Quantos negros haviam no Santa Cruz de 1940?

A NECESSIDADE DE SER TÃO DEMOCRÁTICO PARA DENTRO QUANTO SE É PARA FORA.


O Santa Cruz Futebol Clube é reconhecidamente um dos únicos grandes clubes brasileiros centenários que nunca exerceu algum tipo de prática segregacionista, seja por cor, por credo ou por origem social. Foi com essa receita que o clube aglutinou ao longo de seus 103 de história uma identificação direta com as camadas mais populares da sociedade.
Cresci escutando o saudoso repórter Aroldo Rômulo gritando “O TIME DO POVO, DO POVO, DO POVO!”, após cada gol do MAIS QUERIDO, outra alcunha diretamente associada ao time de futebol mais popular do estado de Pernambuco.
Os mais antigos reconheciam o clube como A POEIRA, pois a cada parida nas Repúblicas Independentes do Arruda a poeira das ruas sem calçamento dos morros da cidade levantava com a enorme quantidade de despossuídos que tinham a cada domingo noventa minutos de glórias proporcionadas pelo TERROR DO NORDESTE.
Nas décadas de 1970 e 1980 a força da Massa Coral foi provada com a construção, e posterior ampliação, do COLOSSO DO ARRUDA, até então o quarto maior estádio particular do mundo.
Recentemente o clube viveu o pior momento da sua história, alcançando a última divisão profissional do futebol brasileiro. Muitos enxergaram aquele momento como o fim de uma história que durante um século contradizia a lógica de todo um sistema econômico. O time dos pobres estava tendo o destino que era reservado aos que não possuem capital, o LIMBO!
Porém, mais uma vez a lógica da vida normal não se aplicou ao CLUBE DAS MULTIDÕES. Voltamos a ocupar lugar de destaque no futebol local e nacional. O MUNDÃO DO ARRUDA voltou a ser palco de partidas épicas, e nosso templo vivia abarrotado de gente. Gente que nunca abriu mão do clube, mesmo quando todo o contexto dizia que não havia mais jeito. 
E se não fosse esse povo que não desiste, será que a história teria o mesmo fim? É provável que não.
O que quero questionar a partir desse levantamento histórico prévio é o motivo pelo qual no âmbito interno o Santa Cruz não consegue ser tão democrático e popular quanto ele é da porta dos seus gabinetes para fora. Internamente, o Santa Cruz não difere uma vírgula da estrutura de gestão arcaica praticada pelos demais clubes de futebol brasileiro. Fechado dentro de si mesmo, em pequenas castas, com eleições indiretas e baseadas no voto censitário, ou seja, só vota quem tem recursos financeiros para tal. Muito parecido com o sistema eleitoral da primeira república, que findou a quase noventa anos.
Talvez isso explique o fato de que o sucesso do Santa Cruz está muito mais associado à sua torcida que às suas conquistas, ou a seu patrimônio físico. 
Está na hora do clube passar a adotar práticas mais democratizantes, modelos de participação interna que tragam a torcida do clube para dentro dele, para que o sentimento de pertencimento não se restrinja unicamente ao momento de jogo, de um campeonato. Para que o clube sirva à comunidade além do futebol, como instrumento social e de formação da cidadania. E essa condição só será plena quando o clube abrir suas portas ao seu povo. O CLUBE DO POVO precisa ser verdadeiramente DO POVO.

Autor: Varlindo Nascimento, Metroviário, Geógrafo e Estudante de História.