Como eu me apaixonei por um babaca de aplicativo— Arnaldo

Na verdade nosso match foi um crush no Happn. Eu fiquei uns dois meses fazendo snorkel no fundo do poço, curtindo minhas paranóias, minhas inseguranças, até que resolvi dar mais uma chance aos aplicativos, pois como vou conhecer as pessoas se eu não saio à noite?

Eis que no dia 16 de maio (me sinto tão trouxa por guardar "nossas datas") tivemos um crush. Particularmente, acho engraçado a quantidade de perfis que colecionamos nesses apps e nunca desenvolvem nem uma conversa. Com o Arnaldo foi diferente. Falamos de bastante coisa e fiquei instigada por aquele sorriso e par de olhos azuis.

Dizem que temos padrões e buscamos sempre o mesmo perfil de pessoas. E deve ser mesmo, porque o Arnaldo é um clone perdido de um ex-namorado meu tanto de aparência como de comportamento.

Dois dias depois, marcamos de nos ver e fomos em um speakeasy bar. Eu me lembro da sensação que tive quando ele mandou a mensagem confirmando nosso date. Fiquei muito ansiosa e nem sabia mais direito como era sair para encontrar alguém totalmente desconhecido. Estranho!

Ninguém entende essa minha angústia e dificuldade de interagir com outros seres humanos, porque certamente eu disfarço muito bem. Uma das minhas melhores armas se chama falar pelos cotovelos para que não se crie aqueles silêncios constrangedores. Outra grande aliada nessas horas são: drinques. Pedi alguns Gins e quando vi, eu falava simplesmente porque perdi meu filtro alcoólico.

Gostei dele.

Gostei do humor ácido, do cabelo grisalho e da forma como compartilhamos o ranço de problemas da vida.

Gostei do beijo, gostei do cheiro. Gostei pra caralho! Ali deu um clique que fazia muito tempo que eu não sentia. Nos vimos no dia seguinte também em outro speakeasy caído aos pedaços, mas que simplesmente não me importava. Tudo o que eu queria era um moscow mule e ficar admirando aqueles olhos.

Conversávamos senão todos os dias, quase todos eles. Toda semana, marcávamos de nos ver (uma pausa para a tristeza que é escrever isso no passado).

Em junho foi mês de quê? De Copa, meu bem. Ele, como um bom amante do futebol, foi ver nosso Brasil perder o hexa de pertinho.

Viagens

Eu tenho uma teoria um pouco deprimente sobre viagens: sempre que elas acontecem, os "lances"acabam. Seja pelo tempo, seja porque conheceu outras pessoas… Eu não sei o que acontece, mas geralmente acabam.

Com o Arnaldo foi diferente. Eu deixei tudo o mais livre possível. Dei os espaços que ele precisava, porque ao contrário de mim que sou totalmente expansiva, ele é um cara muito misterioso, de poucas palavras. Notei um padrão de que a cada dois dias ele aparecia com um meme, uma mensagem. Ele sempre se fez presente mesmo a milhas de distância.

Num dia desses durante a Copa, fui pega completamente de surpresa por um cartão-postal (que aliás, eu nunca havia recebido nenhum na minha vida).

Mais uma da série de lugares que passei e lembrei de você. Como se fosse possível não lembrar.

Era ele. Tão distante se fez presente da forma mais simples. Pronto, minhas paredes tinham acabado de ruir.

Eu sempre ficava na dúvida se eu era só mais um date ou se de alguma forma eu era especial. Ser lembrada a tantas milhas distância me fez entender que eu tinha algum lugar cativo ali dentro dele.

O Arnaldo voltou, quis me ver. Minha teoria de que viagens estragam qualquer tipo de "lance"havia ido por água abaixo. Tivemos mais outros finais de semanas seguidos juntos, porém o Arnaldo começou a apresentar umas mancadas que me fizeram questionar o que àqueles cartões significaram (foram 2, um da Inglaterra e outro da Rússia)

A primeira mancada

Depois de passar o fim de semana na minha casa, ele me manda um áudio falando que iria comemorar o aniversário dele na terça e que gostaria muito que eu fosse.

No dia fatídico

Comprei uma lembrancinha de Star Wars porque ele é fã e deixei na portaria do trabalho dele. Adorou, postou até no stories, mas obviamente sem me mencionar é claro.

Fui no tal do aniversário. Ri, bebi igual a um camelo, conversei com os amigos dele, com o pessoal do trabalho… Eu era mais uma qualquer ali,e tudo bem por mim! Não somos namorados, né?

Chegou o fim de festa, só tinha eu e mais uns 3 amigos. Alguém tirou o celular do bolso para bater uma foto da galera, mas a câmera era ridícula. Eu peguei o meu e quando vi, o Arnaldo estava se esquivando de aparecer na foto. Sinal de alerta! Por que diabos ele iria se esconder de uma foto comigo e com os amigos dele? Não era uma foto de casal!

Bebi. Esqueci.

Lamento muito que a bebida me prive de detalhes importantes, mas me recordo muito bem que depois desse episódio ele comentou algo sobre fotos. Ele deve ter dito algo como:

fotos me assustam

Eu me senti o cocô do cavalo do bandido. Ainda que nesse mesmo dia ele tenha levado um chaveiro de presente para arrumar a bagunça das minhas chaves de casa, ainda que ele tenha me chamado para esse evento especial…

Eu estava na merda.

Fui embora puta da cara, com o coração despedaçado porque simplesmente não entendia o por quê daquela cena da foto. Não lembro onde foi parar a porcaria do chaveiro, mas no meu ápice de raiva/tristeza devo ter arremessado aquela merda pela janela do uber.

No dia seguinte

No dia seguinte ele agradeceu que eu fui e disse que ficou muito feliz pela minha presença. Mas, não me contive. Ali acabei perguntando sobre aquilo da foto. Ele pediu mil desculpas e disse que não fazia sentido algum. Horas depois, chega na portaria do meu trabalho um cartão e uma pipoca de chocolate. Era ele de novo.

Você significa mais para mim do que deixei parecer ontem.

De novo senti que aquilo era uma forma dele demonstrar carinho. Quem não acharia?

E nisso foi se passando mais alguns encontros, dormidas na minha casa e até "emprestei"meu carro e meu cachorro para ficar com ele enquanto eu ia num evento familiar (o qual eu gostaria muito que ele estivesse comigo, mas não tinha a licença poética para apresentar e assumir para o Brasil). E não mesmo.

A segunda mancada

No outro fim de semana ele sumiu. Inventou meia dúzia de compromissos e não mandou um "a". Defeito ou não, eu sou orgulhosa. Não tenho perfil de maratonista para correr atrás de ninguém. Falei e acredito:

Quando a gente gosta, ninguém precisa pedir para ficar. A pessoa simplesmente fica.

O Arnaldo pediu mais uma vez mil desculpas e disse que estava com saudades. Ah!

Devo mencionar que nesse meio tempo também houve um convite para passarmos um feriado juntos.

Um dia depois me chamou para um jogo do Atlético e Flamengo que aconteceria no domingo. Também topei, óbvio. Gosto daquele traste!

Nesta mesma terça-feira, falou para nos vermos no dia seguinte.

A quarta-feira

Minha quarta-feita estava um desastre. Mil problemas no trabalho.

Tudo o que eu queria era aquele peito e o cheiro dele. Minha programação de Netflix e dolce far niente acabava de ruir.

Essa visita não era uma saudades, e sim um pé na bunda disfarçado de "pessoa boa que não quer gastar o seu tempo".

Sem por quês, sem motivos figurados, Paulo disse que eu era um "mulherão da porra", que gostava muito de mim MAS (sempre tem um mas), não queria mais continuar com aquilo.

Não lembro muito bem o que disse, porque tanto faz o que levou ele a pensar ou dizer isso. Só sei que comentei sobre responsabilidade emocional e que não fazia sentido todas àquelas jogadas pra cima de mim.

Eu, que pela primeira vez, tentei agir da forma mais leve possível. Eu fui recíproca nas ações. Se demonstrava carinho, eu demonstrava também. Mandou bom dia? Então eu vou mandar um boa noite, embora eu pensasse nele antes de dormir todos os dias desde que o conheci.

Doeu.

Eu fiz tudo com carinho e faria de volta. Eu fiz porque naquela hora fazia sentido, agora não faz mais.

Eu queria entender como funciona esse botão liga-desliga, porque não houve um por quê. Se ele tivesse me explicado onde foi que eu errei, ou quem apareceu ou de onde vinha aquela mudança repentina (ou de certo eu li os sinais errados?), talvez houvesse uma paz interior por aqui.

Como uma tremenda pata e imbecil, chorei na frente dele e nem me despedi do par de olhos azuis mais bonito que já vi.

Passei dias de merda, mas com uma pontinha esperançosa de que ele pudesse reaparecer pedindo desculpas e que percebesse que tudo isso foi um erro. Não vou negar que toda vez que passei pela portaria do meu trabalho, fiquei pensando que poderia ter uma cartinha desse babaca bipolar para mim.

Namastê, vai se foder

Ainda não dá para perdoar o estrago que o Arnaldo fez comigo. Ontem joguei no lixo a toalha dele, mas a cerveja que eu comprei pra gente tomar junto ainda tá aqui.

Que fase.

  • Arnaldo é um nome fictício.