e não saibam em quem podem confiar, além de não saberem mais se podem confiar em seu próprio julgamento. Isso é uma experiência profunda de perda de controle. É assustador pensar que você não tem ideia de como é o mundo e de como fazer julgamentos sobre as pessoas. Então, uma das coisas que pode acontecer com alguém nessa situação é assumir a culpa. Basicamente, se elas concluem que o que aconteceu com elas, que esse dano foi resultado de seu próprio comportamento, elas podem controlar o futuro, porque podem dizer “bom, eu nunca mais vou fazer seja lá o que foi que fiz”. E, na maior parte das vezes, isso não é algo racional. Elas se culpam por coisas que na realidade não têm nada a ver com o que aconteceu. Ao se culparem, elas podem essencialmente dizer “bom, como isso foi resultado do que eu fiz, eu nunca mais vou fazer isso e, então, aquilo nunca mais vai acontecer comigo”. Então é uma forma de retomar algum senso de controle, ainda que aquilo provavelmente não tenha tido nada a ver com o motivo pelo qual elas foram atacadas.

Por que algumas sobreviventes levam meses ou mesmo anos para perceber que foram abusadas?

A maior parte das pessoas ainda tem um entendimento muito limitado do que esses tipos de crime interpessoais são e de como são definidos legalmente. Então, quando se trata da violência sexual, por exemplo, muitas pessoas — tanto homens quanto mulheres — acham que estupro é quando alguém mascarado e armado com uma faca pula de um arbusto ou invade uma casa. Elas não entendem que a grande maioria dos estupros é cometida por indivíduos que, em algum nível, conhecem suas vítimas. Não há facas ou armas envolvidas na maior parte desses casos. Então, quando elas sofrem algo, é comum que se sintam muito, muito mal, perturbadas e talvez profundamente abaladas psicologicamente, mas elas simplesmente não definem o que aconteceu como um crime, por terem em mente esse estereótipo de como ele seria. E, com frequência, a experiência delas não se encaixa nesses estereótipos. Então essa é uma reação muito comum.

"Algumas pessoas querem culpar as vítimas de estupro e vão procurar qualquer motivo para desacreditá-las"

Também li em Missoula que é muito comum que as vítimas mudem detalhes da sua história, por causa da forma como o trauma afeta a memória. Você pode explicar como nós processamos a memória de um trauma?

A parte do cérebro que permite, em circunstâncias normais, que lembremos de eventos que nos aconteceram com um grau razoável de detalhes e que lembremos do contexto e da sequência [dos fatos]… “aconteceu assim: primeiro isso, depois isso, isso e isso”… essa parte do cérebro se chama hipocampo. Tem outras partes envolvidas, mas o hipocampo tem um papel muito importante no que chamamos de clareza da memória. E, infelizmente, o hipocampo é profundamente afetado pela mudança neuroquímica que acontece no cérebro quando alguém passa por uma experiência traumática. O funcionamento do hipocampo muda dramaticamente e não é capaz de nos ajudar a criar essas memórias claras. Em vez disso, o cérebro tende a codificar essas experiências dramáticas como fragmentos consideravelmente separados. É comum que esses fragmentos estejam ligados a informações sensoriais muito específicas. É muito mais difícil se lembrar, especialmente logo após a experiência traumática, do contexto do que aconteceu, dos detalhes mais periféricos e especialmente da sequência. Então, o que acontece é que se você pede a alguém que foi traumatizado para narrar o que aconteceu, especialmente se eles estiveram envolvidos de maneira próxima no episódio, e se eles contarem isso de novo um pouco depois, como um dia ou dois, e então duas semanas depois, quase que invariavelmente terão diferenças nessas narrativas. E, infelizmente, o sistema de justiça criminal — especialmente aqui na América do Norte, que é onde estou familiarizado — olha de forma cética para o depoimento da vítima quando ela faz vários relatos e existem diferenças aparentes. Eles veem essas discrepâncias como provas de que a vítima não está contando a verdade, quando, com frequência, tudo que essas diferenças indicam é que você tem alguém que passou por uma experiência traumática e está se lembrando desses episódios basicamente da forma que um cérebro traumatizado codifica esse tipo de experiência.

Contrariando o senso comum, não existe uma forma certa de reagir ao estupro, não é? As vítimas podem escolher não reagir durante o abuso, ou culparem a si mesmas, ou interagir normalmente com o agressor depois do crime. Mas se todas essas reações são comuns e podem ser explicadas, por que a sociedade em geral, mas especificamente as autoridades, ainda as tratam como provas de que a vítima está fazendo uma falsa denúncia?

Infelizmente nós ainda temos um longo caminho a ser percorrido em duas áreas. Uma é a educação, na medida que muitas pessoas ainda têm visões muito estereotipadas sobre vítimas de estupro, principalmente essas expectativas de que toda vítima tem uma certa aparência, ou se sente da mesma forma, soa da mesma forma, aparece da mesma forma, quando, como você diz, as vítimas reagem de diversas maneiras ao estupro. Então uma parte é educação, pura e simples. A outra eu acho que vai além, acho que não é algo que se possa ensinar. Algumas pessoas têm preconceitos. Algumas pessoas querem culpar as vítimas de estupro pelo que aconteceu com elas e vão procurar por qualquer motivo para desacreditar a vítima. Isso está ligado a crenças e visões negativas muito enraizadas sobre as mulheres. Enquanto essas crenças ainda forem proeminentes e predominantes, vamos ter pessoas, sejam testemunhas, policiais, promotores ou juízes, que agem de forma muito, muito prejudiciais às vítimas de violência sexual, porque têm esses preconceitos. Nós estamos engajados no longo processo de tentar conscientizar as pessoas, mas isso não acontece do dia para a noite.

No livro-reportagem Missoula, Jon Krakauer narra as dificuldades enfrentadas no sistema penal por jovens estupradas por homens conhecidos

A mídia tem um papel nisso? Ela propaga esses estereótipos equivocados sobre as vítimas de estupro?

Eu não quero dizer nada para caracterizar toda a mídia, mas ela certamente desempenha um papel enorme, porque estamos falando da necessidade de educar uma sociedade inteira. Precisamos não apenas que os jornalistas escrevam sobre isso, para explicar essas dinâmicas ao público, como também que as pessoas escrevam livros, romances, obras de não-ficção, façam filmes e documentários sobre essas questões, para que tenhamos muitas formas diferentes de educar e conscientizar o público. E, às vezes, os mecanismos mais poderosos para isso são essencialmente os da ficção, seja um livro ou um filme. [A ficção] pode afetar as visões das pessoas e as apresentar à experiência de passar por um estupro de forma muito profunda e pessoal. E, às vezes, isso pode romper alguns daqueles estereótipos e preconceitos. Então acho que a mídia é decisiva nisso, mas todos os meios da mídia.

As sobreviventes de violência sexual têm mais chance de desenvolver problemas crônicos de saúde do que as sobreviventes de outras formas de abuso. Por que isso acontece? O que torna a violência sexual traumática de forma tão singular?

A violência sexual é… nós temos muitos estudos sobre isso. A pessoa que passa por um estupro na verdade corre mais risco de desenvolver transtorno do estresse pós-traumático do que alguém que luta em uma guerra. Então a probabilidade de o estupro causar TEPT é maior do que a probabilidade de a guerra causar essa doença. E a relação entre transtorno do estresse pós-traumático e a saúde física no geral também é muito bem estabelecida. Quando você tem TEPT por muito tempo, é um estresse contínuo fortíssimo agindo no seu corpo. Alguns desses mecanismos são muito bem entendidos atualmente e levam a doenças crônicas, a qualquer problema desde resfriados, gripes, coisas desse tipo, a problemas mais sérios, porque o sistema imunológico é danificado pelo TEPT a longo prazo. Então isso é comprovado e é um dos muitos, muitos danos que as vítimas de violência sexual sofrem.

A psiquiatra Judith Herman diz em um de seus livros que quase parece que os tribunais e o sistema de justiça em geral foram projetados para causar sintomas de transtorno do estresse pós-traumático em sobreviventes de abuso. Você concorda?

Vou falar principalmente sobre a América do Norte. O processo legal simplesmente nunca levou em consideração qualquer entendimento sobre o trauma ao ser projetado. Então, estamos engajados em um longo processo de tentar ajustar isso conforme aprendemos mais sobre o trauma, para fazer com que o sistema legal seja mais receptivo às vítimas traumatizadas. Mas esse é um processo longo e lento. No Canadá, por exemplo, é bem comum permitirem que crianças vítimas de abuso sexual façam seus depoimentos não no tribunal, mas em vídeo. Às vezes isso é permitido nos EUA, mas não é tão comum. Mas, com o tempo, há esperança de que o sistema legal fique mais e mais aberto a se tornar menos traumatizante para as pessoas que têm que se envolver nele. Vamos ver… É difícil prever como isso vai acontecer, mas estamos progredindo de pouco em pouco.


Reportagem originalmente apresentada em julho de 2017, como parte do trabalho de conclusão de curso “Quando a violência adoece as mulheres”. As estatísticas brasileiras foram atualizadas de acordo com os dados mais recentes, e pequenas alterações foram feitas no texto. A parte teórica do trabalho pode ser acessada aqui.

Bruna de Lara

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Repórter do Intercept. Recebeu uma menção honrosa no 35º Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo. Coautora do livro “#MeuAmigoSecreto: feminismo além das redes".