A internet e a banalização da crítica “radical”

Luiz Augusto Campos

A crítica feminista e a crítica antirracista se difundiram na sociedade de modo surpreendente nos últimos anos. Isso reflete, em grande medida, uma entronização desses discursos pela cultura pop, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Ainda que celebridades de massa tenham incorporado bandeiras políticas antes de Beyoncé e Mc Carol se apresentarem como feministas, há algo novo atualmente: a abundância de blogs e comunidades de discussão, especializados na problematização de fenômenos cotidianos em uma linguagem acessível e atrativa.

Não deixa de ser promissor que as redes sociais tenham sido tomadas, em diferentes países, por acaloradas discussões sobre as formas sub-reptícias de racismo, sexismo, classismo, capacitismo, homofobia etc. Mais do que “o primo educado do lamento vulgar” (Michael Walzer,Interpretation and Social Criticism, p. 56), a crítica social deixou de ser propriedade dos intelectuais ou vanguardas de esquerda para ganhar o mundo e se tornar uma competência amplamente difundida. Mas como todo processo social, essa popularização da crítica possui consequências ambivalentes.

Recentemente, o site de listas Buzzfeed publicou um bem-humorado compêndio de 10 momentos em que fatos absurdamente mundanos são submetidos às mais inclementes críticas sociológicas nas redes sociais (a lista continha 11 momentos inicialmente, mas um foi suprimido por ser considerado ofensivo). O uso de piercings é acusado de “apropriação cultural” em um post, o verão é acusado da mais “racista e gordofóbica” estação do ano em outro, e até bolos veganos são condenados por serem “elitistas”.

Não sei dizer se os posts contidos na lista são verdadeiros e nem acredito que todos sejam tão ridículos ou absurdos quanto a publicação dá a entender. De todo modo, a maioria deles sugere que a difusão da crítica social, ou da “problematização”, pode estar levando a uma banalização das duas. A “problematização” tem se transformado em uma espécie de jogo de palavras, em que qualquer objeto mundano (um celular ou uma expressão linguística) pode ser desconstruído se conseguirmos conectá-lo a algum sistema de opressão imperante no mundo.

Não estou aqui fazendo coro com os renitentes ataques ao espantalho do momento, a dita “ditadura do politicamente correto”, muito menos defendendo que iPhones e bolos veganos são objetos sagrados, descolados das relações de opressão. Também acho perigosa e exagerada a ode infantil feita a uma liberdade irrestrita de expressão, como se ela não tivesse limites análogos a todos os demais direitos fundamentais.

Quase tudo que existe no mundo de fato pode refletir ou estar de algum modo conectado a algum sistema opressor. Mas submeter tudo o que existe à mesma retórica crítica corre o risco de banalizar a própria crítica e, assim, neutralizar o seu potencial transformador. Noutros termos, ao problematizarmos tudo a partir de uma mesma retórica aparentemente “radical”, corremos o risco de perder de vista que nem tudo que existe contribui de forma equivalente para a reprodução das opressões.

Não se está sugerindo aqui, à moda do marxismo mais ortodoxo, que a opressão de classe tem precedência sobre as outras opressões ou que as estruturas profundas da sociedade têm precedência sobre a ação e as ideias humanas. Também não se está advogando uma visão aditiva simplista das opressões, em que a dominação das mulheres negras e pobres é vista como o somatório da opressão de gênero, raça e classe. As desigualdades sociais interagem de modos complexos e é no mínimo inocente acreditar que elas mantêm entre si uma relação aritmética ou que uma delas tenha precedência sobre as demais.

O desafio atual da sociologia é deslindar as múltiplas faces da opressão nas intersecções entre diferentes desigualdades sociais. Isso não quer dizer, porém, que estejamos em condições de dispensar todo esforço teórico e político no sentido de pensar em uma escala capaz de comparar as diferentes opressões. Sem refletir como determinar quais grupos são mais oprimidos que outros, ou quais relações sociais contribuem mais ou menos para a reprodução de tais opressões, corremos o risco transformar todo indivíduo, grupo ou objeto em dispositivo potencial de opressão.

Opressão tem quase sempre a ver com uma limitação, estruturalmente condicionada, das oportunidades existenciais de um grupo (Iris Young, Five Faces of Oppression). O problema fundamental em compreender as opressões vigentes é que as oportunidades existenciais de todos estão sempre limitadas em alguma medida. Porém, alguns de nós têm mais ou menos possibilidades existenciais (autonomia) que outros por conta da classe de origem, raça, nível educacional, sexualidade, gênero, capacidades físicas etc., ou por alguma articulação particular dessas dimensões. Ideias, discursos e objetos também têm pesos distintos na reprodução dessas opressões. Sendo assim, a crítica social não pode se contentar em denunciar o modo como quase tudo reproduz uma dada opressão sob o risco de dissolver o potencial crítico do próprio conceito de opressão.

Quando as feministas empunharam a bandeira de que o pessoal também é político, elas foram acusadas de levar para o debate público temas banais e indignos da política. Por isso, a própria banalidade de determinados fatos deve sempre ser questionada. Porém, disso não se deduz que por trás de toda e qualquer banalidade há o escamoteamento de algo que tem de ser desvelado. A crítica sociológica não se torna “radical” ao submeter tudo ao seu escrutínio, mas sim quando busca as raízes dos fenômenos sociais. Se as redes sociais ajudaram a difundir a crítica, resta aprofundá-la.

(16 de fevereiro de 2016)

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