Os vivos, os mortos e as lembranças que ficam

Dia de Finados. Não cultivo rituais nessa data. Acho até um pouco estranho escolher um dia para ir ao cemitério, homenagear quem já não está lá. Minha forma de homenagear as pessoas que partem é cultivar boas lembranças e isso eu faço diariamente.
Comecei a observar recentemente o quanto minhas perdas marcaram minha personalidade e a forma como me relaciono — comigo e com os outros. Quem já passou pela experiência de perder uma filha e uma mãe, num intervalo consideravelmente curto, aprende a conviver com ausências, buracos, a sensação de incompletude. De alguma forma, entretanto, esse é um sentimento que permeia a existência humana, afinal, quem é 100% completo e quem nunca viveu uma perda? Viver é um rasgar-se e remendar-se, já dizia Guimarães Rosa. Mas a gente tenta não olhar para os buracos, como se fosse um problema, como se só a gente tivesse perdas. E a gente é educado para esconder possíveis falhas, tudo o que demonstre fraqueza, vulnerabilidade. E assim, foge dos buracos em vez de tentar entendê-los.
As minhas perdas me ensinaram sobre a finitude da vida. Carpe Diem. E a cultivar histórias. Sim, porque o que fica são as lembranças. Cada vez que eu me deparo de forma mais próxima com o risco, a iminência ou a dor da perda, eu vejo que na verdade o que vale são as lembranças construídas. Não perdemos, ganhamos.
É justamente por isso que conviver com idosos traz mais do que o olhar para as limitações, para o ciclo da vida, para a finitude. Traz histórias, lembranças, vivências tão próximas e ao mesmo tempo tão distantes. Recentemente Noemi Jaffe escreveu um texto muito sensível sobre isso no Blog da Companhia.
Eu não cultivo mortos, cultivo as lembranças, o que os mantém vivos, o que foi herdado. Existe herança mais significativa do que boas lembranças?
Uma amiga ao completar 45 anos disse que estava já no segundo tempo. Agora seria partir para o tudo ou nada. Considerando que pouquíssimas pessoas vivem mais do que 90 anos, o raciocínio dela faz sentido. Embora não exista garantia nem placar informando quanto tempo de jogo nos resta, após os 40 parece que a urgência de viver se acentua. E a busca por um propósito se torne mais urgente.
Afinal, estamos aqui para evoluir, aprender, melhorar. E se a gente não deixar boas lembranças para ninguém, talvez não tenha cumprido direito esse papel. Não precisa ganhar um prêmio nobel, construir um império ou algo muito visível. O impacto real consiste nas lembranças.
Minha avó veio do Ceará e estou certa que deixará exemplos e lembranças para a família toda. Minha mãe partiu há 11 anos e ainda é lembrada. Meu avô, que cuidava de uma horta no interior de São Paulo, é lembrado até hoje por seu senso de humor e suas histórias. Lembranças são subjetivas (e afinal, o que não é?), mas são também experiências de gratidão.
A morte é inevitável, a gratidão é opcional. Se a vida é tão curta, passar o tempo apenas cultivando tristezas parece um desperdício imenso. Entender que todas as perdas geram um aprendizado é valorizar os ganhos. Nesse dia de finados parei para pensar que de maneira subconsciente eu fugi de muitos relacionamentos com medo do fim, para evitar novos processos de luto. Foi uma péssima escolha. Olhar para o fim com ternura e gratidão é algo que abre novas portas, novas possibilidades, novas vivências. Quero novos começos — ainda que eles tragam novos fins, dores e lutos. Não se constroem lembranças fugindo dos ciclos inevitáveis da vida.
Estou construindo novas lembranças, sem saber quanto tempo tenho para isso. Tomara que seja bastante, ainda tenho muitas histórias para construir.
