A tecnologia não é ética. Mas e nós? Nossas empresas? Nossos governos?

O poder das tecnologias (Big Data, Cloud, mobilidade, Internet das Coisas, Computação Quântica e Inteligência Artificial) precisa urgente ser contrabalançado por regras. Mas quem as fará?

Publicada em 12/06/2016 11:39

Quinta-feira, dia 9/6, conversei por alguns minutos com o futurólogo Gerd Leonhard, que tem percorrido o mundo para falar sobre os impactos que o avanço exponencial das tecnologias digitais (Big Data, Cloud, mobilidade, Internet das Coisas, Computação Quântica e Inteligência Artificial) representarão para a humanidade. O que ouvi dele continua ecoando, até agora.

A conversa aconteceu logo após a apresentação de Gerd no Atmosphere 2016, evento anual promovido pelo Google. Enquanto Gerd repetia no palco fases de efeito, como “dados são o novo petróleo, e a inteligência baseada em dados, a nova gasolina”, ou “computadores estão as respostas assim como humanos estão para as perguntas”, eu pensava no quanto estamos despreparados para enfrentar essa nova realidade. Tão rápida que, em muitos aspectos, já está entre nós. Não faz muito tempo, ouvi Gerd mencionar que a hiper conectividade poderia se tornar um fardo para nós. Que o excesso de conectividade poderia nos levar ao colapso, por intoxicação. Impossível negar que para muitas pessoas isso já é fato. Está aí a nomofobia para comprovar.

Também já o ouvi dizer que a tecnologia não é ética. Nós deveríamos ser, porque ética está relacionada a crenças e princípios. Então, somos nós que devemos tornar ético o uso das tecnologias.

Então, comecei perguntando sobre ética e privacidade em um futuro onde os seres humanos e as máquinas inteligentes estarão cada vez mais interconectados e sobrepostos. Onde absolutamente tudo será uma interface homem/máquina. Afinal, estamos no caminho de ter ferramentas e poder computacional para monitorar todos os pontos de dados, cada movimento, cada imagem, cada palavra e, possivelmente, cada pensamento que tivermos. Como lidar com isso? Como vamos lidar com este aumento da capacitação de softwares e máquinas, a enorme aceitação no fluxo de informações em tempo real, o avanço da intelig6encia artificial e as implicações de longo alcance que estes desenvolvimentos terão?

“O poder da tecnologia precisa ser urgentemente contrabalançado por regras de uso. O cenário no qual a tecnologia saberá tudo parece assustador. Mas precisamos que a tecnologia saiba algumas coisas. É bom para nós, para baratear as coisas, torná-las mais eficientes e rápidas. As regras dirão os
 que as tecnologias poderão ou não fazer. Precisamos controlar nossos dados”, me disse Gerd.

Preocupada com a atuação desastrada no nossos congressistas sobre tudo o que diz respeito à internet e aos serviços digitais, a quem caberia fazer as regras. Legisladores? Empresas? “Ambos, mas é uma tarefa para todos nós. É uma questão de toda a sociedade. Políticos, legisladores, reguladores… Companhias que usam nossos dados devem ser responsáveis por esses dados. E nos dar possibilidades de controlar os dados que entregamos a elas. No futuro, quando nossos carros estiverem conectados, nossas casas, precisaremos de mais segurança”. Contratos sociais, tratados, regulamentos… “É complicado, não depende só de governos, mas se não tivermos regras, estaremos em apuros. Precisamos ter meios de controlar os dados”, afirma Gerd.

Mas como equilibrar o uso dos algoritmos com o que ele costuma chamar humarithms?

E aqui cabe um parênteses. Gerd é o rei dos neologismos: Humariths (o modo fluido, emocional, dos seres humanos viverem), oposto aos algoritmos; HellVen (junção de hell e heaven, inferno e paraíso), que designa onde a tecnologia está nos levando. Gerd não acredita que as máquinas se tornarem conscientes e emotivas, ou os seres humanos se tornarem máquinas para serem ainda mais poderoso, seja uma boa ideia ou um caminho desejável. Ganharemos se “abraçarmos a tecnologia, não nos tornamos ela”. Deve ser uma união, não uma substituição. E alterações que provocarão na sociedade não são apenas exponenciais, são também combinatórias (ou seja, seus efeitos se combinam, geralmente de formas inimagináveis).

Onde os avanços do aprendizado de máquina poderá nos levar em 10 anos? Gerd crê que estamos diante de uma época complexa, na qual a abundância de dados e sua análise crescente pelas máquinas nos levará a um mundo onde as máquinas saberão muito sobre diversos assuntos. “Um médico não será capaz de coletar informações, fazer conexões e inferências sobre bilhões de genomas. O computador sim. Ele será capaz de fazer melhores análises, porque será melhor em reconhecer padrões. E, a partir dessas análises, poderá apontar para o médico a melhor decisão a tomar. Mas não precisamos que uma máquina se torne um médico. Precisamos é que a máquina auxilie o médico a ser mais eficiente”, pondera Gerd.

O que nos levará a um mundo no qual a educação dos profissionais terá que ser completamente modificada. “Nesse novo mundo, os enfermeiros , por exemplo, serão capazes de assumir muitas das tarefas de um médico, auxiliados pelos computadores. Em 80% dos casos não precisaremos de um médico”, diz Gerd. E isso poderá tornar a saúde mais acessível e barata.

Gerd está entre aqueles que acreditam que muitas profissões irão desaparecer por completo. Em especial, aquelas que puderem ter suas tarefas completamente automatizadas, como atendentes em cadeias de fast food, caixas de supermercados, motoristas de táxi, agentes de viagem. O que deverá gerar uma massa de desempregados. Mas novos postos de trabalho serão criados. Foi assim com a automação industrial. Será assim com a automação de muitos serviços. “Teremos que (re)treinar essas pessoas para novas tarefas”, afirma. “Se fizemos um esforço para compreender melhor o que está por vir, podemos fazer muitas coisas boas. Só assim estaremos preparados”.

Já dizia McLuhan que nós criamos o futuro, porque nós inventamos as ferramentas que, por vezes, em seguida, “nos reinventam”, (re)enquadram toda a nossa realidade.

O ponto-chave é que não podemos deixar de questionar o pressuposto de que todas as ferramentas tecnológicas são boas para implantar apenas porque poderem transformar nossa realidade. Em muitos casos, o futuro mais desejável, ou melhor para nós, pode significar não mudar.

Em 1997, no livro “O que será”, Michael Dertouzos já nos alertava que os teclados seriam substituídos por softwares capazes de compreender instruções verbais; que teríamos acesso a uma medicina mais confiável, a um custo menor; que o amor sofreria com as consequências da realidade virtual; e que tudo isso aumentaria a distância entre os países ricos e os pobres.

Gerd já vê as grandes potências se adequando para as novas realidades, que será mais dura com países em desenvolvimento como o Brasil.

Por outro lado, habilidades ou traços de caráter como a criatividade, imaginação, intuição e narrar histórias, voltarão a ser cada vez mais importantes, já que as máquinas ainda não são adequadas para enfrentá-las, pelo menos no futuro previsível. Mesmo que saibamos quem em 2027, as máquinas possam vir a ter a mesma capacidade do cérebro humano para tratar informações. Isso significa, segundo Gerd, que os computadores serão capazes de ter entre 10% a 20% da nossa capacidade cognitiva.


Originally published at idgnow.com.br on June 12, 2016.