Histórias são a cola mítica da nossa espécie — pois eu tinha uma de Titanic para me grudar no começo

Texto 2 da PARTE 1 do livro “A melhor próxima coisa agora”, minha estratégia de travessia da maior crise existencial em que já me vi mergulhada no capitalismo. Acompanhe o processo aqui.

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Ok, contei que terminei de afundar mesmo foi com a cegueira do Dog.

Mas em que momento eu comecei a afundar? Em que momento eu comecei a afundar? Em que momento… Ei, me ajuda?

Se preferir, eu leio para você =)

Agora estou deitada na cama dos meus pais, que divido com a dona Maria no lugar do seu Antunes desde a primeira noite dela fora do hospital, sem conseguir conter a nova pergunta em looping na minha cabeça. Passa da meia-noite e a minha mãe dorme. Eu, lanterna acesa, de bruços, tento ler “Sapiens” em meio à inundação de pensamentos de busca. Não dá. Ponho o livro no chão, aponto o feixe de luz para o rodapé e fico entregue ao meu cérebro ― que vasculha qual terá sido o choque a romper sem volta o meu então casco de Titanic pós AVCI.

Foi isso o que a minha mãe teve nove meses atrás. Um acidente vascular cerebral, o já popularmente conhecido AVC — ou AVE, popularmente desconhecido, para quem gosta de falar encefálico no lugar de cerebral. E I porque foi isquêmico, o nome difícil que médicos dão para quando a veia entope, sem deixar sangue passar com oxigênio por um período de tempo crucial o suficiente para desligar para sempre a área sufocada. Tem o hemorrágico também, o AVCH, que é quando a veia rompe e o tecido cerebral é invadido por sangue. Muito mais grave do que o AVCI, muito mais Deus nos acuda, muito mais fatal. O da minha mãe foi grave e Deus nos acuda o suficiente para nós quatro — ela, meu pai, eu e o Dog.

O entupimento de veia dela foi em uma área bem pequena do lado esquerdo do cérebro dela. Bem pequena mesmo, desligando por completo os movimentos do lado direito inteiro do corpo — a sensibilidade e a fala, não; estas ficaram praticamente intactas. É assim que acidentes vasculares cerebrais funcionam, em geral. Ocorrem em um hemisfério do cérebro, deixam os destroços no hemisfério oposto do corpo. Os do tipo que a minha mãe sofreu, pelo menos. Esses que atingem em cheio a parte motora. É até comum a característica cruzada ser tema de puxar conversa entre iniciados nas salas de espera de clínica médica, exames laboratoriais e fisioterapia. Em elevadores que levam a essas clínicas também.

— Ah, a sequela da senhora foi no lado direito… Então, o AVC deu no lado esquerdo da cabeça, né? — diz o interlocutor da vez. O da minha esposa, não. Deu no lado direito, pegou todo o lado esquerdo — a mão percorrendo o pedaço do corpo em questão.

Na cadeira de rodas, sempre com ar resignado, a dona Maria fica só balançando a cabeça afirmativamente para a pessoa. Ela não é de se engajar muito. E, quando o faz, parece fazer é reflexivamente. Escutei algumas vezes já ela se perguntando, olhando para o alto ― para Deus? — , como um pontinho podia fazer tanto estrago.

Pontinho é como às vezes ela chama o seu AVC, referência à bolinha desenhada pela neurologista do Dr. Receita, rede que nos acode em dez vezes no cartão, em uma de suas tomografias. Ali, para quem quisesse ver, a delimitação exata do acidente na banda esquerda do encéfalo dela — banda é uma palavra que ela usa; encéfalo, não.

Como é que pode um pontinho fazer um estrago desses? Como é que pode um pontinho fazer um estrago desses? Como é que pode… Hein, meu Deus?

Suspeito a pergunta do pontinho ser uma em looping na cabeça da minha mãe.

Suspeito algumas na cabeça do meu pai também. A principal na dele, eu diria, é a do dinheiro.

Por que foi acontecer um dia depois de sair o dinheiro? Por que foi acontecer um dia depois de sair o dinheiro? Por que… Tem lógica?…

Na do Dog, não. Não suspeito haver nenhuma pergunta em looping na cabeça do Dog. Mesmo ele tendo ficado cego da noite para o dia. O cérebro do Dog não evoluiu para isso. Para conceber histórias que justifiquem a escuridão nem para imaginar realidades a partir da escuridão. Foi o nosso que evoluiu para isso. Conceber histórias, imaginar realidades… funcionar por ficções. Com a vantagem — ou, ao ponto global a que chegamos, desvantagem? — de que fazemos isso juntos. Nenhuma outra espécie funciona assim, com seus indivíduos colados miticamente pelas histórias da vez que ordenam suas atividades.

Lendas, deuses, religiões, nações, dinheiro, capitalismo… Tudo cola mítica.

Não me deixa de ser um alento pensar que a cola Capitalismo bem pode ser substituída de repente. Sério, não é mera ingenuidade minha, não. Está lá no trecho de “Sapiens” que li agorinha há pouco: “Nas circunstâncias adequadas, os mitos podem mudar muito depressa. Em 1789, a população francesa, quase da noite para o dia, deixou de acreditar no mito do direito divino dos reis e passou a acreditar no mito da soberania do povo. Em consequência, desde a Revolução Cognitiva o Homo sapiens tem sido capaz de revisar seu comportamento rapidamente de acordo com necessidades em constante transformação”. Viu?

E eu que achava que a primeira revolução nossa tinha sido a Agrícola. Você também não achava? Nada. Foi a Cognitiva, garante lá Yuval Noah Harari, o autor do livro, entre 70 mil anos atrás e 30 mil anos atrás, com novas conexões neurais de jeitos de pensar e de se comunicar. Deu nisso, setembro de 2016, mais de uma da manhã já, e o meu cérebro, enfim, com uma lista de seis choques na história que selava o meu casco para eu analisar. O de número cinco soando um alarme.

Apago e acendo a lanterna. Viro para a minha mãe. Mesmo dormindo e no quase escuro, dá para notar o aspecto derramado no lado direito do rosto dela. É bem pouquinha coisa. O suficiente para entender o nome mais popular mesmo do AVC, derrame.

Viro de bruços de novo, apóio o queixo no lado aceso da lanterna. Já passou da hora, mesmo com a angústia e a aflição que ainda não escorrem de mim, é preciso encarar:

Choque #1: a primeira fisioterapeuta particular da minha mãe me perguntando toda manhã de sábado se eu não faria logo mais nada da vida;

Choque #2: a minha psiquiatra querendo que eu respondesse, a mim mesma, quando retomaria meu projeto — bom, aproveito para admitir, embora seja extremamente vergonhoso, que o AVC da minha mãe, em algum nível psicológico, me trouxe a justificativa para não seguir com o meu projeto de viver sem dinheiro, visto que, já sabemos, eu não estava assim tão segura dele;

Choque #3: o meu pai dinamarquês dizendo que me enxergava vítima de uma tragédia familiar, sendo a lástima maior eu mesma ter me colocado em tal condição;

Choque #4: a colega de Experiência Schumacher Brasil 2016, curso onde aprendi sobre a melhor próxima coisa agora, achando um desperdício eu não ganhar dinheiro com todo o meu conteúdo

Até aí, os quatro choques avariaram o casco, é verdade. Fizeram lá sua rachadura na minha história. Mas não a romperam a ponto de me tirar de vez do prumo. Por ser marginal à história dominante, a de que temos de trabalhar e crescer na vida, eu é que me sentia sendo rachadura na história do mundo. Eu não só não participava do programa oferecido como normal e de sucesso como escolhia me ocupar da minha mãe. Eu me sentia a própria mulher que o Charles Eisenstein, ativista e teórico norte-americano do decrescimento, do de-cres-ci-men-to, admirava no vídeo que traduzi e coloquei legendas com o Peter Sky. A mulher que possibilitava todo um campo morfogenético* de mudança ao sacrificar tudo para cuidar da avó. “Todo dia, trocando o penico, limpando essa avó, fazendo compras para ela, preparando as suas refeições”, diz ele lá.

Com o queixo já ardendo de quente, apago de vez a lanterna e afundo a cara no travesseiro. Não quero ver. Foi o quinto choque a inundar de confusão meio que todos os compartimentos da minha história. Sabia que o Titanic não naufragaria se só quatro compartimentos fossem tomados de água? Mas foram seis. Foi o quinto choque.

Choque #5: a pessoa significativa & bem-sucedida entrar em contato e eu permitir, por um período de tempo crucial o suficiente, contato ― com as suas ideias, com o seu corpo também;

Choque #6: o Dog, símbolo de muita coisa para mim, ficar cego.

Fim do looping, início do processo de salvamento.

* Teoria formulada por Rupert Sheldrake que explicaria a emergência simultânea da mesma função adaptativa em populações biológicas não-contíguas.


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