Filtro Fact-Checking

Fotografia — Tânia Meinerz

Por Alexsander Machado, Tainara Mauê e Thiago de Loreto

A verdade importa? Para o pessoal do projeto Filtro Fact-Checking essa pergunta representa a principal ferramenta de trabalho. A verdade importa sim, e pode, por exemplo, definir o futuro de uma cidade, um estado ou, até mesmo, um país. A internet, atualmente, com todo seu poder de comunicação, cumpre um grande papel de disseminação de informações, isto é, maior acesso a conteúdos, inclusive, jornalísticos.

É neste contexto em que o perigo se esconde: com a facilidade em disseminar informações, fica fácil, também, espalhar mentiras e boatos, sobretudo no campo político.

O Filtro Fact-Checking tem como objetivo principal verificar o que os candidatos a governo do estado do Rio Grande do Sul apresentam em suas redes sociais e programas eleitorais de rádio e televisão. Os jornalistas do projeto se baseiam no código de princípios de checagem do Internacional Fact-checking Network , isto é, um método internacional de checagens, com o trabalho jornalístico bem apurado e com processo transparente.

Os três integrantes do Filtro Taís Seibt, Tiago Lobo e Naira Hofmeister apresentaram, em entrevista, os valores e principais intenções do projeto. A ideia inicial é ter, durante o período eleitoral de 2018 — de 31 de agosto a 04 de outubro -, uma checagem por dia das informações apresentadas pelos candidatos.

Tiago Lobo, integrante do Filtro, explica o projeto:

Divulgação Youtube.com

Para uma conversa sobre o projeto, os jornalistas do Filtro receberam a reportagem na Agência Padrinho, local de realização de algumas oficinas de checagem feita por eles.

O fact-checking é uma ferramenta que soma a uma cobertura tradicional, e não substitui o jornalismo tradicional.

Confira os principais destaques:

Como é trabalhar com checagens no período de pós-verdade?

Tiago: Trabalhar com checagens dentro de um cenário de pós-verdade, de pós-fato, é cada vez mais importante, porque, de certa forma, o fact-checking é um movimento crítico ao jornalismo tradicional, não se colocando como superior ao jornalismo tradicional, mas um movimento crítico também a situações de mercado do que jornalismo tradicional. Acho que é pouca checagem na imprensa, hoje em dia. Principalmente, em discursos de figuras públicas. A gente tem um problema, que acho que é generalizado e amplificado por situações de mercado, de jornalistas que precisam produzir muito ganhando pouco em um tempo cada vez menor. Tudo é muito instantâneo, tudo é muito bico. Tem que estar ali o tempo inteiro. E, nisso, acaba se checando muito pouco. E, então, acho que para qualificar o debate público, a checagem é importante como uma ferramenta que soma. O fact-checking é uma ferramenta que soma a uma cobertura tradicional, e não substitui o jornalismo tradicional.

Como o Filtro trabalha com dados? Utilizam algum programa específico para auxílio?

Taís: É uma pergunta muito comum. Eu acho ela bem curiosa, pois geralmente a gente fala em fact-checking, e eu tenho a impressão que as pessoas esperam que a gente responda que teria uma máquina mágica ou software mágico da verdade. E não existe. É apuração jornalística. E isso não é demérito, nem para o filtro e nem para nenhuma instância de checagem, porque o método internacionalmente compartilhado pela International Fact-Checking Network (IFCN), preconiza exatamente isso — os passos de uma apuração jornalística — de buscar as fontes, claro que tem algum nível tecnológico de dados que estão se desenvolvendo.

Tiago: São mecanismos de fact-checking, mecanismos para ajudar pessoas leigas a identificar notícias e conteúdos falsos. Eles não fazem checagem, eles te instigam a checar.

Etiquetas que o Filtro irá usar para a classificação das informações apuradas:

Como vocês enxergam esse movimento do Facebook contra as fake news?

Taís: O que mais tornou evidente que precisa é trabalho humano jornalístico, é essa medida do próprio Facebook, de se associar com iniciativas de checagens no mundo todo e, inclusive no Brasil, para identificar informações que são potencialmente falsas. O Facebook criou um algoritmo mais eficiente no mundo e, se é possível ter uma máquina da verdade, quem melhor que o Facebook para desenvolver este algoritmo? É um momento que eles se associam com uma iniciativa de checagem e que seguem esse processo jornalístico, editorial de apuração. A gente tá reforçando exatamente esse papel humano. Nós utilizamos as mesmas ferramentas que antigamente se chamava reportagem assistida pelo computador. Então, nós utilizamos qualquer ferramenta que todos os jornalistas teriam acesso no seu dia a dia de trabalho.

Nem tudo pode ser checado. Existem frases que são uma manifestação de uma opinião e de valor da pessoa, e todos têm o direito de dar a sua opinião, pois faz parte da democracia e da liberdade de expressão. Então, tem frases que não cabem ser questionadas com o processo de apuração de checagem, por esse motivo. Assim como tendências de futuro, projeções, que são elementos. Por mais que elas possam estar em bases de estatísticas e projeções aritméticas, não tem como comprovar o resultado.

Tiago Lobo, Taís Seibt e Naira Hofmeister. Fotografia— Tainara Mauê

Casos de fake news ficaram famosas nas últimas eleições dos Estados Unidos. As redes sociais, como se viu, mostraram-se vetores de desinformação. A notícia falsa é mais atraente do que a verdadeira? Como mudar isso?

Taís: Uma pesquisa foi divulgada na revista Science, e a manchete desta revista até foi reproduzida nos veículos de comunicação do mundo inteiro. Ela dizia que as notícias falsas são espalhadas três vezes mais do que notícias verdadeiras. Então, ficou claro que a notícia falsa viraliza muito mais. É possível que sim, mas a conclusão real desta pesquisa, porque ela comparou a circulação no Twitter, durante 10 anos, de notícias identificadas como falsas por sites de debunk ou fact-checking, já estava em atividade nos EUA e comparou a circulação dessas notícias com as verdadeiras (gerais) de veículos de comunicação sérios. Então, o problema metodológico está justamente aí, porque se comparou notícias falsas com notícias gerais. O que são notícias gerais? Notícias de política, economia, etc. Se eu fizer a mesma notícia, comparando notícias de Grêmio e Inter, com notícias gerais, eu vou ter um resultado muito parecido. Basta ver os relatórios de mais lidos de todos os sites.

Mas qual é a grande conclusão da pesquisa? Notícias que mexem com emoções são mais compartilhadas e mais sensacionalistas (verdadeiras ou falsas).

O apelo emocional das mensagens, é feito justamente para mexer com isso. Se reparar, esses discursos mexem com crenças, com convicções. Então, ele reafirmam uma coisa que tu querias que fosse verdade, ou ele te choca, te impacta de uma forma arrebatadora, ou ele te provoca raiva, medo e angústia. Então, são sempre conteúdos que apelam para esses sentidos, e isso é do ser humano.

Os antigos dizem que a paixão cega, tu perdes o senso crítico, perdes a noção de relativizar as coisas de contextualizar as coisas. Então, esse é o grande apelo. É por isso que a gente gosta tanto de notícia falsa. Porque ela apela justamente para isso, para emoções. É uma estratégia de viralização que passa por aí.

Notícias que mexem com emoções são mais compartilhadas e mais sensacionalistas (verdadeiras ou falsas).

Tiago: Acho que tem uma questão, principalmente hoje em dia, quando a gente fala de pós-verdade. E o conceito é quando o apelo à emoção tem mais peso de mudar a opinião pública do que fatos confiáveis e a verdade. As notícias falsas ou conteúdos, sejam eles falsos, são usados como ferramenta de validação.

Taís: E tem outro fator dessa questão emocional e validação, e que está revelado em várias pesquisas, e já é uma certa gratificação das pessoas por compartilharem algo que confirmem a convicção, ou que elas sabem primeiro, ou que elas acham que estão contando uma grande novidade, e estão ajudando muitas pessoas em dizer em seu grupo de WhatsApp da família que irá ter uma nova greve (ex. amanhã). Então, há uma certa gratificação do indivíduo nesse sentido.

Primeiro compartilha, depois vê que é falsa e tem vergonha de dizer que compartilhou uma notícia falsa. Dificilmente irá retratar e ajudar as pessoas. A pessoa vai ficar na dela, vai esperar que as pessoas descubram por conta própria que era falsa. Então, por isso, precisamos levar este debate a cada vez mais pessoas de várias camadas sociais, vários grupos sociais, perfis sócio- econômicos, perfis de formação mesmo, porque não tem a ver com grau de instrução. Jornalistas compartilham notícias falsas. E não tem idade. Então, precisamos trabalhar no antes de ser compartilhada, porque estamos falando, aqui, de checagem, e a gente não consegue o mesmo alcance. Temos de expandir essa cultura de verificação e dizer que existem fontes, dizer que existem pessoas que estão vendo e verificando isso e que existem sites, agências, enfim, jornalistas que estão verificando.

Então, há um processo de rebobinar e trabalhar firme, cada vez mais firme, como jornalistas, nos processos de verificação de checagem. É um papel inevitável, que vai fortalecer esse trabalho para os jornalistas. Mas, antes, é preciso uma conscientização da sociedade como um todo.

Tiago: Antes, se trabalhava com um conceito de mídia de massa. Hoje, é uma massa de mídias. Então, o potencial de pulverizar a informação que a gente tem é gigantesco. E essa informação pode ser falsa ou não.


Para colocar em prática, o Filtro Fact-Checking lançou uma campanha no site catarse.me para viabilizar financeiramente o projeto. Dependendo do valor de contribuição, o colaborador pode receber como “recompensa” as checagens via e-mail, e-book sobre fake news, guia prático sobre o fact-checking, entre outras gratificações.

Divulgação Facebook

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