Quem é você?

Na maioria das vezes em que tive a possibilidade para falar sobre o que eu pensava sobre um artista, um designer ou uma exposição, sempre fui questionada de forma bastante agressiva quem era eu para poder falar qualquer coisa, principalmente uma crítica.

Nunca entendi a necessidade da “carteirada” nesse mundo pequeno das artes e suas paralelas. Até porque, quem hoje fala abertamente (e até aqueles da imprensa que omitem suas impressões e opiniões) já estiveram no mesmo lugar que eu, ou seja, já foram ninguém.

A crítica de arte no nosso país nasceu em tempos ricos e ganhou força com as décadas. Creio que a crítica literária deu uma pequena pausa para tomar fôlego, mas hoje retoma seu espaço ganhando publicações dedicadas a falar sobre o que interessa e o que importa (duas coisas diferentes).

Infelizmente nós não temos pessoas que se disponham verdadeiramente em criticar o design (e todos os seus campos). No caso do design autoral de mobiliário e objetos a crítica é nula. Recebemos um enxurrada de propostas sem sentido, caríssimas e que serão apagadas pelo tempo por simplesmente não terem significado (e até mesmo utilidade) nenhum. Projetos caríssimos, com produção duvidosa e autoria questionável chupinhadas como se fossem uma grande Pinterest do décor.

Há os profissionais que dizem trabalhar com design conceitual , mas que no final da história da criação não passam de mais algumas peças caras que tem só uma estética atrativa. Não se discute funcionalidade, usabilidade, material… São bonitos e só. E ninguém fala sobre isso. Aqueles que tem o poder de questionar (e não apenas criticar) apenas validam em páginas e mais páginas de revistas como colocar mais uma peça miliardária em salas enormes (e irreais para grande maioria da população), cujos compradores irão descartar como um móvel barato daqui alguns meses ou poucos anos.

Hoje começam a pulular diversos empreendimentos que dizem fomentar a produção de design autoral e conceitual do nosso país. Não consigo conter um sorriso irônico quando me deparo com essas pessoas e esses negócios, porque sob o mínimo questionamento, esse discurso de incentivo se dissolve em apenas “Tenho que vender e essas pessoas precisam ganhar dinheiro”. Há quem pague por qualquer coisa, e isso demonstra a ignorância por detrás de todo um mercado.

Uma forma de ver de perto como os profissionais desse mercado estão completamente perdidos, e não sabem o que estão fazendo, é ir nas feiras de design que estão ganhando força principalmente no eixo Rio-São Paulo. Como ouvi recentemente, “parecem a feirinha de ciências da escola”. Ideias desconexas, produzidas sem nenhum controle de qualidade (em todos os seus aspectos) que enchem stands de designers e lojas/galerias de móveis e objetos sem perspectiva nenhuma de continuidade. E quando rechaçados pelo consumo colocam a culpa na crise, na ignorância do público, na falta de incentivo. Não conseguem ver que sem uma crítica embasada e a possibilidade de dizer não aos que não sabem o que estão fazendo, nada daquilo ganha valor real (apenas monetário).

É chegada a hora de falarmos sobre design de uma forma mais inteligente, retomando conceitos e aplicando-os sobre aquilo que é produzido agora, reavalidando ou refutando o que foi dito no passado e o que não é dito no presente.

Nada contra os jornalistas de décor que se alimentam das assessorias de imprensa para poder ter pautas sobre projetos vazios, mas acredito que é necessário que eles coloquem em prática aquilo que aprenderam sobre o que é verdadeiramente falar sobre um assunto.

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