À deriva na invenção do outubro rosa

Abre da PARTE 2 do livro “”, minha estratégia de travessia da maior crise existencial em que já me vi mergulhada no capitalismo. Acompanhe o processo .

Denize Guedes
Jan 3, 2017 · 4 min read
pexels.com

Náufraga de mim ou náufraga em mim?

Eu não sei.

Se preferir, eu leio pra você =)

Eu não sei mais de muita coisa que eu achava que sabia antes das duas grandes merdas acontecerem — embora eu saiba que merda é marrom e que marrom não briga por colorir nenhum mês do calendário. Amarelo, laranja e até dourado brigam. Por mais de uma folhinha, inclusive. Marrom, não. . Você ? Das grandes merdas? Recapitulando: o AVC da minha mãe, em dezembro de 2015, e a súbita cegueira do Dog, em agosto de 2016 — que, me dou conta agora, é tido como o . Assim, incolor. Mais uma sacanagem com a espécie do Dog, a Canis lupos familiaris. Não pelo fato do mês ser incolor para eles, mas pelo fato de ser louco. O Dog pode até ter ficado cego em agosto — mas, louco, não. Eu até lhe contei, no , que cheguei à conclusão de que ele é o bicho mais inteligente da nossa família, não contei? Então. Hein? Eu é que estou ficando louca? Será? Não-não-não-não-não, deve ser a insolação a que já me sinto exposta aqui nesse nosso bote imaginário. Acho que quem naufraga não tem muito tempo para pensar no tipo de coisa que eu pensava antes. As que eu achava que sabia antes. O tipo de coisa existencial. Acho que quem naufraga só tem tempo de, instante após instante, manter a existência, instante após instante, manter a existência, instante após instante. O que não deixa de ser curioso, visto que a manutenção da existência é a questão existencial primeira. Confuso isso.

Pausa para beber água.

Esta música é bem como me sinto, em outubro

Por outro lado, sei um pouquinho mais sobre as minhas quatro pequenas merdas — todas marrons, normal. ? As que decorreram das grandes merdas? Pondo em xeque o que eu achava que sabia? Me levando a pique? Alarme de salvamento soando e tudo? Recapitulando (já com os aprendizados do final de setembro): embora eu 1. permaneça absolutamente perdida no capitalismo, 2. ainda não faça ideia alguma se vivo uma vida jogada fora e 3. não consiga muito mais do que só me alarmar com o estado de degradação do planeta, 4. sinto que a minha maior dor mesmo seja essa fucking constante de estar só na vida, inteira. Quer dizer, eu tenho a minha própria companhia — que me oferece uma balbúrdia de vozes desde que entendi o que era linguagem. Só que vozes não me abraçam debaixo do edredom na hora de dormir com medo. Nem na hora de dormir feliz. E tem ficado cada vez mais solitário andar só com as minhas vozes… Penso que será mesmo um grande feito se eu conseguir atravessar este último trimestre do ano a salvo de mim. Ou a salvo em mim. Eu não sei. Eu não sei do que é feito o salvar. Também não sei se a minha bússola interna se consertou um pouco nesses últimos dias de setembro. Entro aqui com ela, de todo modo. Neste bote por escrito. É esta a estratégia. A única estratégia. A melhor próxima coisa agora que não seja eu pular da janela. Por isso que já me acalma estar em um bote. Botes não têm janela. Se tivessem, seriam barcos. Ou seriam lanchas ou iates. Se tivessem muitas janelas, seriam navios. Ou seriam transatlânticos. Não é o nosso caso. Remos, porém, seriam de boa ajuda.

É início de outubro de 2016, a jornada vai oficialmente começar. Menos mal — ou terminará sendo mais mal? — que a medicação para a minha depressão esteja agora em 150 mg/dia (comecei com 37,5 mg/dia). Eu e as vozes temos esperança de que ela nos ajude a criar remos. Você também tem vozes dentro de você? O que elas lhe dizem? Para remar? Elas me fazem querer conversar com você, por exemplo. Você já se sentiu enlouquecendo?… Ah, continuo lendo “” e ainda não sei se a nossa rápida ascensão, a do Homo sapiens, nem se o capitalismo foram grandes merdas ou melhores próximas coisas agora. Mas pode ficar tranquilo|a que eu vou lhe dizer tão logo eu chegue a alguma conclusão. Se eu chegar a alguma conclusão. Eu espero chegar.

Por toda a parte, sou lembrada de que . Rosa, rosa, rosa, na televisão, nos monumentos, nas farmácias. Uma loucura intersubjetiva imposta isso, não acha? Pensei agora se deve ser assim para os cachorros em agosto. Tipo: louco, louco, louco, nas máquinas de assar frango, nos postes, nas clínicas veterinárias. Brincadeira, eu sei que não é assim para eles. Eles são muito inteligentes, não devem nem ligar. Rosa, a realidade é que é nesse outubro que o Dimas — tão louca a criação do processo de salvamento de|em mim que ainda nem apresentei a você esse fantástico ex-judoca, né?; calma, calma — começa a fazer de tudo para a minha mãe estar andando em dezembro. Rosa, é nesse outubro que eu começo mesmo a ser contadora de história — ocupação que o meu pai acha uma merda, mas que o acha que é uma das que o mundo mais precisa, ? — até encontrar um chão.

O que será que o Dalai Lama acha do outubro rosa? Ou das coisas marrons que nos acontecem?

Confuso isso.


Originalmente publicado | | |

Às segundas, compartilho algo do andamento do livro,

Denize Guedes

Written by

Em crise existencial no capitalismo, escrevo “A melhor próxima coisa agora” como estratégia para atravessá-la. ❤ denizeguedes.com

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