O garoto que recolhia lixos

Ele tinha 10, 11 anos quando sua vida mudou. E mudou drasticamente. Um menino franzino, sensível, quase sem forças no braços e que viva numa velha chácara junto com seus pais. O menino não conhecia o mundo, a modernidade. A internet. Vivia humildemente com seus pais, seus cachorros, as galinhas e o bezerro leiteiro, único bem precioso da família. Mas era feliz.

Tão feliz quanto uma criança pobre de uma chácara poderia ser. Quando não se conhece a riqueza, é muito fácil ser feliz sendo pobre. Por isso ele se considerava feliz. Até a tragédia abater sua casa. Foi num dia 31 de dezembro que, de uma só vez, ele perdeu pai, mãe e bezerro leiteiro. De uma só vez.

Teve de deixar a chácara. Sem saber para onde ir, juntou seus trapinhos velhos e saiu sem olhar para trás. Havia aprendido com a mãe uma história de uma mulher que olhou para trás e virou uma estátua de sal. E embora estivesse muito triste, ele não queria terminar sua vida como uma estátua de sal.

Chegou à cidade com a ajuda de um monte de gente. Um idoso com uma charrete que contava piadas ruins o tempo todo. Um caminhoneiro que o ficou encarando tempo demais e pediu para parar duas vezes para usar o banheiro. Até uma mulher com sorriso triste que dirigia seu próprio carro. Mas chegou ao seu destino final, a cidade.

E ficou espantado como o mundo era diferente. Parecia estar em outro planeta. Tanta iluminação, luzes de todas as cores. Lâmpadas grandes, pequenas, imensas. Até prédio iluminado tinha. Muita gente poderia achar aquilo lindo. Não ele. Não dava para ver as estrelas e ele gostava tanto das estrelas.

Logo arrumou um lugar para dormir. O banco de uma praça. Sabia que tinha de defender sua nova moradia com unhas e dentes contra todos que queriam roubá-las. Outros meninos, idosos, bêbados e até homens empertigados. Todo mundo queria a casa do menino, mas ele não deixava.

Nos primeiros dias seu emprego era no farol. Fazia como os outros meninos ensinavam. Cara de triste, olhinhos pequenos e pedia ajuda. Até ganhava alguns trocados, mas a expressão de nojo, de distanciamento, até de raiva da maioria das pessoas o incomodava. Não podia viver daquele jeito para sempre.

Foi então que ouviu, numa lanchonete enquanto comia, que a onda agora era outra. Ganhar dinheiro com lixo. Ele deu risada enquanto mordia sua coxinha de frango. Onde já se viu lixo dar dinheiro. Lixo serve para nada, ele havia aprendido com seu pai. Mas o sujeito no bar insistia em contar empolgado a história do lixo para o dono do estabelecimento. O menino acreditou.

E decidiu investir no lixo. No começo, era discreto. Pegava uma latinha aqui, um papel ali. Uma tampinha acolá. Os meninos não entendiam o que ele estava fazendo. Fuçar lixo era desonroso. Coisa de cachorro. Ele era um menino ou um cachorro? A garotada perguntava rindo, mas ele não ligava. Gostava de recolher lixo.

Pouco a pouco foi se acostumando e se organizando. Passou a recolher cada vez mais lixo. E não é que dava dinheiro mesmo? Em pouco tempo, pôde deixar seu banco para outro menino, que dormia no chão. Agora, conseguia morar num hotelzinho velho, caindo aos pedaços. Mas tinha cama de molas. Igual na chácara.

O tempo passou e o menino foi crescendo. Mas não parava de recolher lixos. Agora, ele tinha uma estratégia muito mais prática que ir até as lixeiras. Ele ia ao centro da cidade, um lugar muito movimentado, barulhento e cheio de gente. Ficava olhando as pessoas e era batata.

Um jovem comendo um chocolate. Papel no chão. O menino pegava. Uma mulher tomando seu suco. Caixa no chão. O menino recolhia. Um senhor tomando sua cervejinha porque ninguém é de ferro. Latinha no meio fio. O menino também não deixava lá por muito tempo.

Ele percebeu que recolhendo o lixo das pessoas era muito mais rápido. Não tinha mais que fuçar lixeiras feito um cachorro. E dava resultado. Estava acumulando muito mais lixo que quando perambulava procurando lixeiras. Havia achado um filão importante. Recolher o lixo dos outros.

E foi assim durante 30 anos. Todos os dias, ele saia de casa, se olhava no espelho. Já não era mais um menino. Os olhos cansados, nem de longe lembravam o garoto franzino de 10, 11 anos que morava numa chácara e não convivia com a civilização. Era até altivo, o rei do lixo. Respeitado, admirado. Tinha até ganhado um prêmio da prefeitura porque se preocupava com o lixo. Recolhia tudo. Ele saia sorrindo. E recolhendo.

Diariamente ele recolhia o lixo de todo mundo. As pessoas já sabiam disso e, por isso mesmo, a coleta de lixo foi encerrada na cidade. Para que a prefeitura ia gastar dinheiro se tinha ele para fazer o serviço? No começo, as pessoas deixavam o lixo para fora e ele passava recolhendo. Mas as pessoas se incomodavam. Ele nunca cumpria o horário, estava sempre atrasado e não dava conta.

Então o prefeito e os vereadores se reuniram com ele. Reunião importante. No gabinete. E decidiram. A partir daquele dia as pessoas iam jogar o lixo na casa do ex-menino. Assim, ele não precisava se preocupar em recolher o lixo. Todo mundo ia deixar o lixo para ele e pronto. Ele adorou. Finalmente ia poder descansar.

E descansou. Dormia até mais tarde. Comia a hora que bem entendesse. E todos os dias via as pessoas deixando os lixos em sua casa. Tudo parecia funcionar bem para ele e para a cidade, mas nem tudo são flores, como se sabe.

Um dia ele acordou e percebeu que havia lixo em sua cama. Ficou inconformado, onde já se viu. Levantou-se e havia lixo por toda a parte. Todos os cômodos estavam entupidos de lixo. Conseguiu achar um vão na janela e viu as pessoas todas da cidade jogando cada vez mais lixo na casa, no terreno, em todo lugar.

Ele gritou bem alto que estava na casa, para pararem porque não havia mais espaço. As pessoas não davam ouvidos. Estavam iradas. O menino que recolhia lixo não fazia mais seu trabalho direito. O lixo estava incomodando todo mundo, por isso, que jogassem na casa dele. Enquanto ele gritava, as pessoas continuavam a jogar todo tipo de lixo nele. E enquanto jogavam, o culpavam por aquela situação. Quem mandou recolher lixo. Quem mandou não saber o que fazer com tanto lixo. Quem mandou não cuidar do lixo das pessoas. Irresponsável.

Aos poucos, ele foi desistindo, não conseguia tirar aquele lixo da casa. As pessoas continuavam a jogar todo o lixo até que não se via mais a casa. E ali, o prefeito determinou, seria o novo lixão da cidade. O menino que recolhia lixos nunca mais foi visto.