Como a economia compartilhada está nos ajudando a redefinir o dinheiro

Esta tradução, de um artigo de maio de 2014 de Saul of Hearts, faz parte do Mordenize, jornada pra achar um jeito de lidar com o dinheiro que me faça sentido — esperando que isso possa ajudar você também. Um conteúdo novo toda terça e sexta. Considere apoiar a partir de R$ 1.

Em artigo recente no The Atlantic, Moises Naim faz uma afirmação bastante impressionante: “A maioria das pessoas no mundo não tem a menor ideia de como administrar o seu dinheiro”. Ele cita um estudo em que apenas 30% dos americanos eram capazes de responder corretamente a três perguntas básicas sobre investimentos e finanças.

Mesmo que você consiga responder direito a todas três, não há garantias de que isso lhe deixe numa boa posição. Eu ainda estou engatinhando rumo a uma saída das minhas dívidas estudantis e anos distante de pôr em prática qualquer ideia de investimento que eu possa ter aprendido no caminho.

As implicações do estudo são óbvias: uma sociedade que gira em torno de uma habilidade que nem todo mundo pode aprender não é uma sociedade justa e equitativa (grifos do autor).

Alguns de nós é simplesmente ruim em matemática (eu sou! Denize falando aqui! .o/ ). Outros podem ter as habilidades computacionais necessárias, mas nunca foram treinados a aplicá-las às nossas vidas financeiras.

“A ignorância financeira,” escreve Naim, “está vastamente expandida, mesmo o mundo havendo mudado em maneiras que fazem tal ignorância ser mais perigosa do que nunca.”

A esse respeito, o dinheiro é bem particular. Você não precisa ser bom em ioga para contratar um professor de ioga. Você não paga o seu professor de violão tocando para ele. Mas para contratar um coach financeiro, contador ou conselheiro de investimentos, espera-se que você pague com a mesmíssima moeda que você precisa da ajuda deles para conseguir!

É como se a sociedade fosse estruturada de tal maneira que a única forma de manter o controle das suas finanças pessoais fosse compreender e aplicar as regras do xadrez. Ao invés de “equilibrar as suas contas”, seria esperado de você “equilibrar o seu tabuleiro”. Mesmo que o xadrez fosse meramente a “moeda” pela qual nós medíssemos outras habilidades — vamos dizer que um dia todo de trabalho lhe rendesse um certo número de movimentos — , ele estaria vinculado a pessoas que simplesmente não conseguem traduzir no tabuleiro seus talentos em outras áreas (eu, Denize, de novo! .o/ ).

E isso é exatamente o que esperamos que as pessoas façam com o dinheiro (grifo do autor, de novo). Pessoas cujos talentos as dirige rumo a indústrias mais criativas encaram a mesma matemática que analistas. Lutando, o artista ou empreendedor participa da mesma corrida que o contador, cujo trabalho o ensina mais sobre finanças a cada dia.

“Para um grande e crescente número de pessoas”, escreve Naim, “o pedido de falência pessoal está a apenas uma má decisão de distância”.

Ganhar a vida não é intuitivo para muitas pessoas. Isso requer uma mistura complexa de negociação, trabalho e administração do dinheiro. E enfrentamos executivos de banco corruptos, taxas de juro astronômicas e desigualdade salarial por raça e gênero. As probabilidades, definitivamente, não estão a nosso favor.

E, ainda assim, não deveria ser tão difícil colocar nossas mãos sobre o dinheiro. Seres humanos são criaturas com base em reciprocidade. Nós evoluímos para comprar e vender, para o comércio, a troca. Nós sabemos, instintivamente, quando estamos sendo passados para trás ou quando devemos um favor a alguém.

O dinheiro deveria nos vir fácil. Então, por que não vem?

Talvez porque tenhamos apartado o dinheiro dos problemas mesmos que ele deveria resolver (grifo do autor). Nós transformamos trocas pessoas-a-pessoa em equações matemáticas. Finanças se tornou uma abstração, um sistema complexo que nem podemos tentar imaginar.

Precisamos reivindicar de volta o conceito de dinheiro e trazê-lo de volta a um meio tangível de troca.

Em seu livro “Debt”, David Graeber escreve sobre uma sociedade rural nigeriana que girava em torno de “um círculo sem fim de dádivas em que ninguém dava um valor preciso para o último objeto recebido — e, fazendo isso, eles estavam continuamente criando sua sociedade…”

É uma noção romântica, que talvez não seja razoável em um mundo globalizado. Mas muitas comunidades estão dando passos nessa direção, com crescente envolvimento em marketplaces pessoa-a-pessoa, bancos de tempo e a economia compartilhada — a interação um-a-um que verdadeiramente cria e mantém a sociedade.

Para algumas pessoas — especialmente aquelas que compartilham da minha desconfiança em relação a grandes bancos e corporações — , trocar dinheiro por produtos e serviços por meio de sites como o Airbnb (aqui minha kit lá, se tiver interesse!) é, em termos, uma contradição. Não é muito diferente de começar um pequeno negócio e lucrar em cima de clientes.

“Não é compartilhar”, elas dizem, “se você pede algo em retorno”.

Mas me parece que elas estão presas na ideia do dinheiro como uma ferramenta para a exploração e falham em enxergar seu potencial como um sistema de troca. Elas estão focadas naqueles que sequestraram o conceito de dinheiro e não nos outros tipos de interação que ele pode facilitar.

O dinheiro nos permite compartilhar para além do nosso círculo social imediato. Ele nos permite construir alianças com pessoas com as quais não interagiríamos de outra forma. Pode ser um fiador da reputação quando esta informação não está imediatamente disponível — um jeito de assegurar um nível mútuo de comprometimento para uma troca.

Pessoalmente, sou péssimo em manejar números em uma planilha (eu também, Denize, de novo 2! .o/ ). Jamais vou ficar rico investindo no mercado de ações ou vendendo produtos online. Mas sou muito bom em interagir com pessoas. Sou bom em receber hóspedes na minha casa, oferecer um serviço, negociar um preço justo pelo uso do meu veículo ou outra coisa.

Esse é dinheiro que eu posso entender, integrado ao meu dia a dia e comunidade. É uma língua que falo, uma transação que posso pegar e continuar em outro lugar. Posso usar o dinheiro que ganhei pelos alugueis no RelayRides para contratar um TaskRabbit para promover o meu e-book… que pode usar esse dinheiro para passar uma noite como hóspede num Airbnb…enquanto paga alguém para ficar com seu cachorro pelo DogVacay…e assim por diante.

Uma noção idealista? Talvez. Não tem como negar que algumas pessoas abusam desses serviços para lucrar e que algumas companhias tiram vantagem de participantes vorazes.

Mas o dinheiro em si não é uma má coisa. A moeda nos dá a oportunidade de comprar, vender, comercializar em nossa comunidade e para além dela. Deveríamos celebrar esse fato, não ter vergonha dele.

Nosso objetivo não deveria ser remover o dinheiro de todas as trocas, mas insistir que a moeda fosse diretamente proporcional aos produtos e serviços envolvidos. O dinheiro, no seu melhor, é sobre dar e receber, não sobre “dívidas”, “poupança” e “investimentos”.

Reclamar de volta o conceito do dinheiro vai levar algum tempo. E é verdade que os passos que esses sites estão dando não estão ainda lá. Mas eles servem ao importante propósito de facilitar transações de jeitos em que o nosso cérebro primata está bem equipado para lidar. E isso, em si, é algo bem-vindo.


Esta tradução, de um artigo de maio de 2014 de Saul of Hearts, faz parte do Mordenize, jornada pra achar um jeito de lidar com o dinheiro que me faça sentido — esperando que isso possa ajudar você também. Um conteúdo novo toda terça e sexta. Considere apoiar a partir de R$ 1.