Os paradigmas da nossa sociedade e os movimentos que tentamos fazer para superá-los

Em uma época tão rodeada de crises — seja na forma como nos alimentamos e as doenças que isso causa, seja nos valores rígidos e conservadores que carregamos sem reavaliá-los e modificá-los e que geram guerras, mortes, xenofobia, exclusão de grupos, etc — há muita gente se dedicando a superá-las atuando em conjunto, com pessoas que tem interesses e valores parecidos.

Pessoas da assistência médica estudando novas formas de enxergar uma saúde integral e como novos métodos, informações e recursos podem chegar até à massa. Educadores, pais, estudantes, tod@s engajad@s em repensar novos modelos escolares ou mesmo a educação fora de prédios, mas que permitem um pleno desenvolvimento do ser.

Você sente que tem muita parada boa e que precisa existir, rolando né? É, eu também.

Trago um porém, uma observação, algo que venho percebendo em torno desses movimentos que vejo de perto. Daí, para aqueles movimentos que eu só vejo de longe, talvez essa observação não sirva, mas vamos lá.

É muito difícil ainda, para a maioria de nós que critica o “sistema”, fazer manobras dentro dele, recriar uma vida sustentável nessas estruturas rígidas. Os empregos disponíveis consomem quase todo tempo e energia. Instituições outras das quais fazemos parte, como escolas e universidade, criam o mesmo cenário de “escravidão”. Cuidar do corpo sem passar pela academia (também baseada em padrões, de beleza e alimentação, que não consideram a subjetividade de cada um) e pela oferta de alimentos dos supermercados (alimentos produzidos e transportados numa lógica que não considera a riqueza do eles são pra nós: vida) torna-se um grande desafio. E se você empreende e deseja tornar seu negócio mais sustentável, perde horas e mais horas e recursos com burocracia de governo, além de tentar equilibrar o trabalho com sua rotina de gente (se divertir, namorar, relaxar).

Como a gente faz, então, uma mudança significativa? Como nos dispormos realmente para tudo aquilo em que vemos significado e necessidade?

Bem, eu acredito no poder do coletivo. Nos apoios que podemos nos dar em todas essas tarefas que desejamos: comer melhor, cuidar do corpo, criar trabalhos com significado, criar outros movimentos para defender valores humanos de inclusão e harmonia social. Mas, nessa “correria” do dia-a-dia, sem tempo pra olhar uma mensagem, pra passar na casa de fulano-dar abraço-trocar ideia, sem tempo pra si, a gente fracassa.

A gente fracassa porque ainda não nos vemos realmente como coletivo. Se a gente marca uma conversa pra falar dessas coisas, nosso trabalho “chama”, outros compromissos “chamam” e aí a gente ainda não tempo pra falar sobre e não consegue ver como podemos dar conta dessas atividades e necessidades todas entre nós. Desse jeito a gente recai no “sistema” — individualista e que faz a gente não olhar pro lado e perceber que o apoio é a coisa mais natural do ser humano. A gente, novamente, acha que tem que resolver esses problemas sozinh@s, afinal, o problema é só nosso. Não!

Vivemos um momento em que é preciso enxergar os grandes problemas sistemicamente. As soluções, portanto, são sistêmicas. Tem coisa que só acontece entre as pessoas, quando a gente se dispõe a fazer junto. O mundo do “eu sozinho” fracassou. Mas isso pede que reflitamos sobre nossos valores, construídos nesse “sistema”, baseados na lógica de que o outro não está nem aí pro que eu tô passando, na lógica de que eu tenho que resolver tudo por mim mesmo porque a treta é minha, na lógica do “farinha pouca meu pirão primeiro”. Cês sacam que a gente se boicota quando aceitamos que a vida é assim mesmo e cada um pro seu canto?!

Eu fiz parte de um projeto ano passado que só foi possível através de uma equipe- base de 11 pessoas e, no todo, composta por umas 50 pessoas. A gente entregou um evento foda, com baixo custo, algo inédito na cidade. E, depois, o tempo passou, a gente se dividiu de novo e cada um com seus problemas agora, cada um com sua vida. Gente, para tudo! Cês viram o que a gente fez??? E se a gente usasse essa união e inteligência para fazer outras coisas?!

Agora percebam como a gente é incrível junto?! Mas, se a gente não confiar, não juntar, não se dispor a rever valores, aí não mudamos. O mundo ainda é fragmentado, por valores que foram incutidos e que reproduzimos. Crescemos com a ideia de cada um por si. Não rola mais! É duro, é difícil viver nessa “margem” pensando estruturas alternativas, mas é necessário pra construir o mundo que a gente deseja: sem autoritarismos, sem exclusão, e mais significado.

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