Prova concreta
Estive te procurando nos versos de outrora, daqueles onde dois seres completamente distintos se encontram para viver um grande amor, eis que te encontro, o total oposto daquilo que sou. Estive a sua procura nas canções dos já consagrados cantores, e congelei ao ouvir uma melodia que até o último dia de minha vida será sinônimo de você na minha história (ou da nossa história), ouvi o som da tua voz doce, da tua risada que deveria tocar no rádio. Estive em sua busca nas lembranças mais distantes, nos risos apagados de domingo, nos velhos poemas que só nasceram porque você existe, e porque tu é a poesia e o poema mais bonito que eu tive o prazer de ler na vida. Eu te cacei por entre as velhas conversas criptografadas das quais não apaguei uma letra sequer, nas ilusões de um futuro contingente que eu ainda quero e espero viver com você, na melancolia escrita de Machado de Assis, sob o ar soporífero de uma manhã que escurece paulatinamente sem que você esteja presente. Estive te procurando também nas outras tantas tragédias literárias, nas cartas que nunca foram escritas, nos rabiscos irrisórios de um poeta circunstancial. Estive a sua procura nas fotografias encaixotadas e empoeiradas pelo tempo, nas noites de insônia que sozinho tive que vencer em minha cama, nos delírios inconsequentes de uma criatura atormentada pela sua ausência, insônia e tormenta que tem nome, sobrenome e endereço certo. Eu te busquei nos empoeirados bilhetes de bom dia que escrevi, mas que infelizmente ainda não passaram de rascunho pra que um dia possam te acordar sorrindo, nas muitas taças de vinho que tomei em companhia da saudade… Eu te procuro, busco, caço, sigo os teus sinais, e se por acaso sigo dia pós dia em sua busca, é porque não me acomodei com a simples e dolorosa certeza de que você não está aqui, ainda, dentre tantas coisas as quais estive buscando, por fim te encontrei, com a certeza de que você será perpetuamente minha única prova concreta de que o amor existe.
