Uma charge de Charlie

Luis Felipe Miguel

Causou horror a charge do Charlie Hebdo sobre Alan Kurdi, o menino sírio que morreu afogado em setembro passado — se ele tivesse sobrevivido, teria se tornado “tripoteur de fesses en Allemagne”, o que se pode traduzir como “apalpador de bundas na Alemanha”. A charge se mostrou a demonstração definitiva do mau gosto, da insensibilidade e do racismo do semanário satírico francês. Mais ainda, um ano e uma semana depois do ataque terrorista que vitimou 17 pessoas, entre colaboradores do jornal e agentes de segurança que o protegiam, a charge apareceu como prova do equívoco do slogan je suis Charlie. De mau gosto, insensível e racista, o hebdomanário não mereceria a solidariedade de ninguém.

Como a maior parte das pessoas, não gosto da charge, que julgo desnecessária e agressiva. Mas creio que o veredito de “racismo” repousa numa leitura apressada e equivocada, que toma a charge ao pé da letra, sem levar em conta seu caráter satírico e sarcástico. Um dos recursos do humor é exatamente a mimetização exacerbada do discurso alheio, com objetivo crítico. Para que tal decodificação seja possível, é necessário um mínimo de familiaridade com o contexto em que o humor se move ou mesmo com a posição da qual ele fala. Pegando um exemplo quase ao acaso: no dia 19 de janeiro, o jornal Folha de S. Paulo publicou um cartum de Laerte. Um interrogador (fora do desenho, portanto não visível) perguntava: “Você atacou achando que era um morador de rua ou que era um índio?” E um homem algemado, sentado num banquinho, responde: “Na verdade achei que era o filho do Lula”. Uma leitura superficial poderia ver aí banalização da violência, justificativa da agressão política ou algo no gênero. Mas nós não temos dificuldade de identificar a posição crítica que o cartum busca transmitir, em relação à agressão à população de rua e aos povos indígenas, bem como à caçada de setores da direita contra o ex-presidente Lula e seus próximos.

Talvez por isso, a charge do Charlie causou polêmica no exterior, mas muito menos na França, onde a decodificação da intenção do jornal era mais fácil. Ninguém o colocaria ao lado de Marine Le Pen ou do Front National, que são seus adversários históricos — e adversários, em primeiro lugar, da laicidade que ele defende ferozmente.

Não se tratava, afinal, de dizer que o menino sírio teria virado um molestador de mulheres (por culpa de sua origem étnica, de sua religião, de ser um refugiado), o que seria efetivamente racista. Tratava-se de assinalar que o Kurdi criança, cuja morte causou tanta comoção, chegaria à idade adulta para se tornar um dos imigrantes que a Europa tenta a todo custo rechaçar. Justamente por isso, esta Europa aceita com tanta facilidade relatos tingidos por racismo indisfarçável sobre os ataques a mulheres na noite do Ano Novo, em Colônia e em outras cidades. O alvo da charge é a má consciência europeia, pronta a chorar sobre o cadáver de uma criança, mas que ao mesmo tempo perpetua a situação que levou à sua morte brutal. O alvo é todo aquele que manifestou seu pesar nas redes sociais, diante da foto do menino afogado, para poucas semanas ou meses depois destilar seus preconceitos contra os refugiados do Norte da África e do mundo árabe.

O que me leva ao segundo ponto, a acusação de que Charlie seria insensível. Apareceram notícias, não sei se verdadeiras, de que parentes do menino Alan Kurdi teriam chorado ao ver a charge. É até possível. Mas creio que há também um sentido político nessa insensibilidade, que é se contrapor ao sentimentalismo que domina boa parte das reações às tragédias contemporâneas. Nas redes sociais, o sentimentalismo, a pieguice mesmo, é um dos registros dominantes, ao lado do narcisismo e das ofensas aos adversários. Quantas vezes a foto chocante do menino morto foi reproduzida, foi adornada com asas, foi acompanhada de frases edificantes? E o que isso significou, além de um certo consumo mórbido do infortúnio alheio?

Aliás, a dessacralização de determinados sentimentos é outro recurso próprio do humor. Para pegar outro exemplo quase aleatório, uma tirada que tem circulado na internet diz: “Deixe de reclamar da crise e faça como o aedes aegypti, que começou pequeno e hoje está bem estabelecido, com três produtos no mercado”. Para além do deboche em relação ao discurso do “empreendedorismo”, não há aí um desrespeito às vítimas das doenças transmitidas pelo mosquito, a quem perdeu familiares por causa da dengue hemorrágica, ao drama das gestantes contaminadas pelo zika?

Claro que a estratégia do Charlie, que é escandalizar o público, faz pesar a mão na insensibilidade e no mau gosto. É um tipo de humor que muitos não apreciam (e eu mesmo me incluo neste grupo). Mas é próprio do princípio da liberdade de expressão que esse não consiste motivo para cercear a fala de alguém. A liberdade de expressão é incompatível com a existência de algum juiz do gosto.

Infelizmente, “liberdade de expressão” se tornou um lema capturado pelas empresas de comunicação, interessadas em manter seu monopólio do debate público, e por aqueles que efetivamente destilam discursos de ódio. Na controvésia entre “liberdade de expressão” e “controle da mídia”, a direita fica com a primeira e a esquerda, com a segunda. É muito ruim que esse enquadramento da questão tenha se firmado. É um enquadramento errado: uma ideia de controle democrático da mídia visa exatamente estabelecer a liberdade efetiva de expressão, permitindo que todas as posições estejam acessíveis ao público. E a bandeira da liberdade de expressão é importante demais para ficar na mão dos conservadores. Historicamente, ela foi empunhada pelos oprimidos, por quem desejava se contrapor aos discursos hegemônicos, por quem queria dizer que o rei estava nu.

A posição liberal — de que a liberdade ampla de expressão é o padrão e as exceções devem ser cuidadosamente analisadas — é correta, sem sombra de dúvida. Ela é insuficiente, por não levar em conta a necessidade de democratizar o acesso aos meios de difusão de discursos, mas é correta. O discurso de ódio, aquele que promove ou justifica a agressão a determinados grupos, precisa ser banido, mas sempre com cuidado para não afetar o princípio geral. Quando o comediante Rafinha Bastos faz apologia do estupro ou quando supremacistas brancos se manifestam é razoável pensar que não há outra interpretação possível e, portanto, há um discurso de ódio em marcha. Mas no caso da charge do Charlie certamente não é assim, muito pelo contrário. A interpretação mais razoável é aquela que a vê como uma crítica à hipocrisia europeia.

O mal estar que a charge causa não é motivo para bani-la. De fato, o princípio da liberdade de expressão se estabeleceu exatamente por meio da impugnação do argumento da “angústia moral”: nenhum discurso pode ser vetado pelo simples fato de causar angústia em outras pessoas. Sem essa cláusula, virtualmente qualquer discurso que ofendesse alguém em posição de poder estaria ameaçado e, em particular, a blasfêmia seria criminalizada. Charlie Hebdo, cabe lembrar, possui uma posição clara em defesa do “direito à blasfêmia”, que na França incomoda tanto muçulmanos quanto cristãos e que eles indicam — acertadamente — como um elemento indispensável de qualquer ordem política democrática e laica.

Mas por trás do incômodo com a charge sobre Alan Kurdi está mais do que o mau gosto com que o tema foi tratado. Está também a dificuldade dos setores progressistas para tratar dos acontecimentos em Colônia, na noite do Ano Novo. Eles parecem ilustrar o conflito entre feminismo e multiculturalismo, entre o direito das mulheres à sua plena integridade e ao controle sobre o próprio corpo, que é inegociável, e o dever de acolher os imigrantes e de dar a eles condições de igualdade. É o mesmo pretenso conflito que faz com que os direitos das mulheres sirvam de desculpa para empreitadas imperialistas — quem acompanhasse o discurso oficial dos Estados Unidos na época da guerra do Afeganistão, por exemplo, acharia que o objetivo principal da intervenção militar era livrar as afegãs da burca.

Denunciar o evidente racismo com que os assaltos sexuais de Colônia foram enquadrados pareceria colocar em cheque a credibilidade das vítimas ou minimizar a gravidade do que ocorreu. Aceitar a narrativa oficial sem questionamento seria alimentar a xenofobia. Por isso, o silêncio foi a resposta mais frequente dos grupos à esquerda.

Há, por trás disso, um fenômeno real: existe um sexismo mais escancarado em algumas tradições não-ocidentais e, portanto, há o risco permanente de que a defesa da pauta feminista possa adotar um tom de estigmatização de tais grupos. Mas o problema se torna mais complicado pela leitura na chave “multiculturalista”, que tende a hipostasiar as culturas, congelar as tradições e minimizar os conflitos dentro dos grupos culturais subordinados.

Numa reflexão provocativa, Slavoj Žižek lê o multiculturalismo como uma forma disfarçada de racismo, que se manifesta na forma de uma tolerância a um Outro que, exatamente por precisar desta tolerância, fica colocado em posição de absoluta inferioridade. (Recupero aqui algo que já escrevi antes.) Assim, como escreve em En defensa de la intolerancia, ao contrário do racismo tradicional, o multiculturalismo não possui um conteúdo positivo próprio, mas se apresenta como um “privilegiado ponto oco da universalidade, a partir do qual se pode apreciar (ou desprezar) as outras culturas”.

Parte do que Žižek aponta aparece nas reflexões de Anne Phillips, em especial em seuMulticulturalism without culture. É claro que Phillips tem outro estilo, uma preocupação marcada em entender os múltiplos lados da questão e, enfim, amarela diante das conclusões mais contundentes. Mas seu livro mostra com clareza como o comportamento do Outro (e em especial dos imigrantes asiáticos e africanos na Inglaterra, o caso que ela analisa com mais cuidado) é explicado por sua adesão à cultura ou, ainda, à religião, ao passo que nós, ocidentais, já estamos emancipados disso e somos responsáveis por nossos próprios atos.

O integrante da cultura subalterna aparece como menos racional, incapaz de reciprocidade, capaz apenas de servir de objeto para nosso paternalismo. É a plataforma de uma esquerda que não tem mais ânimo para enfrentar o imperialismo e o capitalismo, para buscar uma igualdade efetiva. Sua energia crítica, como diz Žižek, encontrou “uma válvula de escape substitutiva na luta pelas diferenças culturais, uma luta que deixa intacta a homogeneidade de base do sistema capitalista mundial”. Então, limita-se a defender uma acomodação à margem do sistema, com a garantia de que serão aceitas as “peculariedades” de comportamento daqueles que não esposam a cultura dominante.

Mas essas “peculiaridades” não são irrelevantes. Elas implicam, na maior parte das vezes, a opressão e a violência contra subgrupos específicos, em particular jovens e mulheres. Afinal, como afirmou em texto hoje clássico a grande feminista liberal Susan Okin, o multiculturalismo é ruim para as mulheres. E — acrescentou Paula Casal — é ruim também para os animais, vítimas de sacrifícios ou abates rituais, tipo kosher ou hallal. Sem falar que o multiculturalismo costuma ser péssimo, já sabemos, para os cartunistas.

(Fonte: http://runenstein.deviantart.com/art/Je-suis-Charlie-506157319.)

A questão que se coloca, portanto, diz respeito ao primado dos direitos individuais. Sim, esse primado se estabelece como fruto de uma determinada evolução histórica, num espaço geográfico circunscrito; não é possível vê-lo como abstratamente universal. Ao recusar aderir a ele, o multiculturalismo se junta a tantas outras correntes da filosofia política contemporânea, de Rawls em diante, que tentam estabelecer critérios de justiça que sejam neutros em relação aos valores em disputa. (Embora, convém ressaltar, poucos multiculturalistas estejam dispostos a abrir mãos dos direitos liberais de que eles próprios gozam.)

A tradição da esquerda sempre recusou essa neutralidade. Pelo contrário, seu projeto histórico sempre apontou na direção da extensão efetiva dos direitos a todos, da expansão da autonomia real de cada pessoa, do acesso igual ao usufruto destes direitos, independente de sexo, de raça, de cor. Nessa luta, o multiculturalismo é, no máximo, um parceiro muito ambíguo. Sem seu enquadramento, talvez seja mais fácil combinar a recusa integral a qualquer forma de agressão sexual com a defesa igualmente integral dos direitos das populações imigrantes.

Charlie toca, a seu modo, no problema. Sua charge incomoda por muitos motivos. Alguns são bons motivos, outros não. Nenhum deles justifica, porém, a ruptura com a solidariedade ao jornal, em sua defesa da liberdade de expressão e da laicidade. Je suis Charlie não significou, ou não deveria ter significado, uma adesão a seu humor e a seus valores, mas uma adesão a seu direito de se manifestar. Mesmo de uma maneira que não me agrade. Afinal, “a liberdade é sempre a liberdade de quem pensa de modo diferente”. Nem é preciso ser um liberal para aceitar tal frase — sua autora é Rosa Luxemburgo.

(27 de janeiro de 2016)

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