Ilustração de Irene Koh

A geração do “mimimi” segundo os reis do “blábláblá”

Uma resposta da geração Y àqueles que nos acham os responsáveis por todos os males da atualidade

Dizem por aí que somos geração inquieta, que não se conforma com a própria carreira e que na ânsia de alcançar sempre mais, acaba escrava dela. Que nos vendemos por status ao mesmo tempo em que achamos que o segredo da felicidade é largar tudo, mas dificilmente temos coragem para fazê-­lo. Que somos mimados, indisciplinados, conectados de mais com aparelhos e de menos com pessoas.

É fato que nascemos junto com os computadores e celulares e que não nos conformamos com os modelos atuais de gestão empresarial oriundos da revolução industrial, que ainda valorizam mais nossa capacidade de produção do que nossa qualidade de vida. Entendemos o incomodo que parte principalmente desses pontos, mas não a lógica de se basearem nisso para taxarem o comportamento da nossa geração como inadequado e julgar-­nos em textos que tentam descrever quem somos, como nos sentimos e o que esperamos da vida.

Ilustração retirada do livro A Whole New Mind de Daniel Pink.

Somos a geração insubordinada? Sim. Mas porque nos recusamos a continuar seguindo regras que não foram questionadas e que não sabemos se ainda continuam válidas após décadas de avanços socioculturais, tecnológicos e científicos. Acostumados a ouvir sempre sim? Talvez. Mas nem por isso nos conformamos frente a um não e por isso mesmo buscamos provar que somos capazes de mudá-­lo para uma resposta favorável. E é assim que surgem as grandes invenções e incontestáveis revoluções, pasmem.

Cada um de nós, da temida geração Y, já entendeu que tem a mudança na palma de sua mão. Fomos nós que inventamos novas formas de nos comunicarmos à distância, como se estivéssemos perto de todo mundo o tempo inteiro, o que talvez seja um sinal de que, apesar da modernidade líquida de Bauman, tentamos manter e valorizar nossos laços afetivos. Nós que acordamos diariamente dispostos a enfrentar tabus sociais que as gerações anteriores criaram e fomentaram. Somos uma legião de mulheres que estão se empoderando contra o machismo, de negros contra o racismo, de jovens que aos poucos abraçam as causas da diversidade sexual e da pluralidade social e carregam em si a esperança de dias melhores, nos quais a possibilidade de conciliar vida profissional e pessoal é totalmente real.

Em nossos vinte e poucos anos não enfrentamos diretamente guerras sangrentas como nossos pais e avós, mas combatemos em nossa rotina uma guerra fria, que luta em prol da desconstrução de padrões e da tentativa de provar que nem tudo o que é inovador é ruim. Não só temos que lidar com o fato da grama do vizinho ser sempre mais verde, mas desenvolver inteligência emocional o suficiente para não nos impressionarmos com a autopromoção dos jardins cheios de filtro e frases de efeito de uma vizinhança que mora a um clique de distância. E mais do que isso, temos que ter em mente que, muitas vezes, somos nós os percursores da auto-exposição e os autores de mensagens que nos transformam em formadores de opiniões de abrangência mundial em poucos minutos.

Nossas conquistas deixaram de ser um carro ou uma casa no campo. Ao invés disso, queremos plantar e cultivar nossos amigos, enquanto exploramos o mundo e reafirmamos que o sentido da vida deixou de ser “ter” e passou a ser “viver” genuinamente. Trocamos coisas por experiências, preferimos acumular histórias a dinheiro.

Já dizia Nietzsche que “aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música”. E é isso o que acontece com nossa geração. Quem ouve o barulho que fazemos não entende que só queremos dançar descompassadamente ao som dele. Que desejamos poder fazer nossas próprias escolhas, sem que elas sejam consideradas um erro ou um objeto de estudo o tempo inteiro. E acima de tudo, que queremos ser vistos como uma geração que, assim como todas as outras, é responsável por muitos equívocos, mas também por incomensuráveis conquistas.

Então, mais do que palavras de conforto para aqueles que, assim como eu, não aguentam mais terem seus erros apontados e suas glórias jogadas para debaixo do tapete, esse texto é um pedido para que os incomodados que se mudem. E que comecem se mudando por dentro, que é a melhor maneira de nos ajudar a começarmos juntos a construção de um novo mundo, que entende que é a diferença entre gerações a responsável por nos mover em direção à evolução.

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