Bauman, 90, autoplagiário

Luis Felipe Miguel

Foi noticiado que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman está sendo acusado de autoplágio. “Milhares” de palavras de um livro reapareceriam em outros livros. Aposentado há muito tempo, hoje com 90 anos, Bauman apresenta uma incrível produtividade, tendo publicado, segundo leio, 47 livros nos últimos 25 anos. A denúncia insinua que isso só é possível porque há uma grande parcela de reciclagem do material anterior.

Não sou um grande fã de Bauman. Simpatizo com sua visão progressista, mas não acho que sua teoria do “líquido” seja particularmente iluminadora. Na verdade, deixei de acompanhar o que ele escreve faz tempo. Ainda gosto de Globalização: as consequências humanas, uma apresentação clara, didática, da percepção crítica sobre a mundialização. Embora esteja defasado (foi escrito há quase 20 anos e muito mudou no mundo de lá para cá), continuo incluindo-o eventualmente em meus programas, pois funciona muito bem em sala de aula. Com essa exceção, Bauman não é uma referência que me seja relevante.

Mas a acusação dirigida a ele parece tremendamente injusta. O que se está querendo dizer? Que o sociólogo nonagenário está falsificando o currículo, apresentando uma produção maior que a verdadeira… para quê? Para ganhar fama e notoriedade? Para passar no próximo concurso para professor substituto? Para ficar rico?

Há, por trás disso, uma visão rasa e equivocada da produção intelectual. O “autoplágio” é identificado por meio de softwares que indicam similaridades entre textos. Conclui-se que o livro A de Bauman possui um trecho de X palavras que é notavelmente semelhante a trecho presente no livro B de Bauman. Mas não se discute o que é tal trecho. Pode ser a explicação de um conceito que é instrumental para chegar a uma discussão substantiva que virá depois. Usando ferramentas conceituais similares em seus diferentes escritos, o autor pode se ver compelido a explicar os mesmos conceitos múltiplas vezes. Pode parafrasear a si mesmo ou pode repetir o que já fez antes. Caso repita, pode colocar sua obra anterior entre aspas (o que, devemos convir, é bastante esquisito) ou se “autoplagiar”. Qual é a gravidade desse pecado?

O “autoplágio”, portanto, pode ser apenas um atalho para avançar na direção de novos argumentos ou mesmo de novas formulações para argumentos que o autor julga importantes. Acho que é muito pior o caso daqueles — que são muitos — que não repetem uma única vírgula, mas estão sempre girando em torno das mesmas ideias. Talvez Bauman esteja se sentido premido por um sentimento de urgência, natural em alguém de sua idade, querendo expor tudo aquilo que está pensando. Neste caso, o tempo perdido parafraseando a si próprio é um desperdício. Aliás, não é preciso ter 90 anos para se sentir assim.

Nada disso é relevante para os controladores de taxímetro acadêmico, que só veem as palavras passando em seu medidor e estão prontos para gritar “fraude”. O caso do velho sociólogo polonês é revelador dos dilemas da avaliação científica atual, em que o volume daquilo que se avalia se tornou tão grande que os critérios quantitativos (que são, sem dúvida, necessários) parecem os únicos possíveis e os qualitativos simplesmente são abandonados.

(23 de agosto de 2015)