Nós, os cretinos de 70 quilos

Sempre me recordo de uma passagem do filme “O guia do mochileiro das galáxias” quando alguém comenta sobre o trânsito insuportável-ou-caótico-ou-infernal de São Paulo (vale para qualquer trânsito insuportável-caótico-infernal de qualquer parte do mundo, claro). É da cena quando, ao observar filas e mais filas de carros se locomovendo vagarosamente por uma larguíssima highway, o alienígena Ford conclui que, evidentemente, aqueles eram os principais habitantes da Terra. Ele precisou ser salvo de um atropelamento, quando tentava fazer amizade com um ser de quatro rodas, para entender que: não, os carros não eram a forma de vida predominante no planeta que conhecia. Era quem ia dentro deles.

A afirmação recente do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, em entrevista ao “El País”, de que “o que está em debate em São Paulo é a estupidez do automóvel”, fez com que eu me reportasse novamente ao filme. Aos 86 anos, o brasileiro ganhador do mais importante prêmio mundial de sua área, o Pritzker, soube expressar como poucos a insensatez que o carro encarna hoje em nossa sociedade (de novo, vale para qualquer grande cidade no planeta). Insensatez esta que torna completamente plausível a um extraterrestre tomar os carros pelos seres dominantes por aqui. Pois disse Paulo Mendes da Rocha: “O mundo está em guerra por causa do petróleo. E você queima o petróleo para levar uma lataria que pesa 700 quilos e lá dentro tem um cretino de 70 quilos. Alguma coisa está errada”.

Não posso concordar mais. Alguma coisa está errada. Muito errada, estupidamente errada. Mas o quê? Será que existe um fio que permita desenrolar esta meada em que nos metemos? Serão muitas as meadas? E todas misturadas? Mais: somos todos cretinos?

Bom, vou tentar dar uma volta por alguns pontos para ver se desenhamos algum caminho.

Engatando a primeira. Pense no cretino de 70 quilos. Quem é ele? Provavelmente, não um m(b)ilionário nem um político de alto cacife. Estes já andam de helicóptero. Pode ser o jovem da periferia que cresceu vendo os pais madrugando e anoitecendo para ir e vir do trabalho, em caminhada<==>ônibus<==>trens<==>metrôs<==>caminhada, e hoje paga com orgulho de bater no peito o financiamento do carro popular 2006. Pode ser alguém que ganhou o carro ao passar no vestibular, primeiro filho que foi a dar essa alegria a pais que se esforçam para proporcionar aos herdeiros tudo o que não tiveram. Pode ser aquela moça típica de classe média, com pai e mãe cada um com seus carros, havendo usado mais o transporte público em viagens ao exterior do que em seu próprio país. Pode ser a interiorana que veio fazer faculdade na cidade grande, cresceu na vida e é o exemplo de sucesso nas rodas de conversa da família.

Sucesso. Engatemos, então, a segunda pensando sobre qual tem sido a noção ocidental de sucesso. “Perseguir o interesse próprio foi a grande propaganda do último século”, diz o filósofo australiano Roman Krznaric, um dos fundadores da The School of Life. Assim, possuir um veículo de transporte individual é uma das expressões mais legítimas do triunfo de alguém nessa perseguição do interesse próprio, certo? Certo, passa todas as mensagens de status, conquista e êxito que as mensagens da sociedade nos pedem para passar. Pode ser o carro popular 2006 do nosso amigo da periferia como pode ser o importado e automático da família da moça típica de classe média. Cada um em sua classe social, pensando já no carro pelo qual vão trocar os seus atuais, respondem de acordo com o que deles é esperado. Ao menos pela propaganda dominante sobre o que quer dizer crescer na vida.

Propaganda. Vamos agora passar a terceira. Eu lhe desafio a pensar em uma — só uma — propaganda de carro em que o veículo de desejo apareça parado em um congestionamento. Pode ser um congestionamentinho. Pensou? … Não, né? Porque não tem, embora essa seja a realidade enfrentada diariamente pelas pessoas possuidoras de carro. Invariavelmente, as ideias envolvidas em propagandas de carro estão ligadas a liberdade (você dirigindo pela cidade-ou-trilha-ou-praia-ou-campo praticamente só seus), conquista (você dirigindo com sorriso de satisfação em dia de sol pela cidade-ou-trilha-ou-praia-ou-campo), potência (você dirigindo rápido e impávido pela cidade-ou-trilha-ou-praia-ou-campo) e por aí vai. Algo tão real como a propaganda do cara que passa desodorante, sai na rua e, de repente, vê mulheres agarrando seu peito, cafungando seu pescoço. Mas, então, nós caímos nessa. Compramos essa.

Como já vamos passando para a quarta marcha, vamos falar de velocidade? Tem um ditado africano que diz assim: “Se você quer ir rápido, vá sozinho. Se você quer ir longe, vá junto”. Desnecessário sublinhar mais o quanto nossa sociedade ocidental estimula a se ir sozinho (mesmo que seja em família — que é uma forma de separação da ideia de comunidade). Você acha possível, quem sabe, uma franquia hollywoodiana de nome “Eficientes e coletivos”? No lugar de “Velozes e furiosos”? Piada, né? É. Nossa sociedade nos estimulou ao longo dos últimos cento e tantos anos a nos apartar. E o carro é apenas um aspecto do nosso individualismo-guia. Só que chegamos a um ponto em que a narrativa, não importa quão cínicos tenhamos sido capaz de ficar, não casa mais com um mínimo de realidade. E de repente somos um bando de cretinos solitários de 70 quilos.

Passando a quinta aqui para ver se chego a algum lugar logo (essa é sempre a mensagem, né? Chegar logo?). Bom, de repente, constatações como a deste meme joguem na nossa cara a realidade fora dos comerciais, que mantivemos anestesiada, entretidos que estamos sentindo raiva do ciclista, que morre de medo (e de verdade também) do motorista de ônibus, que despreza o taxista em sua faixa exclusiva, que sente ódio do motoboy, que nos detesta e achamos que demonstra isso quebrando o nosso retrovisor. Só que a via é a mesma, não? É. Só que não nos incentivaram a ir junto para ir mais longe nesta via que dividimos todos, não? É. E aí a gente autorealiza o meme da frase de Ellen Goodman: “Normal é vestir roupas que você compra para trabalhar, dirigir no trânsito no carro que você ainda está pagando — para chegar ao trabalho que você precisa para pagar as roupas, o carro e a casa, que fica vazia o dia inteiro para que você consiga viver nela”.

E agora? E agora só sobrou a marcha à ré. Recobrar nosso tempo livre, recobrar uma verdadeira coletividade, recobrar liberdade real. Liberdade. Real. “Se uma pessoa gasta quatro horas por dia, no mínimo, para ir e voltar do trabalho, isso é o ideal. Ela não pode sair, ir ao teatro, porque não tem onde deixar as crianças. Uma forma de se escravizar é ocupar o tempo inteiro inexoravelmente”, disse também Paulo Mendes da Rocha na entrevista.

Retomando o início, alivia pensar que “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, item imprescindível para sobreviver fora da Terra, já que esta precisava ser destruída por estar bem na rota de uma nova via intergaláctica em construção, é apenas ficção. Ou não também. A guerra contra o terror, aquela por causa do petróleo, levada a cabo por políticos de alto cacife em nome de m(b)ilionários, ops!, em nome da paz, também não passa de ficção.

Pronto, chegamos.