Com raça não se brinca! E com gênero?

Caitlyn Jenner e Rachel Dolezal

Luiz Augusto Campos

À primeira vista, a polêmica envolvendo a identidade racial de Rachel Dolezal estava condenada a ficar restrita à crítica implacável das redes sociais. Porém, alguns dados biográficos da militante do movimento negro, “acusada” de ser branca, adicionaram algumas camadas de complexidade à controvérsia. Não é nada irrelevante, por exemplo, o fato de Dolezal ter crescido em uma família de pais brancos, mas em meio a vários irmãos adotivos negros. Na sua versão da história, seus pais tinham comportamentos abusivos em relação aos filhos, razão pela qual ela teria reivindicado a guarda de uma de suas irmãs. Fatos como esse fizeram com que a conduta de Dolezal deixasse de ser vista como uma mera impostura oportunista e passasse a ser interpretada como fruto de possíveis projeções psíquicas infantis, ou mesmo como uma nova modalidade de “consciência racial”.

Rachel Dolezal na adolescência e hoje.

O tema se tornou ainda mais enigmático com a proliferação das comparações entre Dolezal e Catlyn (outrora Bruce) Jenner. Herói olímpico e padrasto das multimilionárias irmãs Kardashian, Bruce surpreendeu a cena pop estadunidense ao admitir que estava em processo de transgenerização, o que incluía a ingestão de hormônios femininos e algumas intervenções plásticas. É verdade que a atenção midiática dada ao caso se deve menos ao fato de Jenner se colocar agora como transgênero e mais ao fato de ele ser uma figura de enorme exposição pública. De todo modo, a quase coincidência entre os dois casos suscitou algumas questões aparentemente enigmáticas: por que uma mudança de gênero é vista como mais legítima do que uma mudança de raça? Se hoje podemos falar dos transgêneros como pessoas que expressam uma identidade de forma libertária, por que não poderíamos falar em indivíduos transraciais?

Caitlyn Jenner depois e antes do processo de transgenerização

Essa comparação suscita paradoxos de difícil resolução e não tentaremos solucioná-los aqui. Eles têm a ver não apenas com as complexidades próprias das discussões contemporâneas em torno das identidades raciais, sexuais e de gênero, mas também com questões mais comezinhas, como as reais intenções de Dolezal, as reais intenções de seus pais e as opiniões de seus irmãos negros. Tudo indica que a polêmica está longe de arrefecer e seria no mínimo arriscado ensaiar uma interpretação totalizante para o caso.

Isso não nos impede, porém, de analisar o caso de Dolezal e, sobretudo, a comparação feita entre ela e Catlyn Jenner para melhor entendermos algumas distinções importantes entre as tendências dominantes no movimento antirracista, de um lado, e nos movimentos antissexistas, do outro.

Não é de hoje que se explora as pontes e intersecções entre clivagens de gênero e as clivagens raciais. Ambas têm a ver com hierarquias e diferenciações construídas socialmente, mas que, contudo, foram tradicionalmente atreladas a ideologias naturalistas e deterministas. Nesse sentido, a ênfase no caráter construído das distinções de gênero e raça serviu historicamente para romper com as explicações biologizantes do comportamento humano e, de outro, para capacitar a mobilização política das identidades raciais e de gênero. Essa ênfase também teve a função de apontar para o papel ativo dos sujeitos na construção de suas identidades sociais raciais e de gênero.

Por que, então, nos parece tão absurda a ideia de uma identidade transracial? Acredito que esse incômodo reflita as diferentes estratégias que marcam a militância antirracista e antissexista no mundo atual. A despeito de sua imensa pluralidade interna, o movimento negro empunha um discurso focado na crítica às desigualdades econômicas, sociais e políticas que foram tradicionalmente atreladas às diferenças ditas raciais. Ainda que o discurso multiculturalista tenha capturado grande parte do movimento, esse se orienta pelo ideal, muitas vezes implícito, de um mundo onde as distinções raciais se tornem irrelevantes para a distribuição de recursos e poder, e no qual os diferentes tons de pele tenham tanta importância social quanto os tamanhos diversos de queixos.

Essa ilação sobre o movimento antirracista pode parecer generalizante se temos em vista a diversidade que o caracteriza. No entanto, mesmo se levarmos em conta as tendências mais sectárias dessa militância, perceberemos que quase nenhuma delas propõe como utopia final um mundo em que as diferenças raciais persistam. O médico e revolucionário negro Frantz Fanon, por exemplo, foi um grande defensor do uso violência contra o branco colonizador como forma de afirmação da negritude historicamente humilhada. Porém, ele nunca abdicou de um humanismo totalizante como meta suprema, isto é, de uma utopia em que as distinções raciais fossem de algum modo superadas.

Falar em transracialismo soa estranho justamente porque os diferentes movimentos antirracistas ainda compartilham a meta implícita de uma sociedade que supere as hierarquias raciais de modo radical. Desse prisma, a afirmação da negritude é encarada como uma necessidade estratégica para fazer face a um mundo que insula as pessoas vistas como negras nas posições mais subalternas da sociedade. Assumir-se como negro é, assim, uma estratégia que busca reduzir o ônus da discriminação e fazer face a ela. Justamente porque a negritude é uma condição, e não uma fantasia carnavalesca, Dolezal não poderia ser candidata à negritude.

O mesmo não acontece, todavia, com o movimento antissexista, sobretudo em suas duas frentes dominantes: o feminismo e a militância LGBTT. Desde os anos 1990, parte desse movimento foi seduzido pelo receituário do assim chamado “feminismo queer”. Segundo essa vertente, a militância antissexista deveria focar sua luta na subversão dos estereótipos de gênero que marcam a sociedade heterossexista. Contra a opressão que vem da imposição da dicotomia masculino-feminino, devemos “brincar” com os estereótipos de gênero e privilegiar a adoção de identidades híbridas. Isso é o que recomenda explicitamente Judith Butler, uma das autoras principais dessa corrente. Daí a inspiração na figura do “queer”, termo anglófono que remete tanto ao homossexual tradicional, mas também ao indefinido, ao estranho e ao idiossincrático.

De fato, esse feminismo queer foi de grande utilidade na relativização de divisões heterossexistas e dos sofrimentos que elas engendram. Por outro lado, a hegemonia da agenda queer na pauta antissexista resume essa luta à proliferação de papeis de gênero, relegando a um segundo plano as bandeiras que propugnam a superação das desigualdades e hierarquias baseadas no gênero e na sexualidade.

Se a retórica antirracista não abandonou a utopia de um mundo sem desigualdades raciais, o mesmo não pode ser dito sobre os movimentos antissexistas. Esses deslocaram para um segundo plano as utopias de superação do sexismo em prol de estratégias de subversão que tornam os estereótipos de gêneros objetos para brincadeiras identitárias. Dessa perspectiva, a transgeneridade é vista como uma estratégia política libertária de contestação do heterossexismo. No entanto, Sheyla Jeffreys tem alguma razão quando diz que os transgêneros nem sempre superam as hierarquias de gênero, ao contrário: eles podem contribuir para o seu reforço ao simplesmente reproduzirem padrões de gênero tradicionais, mas apenas com os sinais trocados. Embora a crítica de Jeffreys muitas vezes beire a transfobia, ela acerta ao propor que o antissexismo resgate uma bandeira hoje vista como demodê: a utopia de um mundo que supere as hierarquias baseadas no gênero.

O suposto transracialismo de Dolezal nos incomoda porque a utopia de um mundo sem raças permanece latente nas estratégias antirracistas, orientadas para a superação das desigualdades e hierarquias raciais. Dessa perspectiva, não há lugar para uma postura transracial. Isso deve servir de alerta para pensar os destinos recentes das teorias e movimentos antissexistas. Embora o foco nos jogos de gênero sejam de grande importância para lidarmos com o sofrimento relacionados aos papéis reificados de gênero, isso não deve ofuscar a atualidade de uma utopia em que as hierarquias de gênero sejam totalmente superadas.

(19 de junho de 2015)