
A Parada LGBT virou uma festa. E isso é ótimo!
A cantilena conservadora, vez ou outra, costuma passear pela mente e pelos corações de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros. Não é difícil ouvir reclamações, quando das Paradas do Orgulho LGBT em todo o Brasil, que o evento ‘perdeu o sentido’, porque virou uma festa.
Segundo esta linha de raciocínio, a Parada surgiu como um evento de ativismo político que buscava dar visibilidade aos LGBT, em suas pautas e seus direitos negligenciado, e que atualmente as pessoas só participam do evento para beber, paquerar e ‘beijar na boca’.
Antes de mais nada, é difícil que todo mundo que comparece a um evento grande (como tem sido as Paradas) busque as mesmas coisas. Todo protesto, ainda que tenha uma pauta unificada, costuma reunir todo o tipo de gente, com todo tipo de história, com todo tipo de formação e com todo tipo de ideologia. É difícil juntar 50 pessoas que queiram exatamente as mesmas coisas em um só lugar. Imagine juntar 300 mil desse jeito.
Para além da impossibilidade de se manter uma pauta coesa em um evento com tanta gente, é importante que a gente perceba que a rua é um ambiente hostil para com a diversidade de gênero e de orientações sexuais. Cotidianamente, homens e mulheres que não são heterossexuais ou cisgêneros, são reprimidos quando demonstram afeto em público. Os casos de violência homofóbica e transfóbica se acumulam, e qualquer pequisa rápida do Google mostra como este tipo de violência é corriqueira, em todo o país. Quase todo LGBT já teve um amigo agredido ou ofendido por ter demonstrado afeto publicamente.
As Paradas do Orgulho LGBT são, por si só, um espaço de resistência da diversidade sexual e de gênero em contraposição à heteronormatividade e à cisnormatividade. Ir a uma Parada LGBT já é um ato de ativismo. Comparecer aquele espaço (a rua) durante aquele determinado período de tempo (o evento) já é uma fissura na barreira da intolerância
Os LGBT que participam do evento, ainda que não carreguem bandeiras, faixas, que não saibam palavras de ordem de cor e que sejam menos politizadas em relação as lutas do movimento social quanto a gente gostaria, estão sendo, durante a Parada, ativistas. Expressar afeto sexodivergente na rua é um ato de ativismo. Cada mão dada é uma faixa. Cada beijo na boca grita como uma palavra de ordem.
Ainda que seja um reforço de estereótipo, a cultura gay (que não custa lembrar, quer dizer alegre em inglês) é extremamente efusiva. E não há nada de errado com isso. Nem todo evento de ativismo precisa ser sisudo, nem toda manifestação precisa ser séria, ainda que suas pautas sejam sérias. Se você acredita que estes eventos precisam de gente levantando cartaz, de palavras de ordem, você certamente não será censurado por isso, ao desembarcar com a sua forma de fazer ativismo em qualquer Parada pelo Brasil. Porque as Paradas LGBT viraram uma festa. E isso é bom demais! :)