Leitura Noturna II

Micro-conto de horror…

Acordei desorientado, com uma dor na cicatriz do coração recém adquirido. Não estava mais no quarto do hospital. Na ambulância, me encontrava. Uma pequena tocou minha testa e disse que ia ficar tudo bem, era a filha do vizinho. Ela tinha o peito aberto em vísceras expostas. Antes que eu pudesse gritar, a mão direita de um menino cego, subitamente, tapou minha boca. Na mão esquerda, ele tinha um de seus próprios rins. Naquele estado em transe, a voz dele ecoou em meus ouvidos:

“Está aqui seu rim. Quero teus olhos.”

Acordei de novo. Suando. Gritando. “Foi um sonho?” — mas tinha dor em, agora, duas cicatrizes. E Édipo estava ali ao meu lado, cinza, com a carne aberta e um bisturi na mão direita, indagando:

“Pronto para doar?”