A ciência dos burros

Luis Felipe Miguel

Da gramática se dizia antigamente que era “a ciência dos burros”. Afinal, como Erasmo de Roterdã observava no Elogio da loucura, o gramático se julga um sábio por respeitar as regras que ele mesmo inventou. As discussões sobre o papel da norma culta, que ressurgem cada vez que o Ministério da Educação anuncia a disposição de buscar mecanismos que reduzam a estigmatização das crianças de fala popular nas escolas, mostram que essa crítica continua pertinente. Quando o argumento é que o “vale-tudo no campo do idioma” equivale a um professor de medicina afirmar que “tuberculose não é doença”, como disse um poeta famoso, fica difícil seguir a discussão.

Há uma outra ciência dos burros, certamente menos difundida que o apego à norma padrão da língua, mas tão nociva quanto. Refiro-me às teorias da escolha racional, ou rational choice, em idioma alienígena. Ao postular um comportamento padrão para todos os indivíduos, construir modelos com base nesse comportamento e analisar o mundo social com base nos modelos, o rational-choicista estabelece a mesma circularidade que o gramático que julga que o posicionamento da crase, que ele mesmo definiu, é um fato da natureza.

Um colunista de jornal brasileiro tem trabalhado ativamente para divulgar os conceitos da escolha racional e fazer deles a base de um conhecimento “objetivo” do mundo. Em sua coluna de hoje, busca analisar os problemas da Previdência Social de uma maneira que, por ser rational-choicista, é científica e, por ser científica, é neutra e logo distanciada dos interesses em disputa. Seu ponto de partida é a ideia de que as pessoas tendem a valorizar de forma diferente seus ganhos atuais e seus ganhos futuros — a “miopia”, que nos leva a aplicar uma “taxa de desconto” nas vantagens que não são imediatas, e que é apresentada como um déficit de racionalidade.

Isso o leva a concluir que “se fôssemos todos 100% racionais, cada cidadão se encarregaria por conta própria de poupar para a velhice e esse nem seria um assunto a ser tratado por governos”. Parece razoável. Mas esquece que a previdência compulsória tem como efeito forçar a elevação dos salários, na medida em que retira deles uma parcela, que se torna indisponível para a reprodução da força de trabalho. Sem ela, pressionado por gastos crescentes e tendo como alternativas uma negociação incerta com o patrão ou morder uma parte do que pensava poupar para a velhice, o trabalhador “racional” teria fortes incentivos para adotar a segunda opção.

As teorias da escolha racional tendem a trabalhar com “indivíduos” simétricos, esquecendo que, no mundo social, defrontam-se trabalhadores e patrões, mulheres e homens, pobres e ricos. Com isso, tende a descartar de suas reflexões as estruturas sociais e as desigualdades a elas associadas. Tende também — mas isso é tema para outra postagem — a abraçar a noção utilitarista de que cada indivíduo busca sua própria satisfação e, assim, deixa de lado a questão crucial da formação das preferências.

Na ciência política acadêmica, o predomínio da escolha racional e, por vezes, dos modelos lógicos a ela associados (a “teoria dos jogos”, que Pierre Bourdieu chamava de “recreações matemáticas”) leva à produção de papers incrivelmente sofisticados — mas que pouco ou nada contribuem para entender o mundo social real. Romper com sua lógica é o passo inaugural da construção de uma aproximação crítica à política e às formas de dominação nela presentes.

(Wirkungsfeuer)

PS. Não custa deixar claro que a formulação do jornalista citado está muito aquém da elaboração dos rational-choicistas de ponta. E que o “burros” é apenas uma referência jocosa à circularidade dos modelos, tal como no caso da gramática: por mais que se possa discordar de alguém como, por exemplo, o noruguês Jon Elster, é impossível negar que ele está mais para gênio do que para burro.

(15 de maio de 2015)

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