Há aproximadamente um ano eu vi um jogo de tabuleiro nascer. É um mercado difícil e os jogos digitais são, há bastante tempo, a preferência entre quem gasta com entretenimento em geral. Não é atoa que o faturamento da indústria de games digitais já passou — por grande margem — a indústria do cinema. Mas então porque eu estaria falando do nascimento de um jogo de tabuleiro?

Minha curta história com jogos

Eu tenho 27 anos e moro em Goiânia. Não é uma gigante como São Paulo mas é grande o suficiente para eu não ver mais crianças brincando na rua (como eu brincava) durante o dia todo até tarde da noite. Ficar em casa é mais seguro e a escolha por um vídeo game acaba sendo a mais segura forma de entretenimento que um pai pode escolher. E convenhamos, a maioria das crianças preferem esse tipo de passa tempo.

Uma das antigas telas de abertura do Tibia

E não se enganem, apesar de não me considerar um grande fã dos consoles, joguei alguns bons jogos para PC. Como o saudoso Tibia durante muitos anos. Além disso também joguei Starcraft, Warcraft, AoE, Duke Nuken, Herectic e Pitfall. O ponto não é esse. O ponto é que apesar disso, eu sempre gostei de jogos de tabuleiro, nem sei explicar o porquê. Lembro de juntar dinheiro durante alguns meses pra comprar um Banco Imobiliário de R$ 26,00 e é claro que eu me lembro do quanto paguei porque foram longos meses de mesada economizada. Enfim comprei e joguei muito aquele jogo que é as vezes infinito, as vezes frustrante e muitas vezes tão divertido.

Na verdade o meu era o Júnior, que era mais barato.

Depois disso eu conheci alguns outros jogos de tabuleiro e sentar-se ao redor da mesa com alguns amigos, fazer microgerenciamento de recursos, me imaginar destruindo inimigos fantásticos, defender fortalezas ou executar estratégias complexas para atingir um objetivo sempre me deu um prazer profundo. E escrever um texto sobre esse assunto sem mencionar Magic The Gathering invocaria a ira de mil deuses.

Um parêntesis sobre Magic, The Gathering

Verso de uma carta de Magic

Joguei Magic durante alguns anos da minha vida, nunca consegui ficar muito bom e acho que algumas características extra jogo tornam a experiência dele menos prazerosa. Mas ainda assim, na minha opinião MTG é o melhor jogo que você pode jogar, com uma, e apenas uma exceção: role-playing game. Na verdade eu não tive tantas oportunidades de jogar RPG e por isso ainda não tenho convicção de que ele é realmente melhor que Magic. Mas um amigo meu, em cuja opinião eu tenha plena confiança fez esta ousada afirmação e eu resolvi adotá-la como exceção à minha regra. Mas este não é um texto sobre MTG. Continuemos.

Cenário atual

De uns anos pra cá, para meu deleite, surgiram vários jogos de tabuleiro no Brasil. O primeiro dessa nova geração que me capturou foi Colonizadores de Catan. Eu joguei bastante Catan. Minha esposa trouxe do Canadá na época em que namorávamos e desde então sou um fã do jogo e tento acompanhar — com o pouco tempo que sobra — a chegada de alguns jogos ao Brasil. O último importado que eu joguei e me diverti demais foi Terra Mística, mas ainda na fila tenho 7 Wonders, Agricola, Pandemic, Zombicide, etc. Como eu disse, não tem sobrado muito tempo. Um beijo pro Munchkin ¬¬ Odeio.

Tabuleiro de Colonizadores de Catan (versão internacional)

No meio desse despertar acompanhei muita coisa pelo Jogando Offline. Os caras faziam um trabalho fantástico de review de jogos super bem ambientado e apesar de inspirar uma certa vergonha alheia em alguns vídeos o resultado final era nada menos que excelente. Não me surpreende terem parado de produzir o conteúdo, devia dar um trabalho danado e como eu disse lá no começo, é um mercado difícil. Sei também do Jack Explicador, que agora parece estar produzindo no canal Meeple Maniacs. Pra ser sincero depois que o Jogando Offline parou de produzir eu não procurei outros canais de tabuleiro. Acompanhei o Formação Fireball que era mais focado em RPG até o canal acabar (minha sina) e agora comecei a ver o trabalho dos mesmos criadores do Formação Fireball no Vertente Geek.

A dor do parto de um novo jogo

Sim. Apesar de curtir muito o hobby hoje em dia eu gasto muito mais tempo assistindo e conversando sobre jogos do que jogando de fato. É a vida. Contudo, lá em cima eu disse que há mais ou menos um ano eu vi um jogo de tabuleiro nascer. Mas não foi um jogo qualquer. Foi um jogo de tabuleiro que tinha tudo pra dar errado: você joga em pé, demanda algum espaço, demanda habilidade física e mental e é relativamente caro.

E assistir um jogo nascendo é uma coisa interessante. Ele começa bem errado, com umas mecânicas confusas e conceitos mal elaborados. Materiais improvisados e com várias dúvidas durante as primeiras partidas. Só que ao longo de 2016 eu vi uma arte muito original e bem feita sendo produzida, vi problemas de mecânica sendo transformados em regras bem estabelecidas e acompanhei livros de mitologias diversas sendo consultados e mesclados a cultura folclórica da nossa região pra formatar um background sólido pros jogadores.

A vontade com que ele expunha seu desejo de fazer os jogadores mergulharem na história que se passava na própria cabeça e a bela forma com que ele conseguiu, pelo menos em parte, alcançar esse objetivo são inspiradoras. De certa forma, a evolução que eu vi no jogo foi acompanhada por uma evolução em seu criador: dolorosa, solitária e corajosa. Não é todo dia que um goiano sai de casa com um jogo debaixo do braço de autoria própria desafiando alguns conceitos já muito estabelecidos de tabuleiro.

Chega de lero lero. E o jogo?

Arcária é massa. Não sei se essa é uma gíria que todo mundo entende. Se fosse dado a palavrões diria que Arcária é olaracud. O jogo ficou com um acabamento surpreendente, grande variação na jogabilidade e uma arte, como eu já disse: original e bem pintada.

A mecânica simples de jogar dardos acompanhada das variações de habilidades que cada personagem tem não deixam nenhum jogador ficar desmotivado, mesmo quando está perdendo. Por ser um jogo que se joga em pé, as vezes você não quer ficar preso por muitos minutos numa partida (mas muitas vezes vai querer), pra isso os próprios jogadores tem aparatos pra decidirem o tamanho que vão querer a partida antes que ela se inicie.

E eu deixei o mais importante por último: é divertido. É divertido ver seu amigo se ferrando porque errou um ataque, é divertido ver aquele outro amigo tendo que cantar durante a partida porque resolveu jogar de bardo (uma das classes do jogo), é divertido combar habilidades e fazer vários ataques num mesmo turno e também é divertido quando todo mundo ri de você errando todos eles.

E quem fez esse tal jogo?

Foi o Raubher Borba. Meu irmão. Eu gosto de escrever, embora ache a atividade bem sofrida. Juntei meu gosto por jogos com a oportunidade de falar um pouco sobre o trabalho dele. Contudo, eu não diria nada disso se não fosse verdade. Foi por isso que eu mencionei problemas que eu notei no início e a forma diligente com que eles foram tratados ao longo do tempo.

O jogo está em financiamento coletivo pelo Catarse mas estão faltando apenas 10 dias. Este texto não é pra que as pessoas entrem em frenesi e atinjam a meta, caso contrário ele teria sido escrito antes. Este texto é um reconhecimento de um trabalho bem feito com um fruto digno de orgulho e da devida apresentação. Quero muito que dê certo. Mas como ele mesmo costuma dizer: já deu.

Caso alguém se interesse por mais informações sobre o jogo. Me procure no twitter ou pela página do jogo no facebook. Se quiserem só trocar ideias aleatórias sobre jogos aleatórios, também é no twitter. Um abraço, e nos vemos numa partida qualquer.

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