O que mergulhar de cabeça na música me ensinou sobre ser mulher

E porque essas lições custaram boa parte da minha estabilidade psicológica e emocional

É difícil definir qual o teor deste texto. Não é pessoal porque não se trata (só) de mim, entretanto não sei falar do assunto de forma não-passional e de um ponto de vista impessoal por ser algo que me afeta diretamente.

Cada vez mais a gente vê e ouve falar do machismo na esfera musical. Da ausência de mulheres, dos absurdos que mulheres profissionais da música ouvem dos homens mais “desconstruídos”, da desvalorização do trabalho feminino na música, da objetificação, etc. E é possível dizer que o cenário está melhorando; dizem que já foi muito pior. É por isso que o assunto precisa continuar a ser debatido e vamos bater nessa tecla até que ela não tenha mais utilidade.

Ser mulher é uma experiência insalubre de forma universal: a misoginia é violenta e se manifesta de diferentes formas, minando o emocional e o psicológico de mulheres em todos os lugares — isso sem falar de quando ela mata, estupra e espanca. Na música não seria diferente e quando recortamos o meio independente, o machismo segue se adaptando e buscando diversas alternativas para se manter ali e manter mulheres afastadas desses espaços ou em seus devidos lugares: musas, groupies, fãs. Sempre à mercê do artista, sempre em silêncio e coadjuvantes.

A participação feminina sempre existiu, mas sou levada a acreditar que está aumentando e ganhando mais força, principalmente por causa das mulheres que vieram antes e deram a cara a tapa pra garantir esse lugar que ocupamos hoje. No rock independente nacional, temos cada vez mais exemplos de mulheres tocando projetos ou bandas importantes e fazendo trabalhos de grande destaque. Mas ser mulher nesse meio continua sendo algo assustador e muitas vezes violento. Enquanto alguns encorajam essa ocupação feminina dos espaços, outros ainda alimentam esse discurso apenas até a segunda página — e não se posicionam abertamente contra isso porque pega mal, em um meio visto como “progressista”, todos temem chamados de machista, mas muitos não temem agir de forma misógina com diversas mulheres do seu meio porque contam com o silêncio das vítimas e o apoio dos “brothers”. Produtores, técnicos de som, artistas, jornalistas de música, enfim, homens de todas as áreas relacionadas a música encontram uma forma de exercer o seu poder masculino com mulheres ao seu redor, seja diminuindo suas ideias ou roubando-as, ignorando abusos, acobertando abusos ou cometendo abusos, dando preferência sempre aos “amigões” e colocando profissionais mulheres de lado (mas sem nunca dizer que fazem isso, é claro), espalhando mentiras sobre a vida sexual de uma mulher e inúmeras variações de tudo o que tange o privilégio masculino e a violência misógina e que não deixa de acontecer só porque estamos falando de um meio supostamente libertário.

Esses abusadores, agressores e misóginos no geral costumam ser amigos, fãs, contatos de trabalho ou artistas que você admira, o que torna sua existência como mulher nesses espaços algo nocivo. Você sempre conhece alguém que foi alvo de abuso de um conhecido, mas que tem medo de falar. Você pode ter sido alvo de abuso de alguém conhecido, mas tem medo de falar. Porque ele é um grande produtor ou o dono de um selo ou um guitarrista de uma banda expoente ou escreve pra um canal de visibilidade, enfim, porque falar sobre isso pode acabar com a sua carreira, com o seu trabalho. Porque você é só mais uma mulherzinha, mais uma feminista brincando de trabalhar com arte enquanto eles são os grandes provedores, os homens feministas e artistas sensíveis que jamais fariam algo de ruim pra uma mulher.

É comprovado que assédio sexual no ambiente de trabalho tem consequências sérias na saúde física e mental da vítima, os efeitos vão desde doenças de pele a úlcera e depressão. Inibir agressões misóginas e afastar os agressores do ambiente de trabalho é não só uma medida política, mas também uma forma de proteger a integridade da vítima. Entretanto, quando falamos de música independente, falamos de um espaço onde grande parte dos contatos e parcerias são feitos através da amizade, do “tenho um amigo que faz isso aqui”, o que pode ser um agravante da proteção que os agressores recebem pra continuar trabalhando nesse meio sem que nenhuma medida seja tomada. Ninguém quer denunciar o próprio amigo, vê-lo sem trabalho ou mesmo ficar ‘mal na fita’ com ele — muitas vezes as pessoas se recusam a acreditar na agressão. As consequências desse tipo de postura vão além do afastamento e do isolamento das vítimas do ambiente de trabalho e dos espaços relacionados à música que o agressor possa frequentar, já que o trauma é algo que age a longo prazo, muito além do constrangimento que a vítima sofre no momento em que ele ocorre. A cada assediador/agressor que é mantido nesse ambiente, uma (ou mais) mulher(es) tem seu psicológico jogado no lixo e, consequentemente, seu trabalho também. Não se trata de “destruir a vida de um homem por causa de um erro”, mas de colocar a saúde física e mental, a integridade e o trabalho de uma mulher como algo mais importante que fazer média com um contato ou proteger um “amigo”.

Toda essa estrutura que age na sociedade como um todo não seria diferente na micro-esfera da música independente. Minar o psicológico de mulheres é mais uma forma de afastá-las e mantê-las em seu devido lugar. Isolando uma vítima de abuso ela perde contatos de trabalho caso trabalhe na área, e deixa de frequentar os shows e espaços relacionados caso faça parte do público. Isso levando em conta a denúncia feita. Em caso de silêncio por parte da vítima (o que continua acontecendo porque o acolhimento a essas vítimas não é real ou eficiente), ela se vê frequentando os mesmos ambientes que seu algoz, lembrando da violência que sofreu e sentindo-se, novamente, violentada e isolada, sem confiança nas pessoas ao seu redor. Eventualmente essa convivência se torna insustentável e a vítima se afasta. De ambas as formas, mulheres são afastadas de espaços que são seus por direito em função da manutenção do poder masculino. Assim como o resto do mundo, a música independente ainda não é um espaço seguro pra mulheres, por mais que o pretenda ser e por mais que esteja travestido de ambiente acolhedor e inclusivo.

Além dos abusos que estamos sujeitas, constantemente temos nosso potencial testado. Você não entende o bastante para escrever sobre isso, você não sabe direito como tocar esse evento, você não sabe montar essa bateria, essa mesa de som não é o seu lugar, larga essa guitarra e se arruma mais, você precisa ser uma musa. Sobra até para as mulheres que são parte do público; você não gosta de música de verdade e só está ali por causa do single ou porque aquele cara da banda é realmente bem bonito. E o acolhimento que deveria acontecer por se tratar de um ambiente onde o discurso feminista padrão está na boca de todos é inexistente. E esse discurso pode (e vai) ser usado de escudo por agressores quando os mesmos forem confrontados.

Tentar manter uma postura de proteção a si mesma e as mulheres ao seu redor pode se tornar algo desgastante, porque além de ser cansativo tentar manter agressores longe daquele meio em particular, muitas vezes isso será visto como injustiça. Você deve dar mais uma chance, mesmo que já tenha dado várias. Você deve ser compreensiva. Ele é um cara legal e você está errada desde o princípio. Se denuncia de primeira, está errada por não dar a segunda chance. Se demora a denunciar, errada por ter esperado. Se não denuncia mas tenta alertar as pessoas ao seu redor, errada por não botar a boca no mundo. Errada, errada, errada. É quase como se não existisse acerto sendo mulher. Então se é para estar errada de todo jeito, seja errada fazendo o que acredita ser melhor para sua segurança e para a segurança das mulheres ao seu redor.

Acredito que as pessoas possam se educar, melhorar, se redimir de seus erros. Se não acreditasse nisso, sequer seria feminista, porque muito do que sou hoje foi formado pelo que conheci do feminismo, pela necessidade que senti de me educar, pela transformação que o feminismo representou na minha vida e na minha postura. Mas espero que agressores e homens de postura misógina “se eduquem e melhorem” longe das vítimas e em espaços onde eles não possam prejudicar a saúde e o trabalho de outras mulheres. E as micro-agressões ao intelecto e à capacidade de uma mulher de desenvolver um trabalho, seja ele qual for, no campo da música também devem ser reprimidas. Já passou da hora de pararmos de deixar passar só pela política da boa vizinhança. Isso não significa “escrachar”, por exemplo, um técnico de som que duvida da capacidade de uma mulher de tocar um instrumento ou montar uma bateria. Mas significa repreender esse tipo de postura e combater esses comentários. E isso não deve vir só de nós, mulheres que trabalham com música, mas de todos os homens que se dizem “apoiadores” da causa, que dizem que querem mais mulheres nos espaços independentes produzindo eventos, comandando mesas de som e iluminação, tocando e compondo; e não só cobrem seus colegas, mas cobrem a si mesmos, auto-crítica é um elemento essencial para o crescimento de qualquer pessoa. E nós precisamos muito de auto-crítica, porque estamos falando aos quatro ventos de espaços inclusivos e seguros, de um ambiente “progressista”, mas continuamos colocando mulheres para fora dos nossos espaços e preterindo profissionais mulheres na hora de formar uma equipe ou um lineup. Mulheres devem estar em todos os espaços e não só nos eventos “para as mina” em datas isoladas que tem sabor de prêmio de consolação — vocês não fazem parte dos outros eventos, mas a gente deixa vocês fazerem esse negócio aqui pra que se sintam incluídas e não nos encham o saco. Ainda falta a noção de que somos mais que um asterisco em um flyer ou uma data especial “reservada para as mulheres” em programações lotadas de homens durante o ano todo. Nosso trabalho, nossa audiência, nossa produção, é tudo tão parte desse cenário como tudo que é feito por homens. É vital. Nada disso estaria aqui se não fosse pela gente também. Está na hora de tomarmos posse de algo que também é muito nosso.