O homem sem dinheiro [transcrição]

Esta transcrição, traduzida do vídeo ao final com Mark Boyle, faz parte do Mordenize, jornada para achar um jeito de lidar com o dinheiro que me faça sentido — esperando que isso possa ajudar você também. Um conteúdo novo toda terça e sexta. Considere apoiar, a partir de R$ 1.

Silver Donald Cameron, do “The green interview”: Acreditando que o dinheiro distorce nosso relacionamento com a natureza e uns com os outros, Mark Boyle decidiu viver um ano inteiro sem usar dinheiro nenhum. Um ano depois, para sua surpresa, percebeu que estava mais feliz, mais saudável e mais feliz do que jamais esteve. Ele escreveu um livro chamado “The moneyless man” (“O homem sem grana”, na tradução brasileira) e usou os royalties para começar um movimento chamado Freeconomy, que usa um site para apresentar a filosofia de viver sem dinheiro e prover uma espécie de câmara onde membros podem se conectar a outros membros para compartilhar habilidades, posses ou acomodações. Ele hoje [o vídeo é de 2012] é utilizado por pessoas em 162 países.

Mark Boyle: Simplesmente aconteceu de eu me mudar para o Reino Unido e conseguir um trabalho em uma loja de orgânicos. Isso me colocou em contato com muita gente do “pensamento verde”. Pessoas que questionam as coisas, sabe? Eu comecei a ouvir sobre minhocas, sobre abelhas e sobre coisas do tipo pela primeira vez — depois de ter estudado Economia por seis anos. Até então, eu nunca tinha cruzado com, digamos, a economia da vida real. E isso meio que me fez questionar todo o jeito como estávamos vivendo e questionar o sistema monetário. Até que cheguei ao ponto, em 2006, em que estava tentando pensar para o que eu iria dedicar a minha vida. Há tantos grandes temas no mundo, sabe? Das sweatshops à agricultura industrial, à destruição ambiental. Qual iria ser a minha paixão, sabe? E me dei conta de que essas coisas todas eram apenas sintomas de uma causa de mesma raiz, profunda. E, para mim, essa raiz era a nossa separação das coisas que consumimos, nossa separação da natureza. Até que nos reconectemos com o que consumimos do mundo natural, muito pouco vai mudar. Bem, e eu tive um daqueles momentos de percepção de que uma das maiores ferramentas de desconexão que temos é o dinheiro. Ele nos dá a ilusão de independência. Tipo, nós todos meio que queremos ser independentes. É algo que nos é ensinado desde pequenos, que é uma coisa boa ser independente. Mas o que de fato estamos fazendo é ficar dependentes de pessoas distante de nós. Não é como se todos nós pudéssemos viver por nós mesmos hoje, todos nós compramos nossas coisas de toda parte do mundo. Então, somos dependentes dessas pessoas em oposição a sermos dependentes de pessoas nas nossas comunidades locais. Isso também nos levou à destruição do senso de comunidade. Então, explorei isso por um tempo e me dei conta de que, depois de falar das consequências do dinheiro — aliás, falamos sempre sobre os benefícios do dinheiro, está todo dia nos jornais, mas não falamos das consequências — não fazia sentido eu falar das consequências se eu não começasse a viver isso na pele primeiro. Para ver, enquanto um ser humano, como é viver sem dinheiro em um mundo que é bastante movido por ele. E, bem, fiz um compromisso de, durante um ano, viver sem dinheiro. Agora, no fim, meu maior problema era: “Será que eu consigo voltar ao mundo monetário?” Foi uma verdadeira batalha nos primeiros meses e, simplesmente, acabei percebendo que eu nunca havia estado tão feliz. A questão é que é parte do nosso condicionamento, por isso a batalha foi tão difícil. Porque eu ainda estava condicionado a pensar: “Ah, mas é claro que eu tenho de voltar a usar dinheiro!” Bem, e pensei: “Mas será que tenho mesmo?” Daí, continuei vivendo assim, depois do primeiro ano. E tem sido a melhor experiência da minha vida, em tantos níveis diferentes.

Silver Donald Cameron: Você vivia num trailer, que conseguiu praticamente de graça, não é? Como isso aconteceu?

Mark Boyle: Bem, eu consegui o trailer em um projeto chamado Freecycle. Muitas pessoas deverão conhecer. Basicamente, as pessoas postam coisas que não querem mais e pessoas que querem podem aceitá-las. E vice-versa. Então, algumas vezes, eu dou coisas no Freecycle e, se eu preciso, posto lá. Bem, e eu havia decidido viver sem dinheiro quando pensei sobre onde iria viver. Então, postei: “[Quero algum tipo de casa]”. Vai, numa situação em que uma tenda, um trailer, uma barraca serviriam, sabe? E uma mulher me respondeu via e-mail dizendo: “Eu tenho um trailer que está me custando 25 paus por mês para guardar num quintal, sendo que eu nunca vou usar isso de novo. Você quer?” E eu fiquei, do tipo: “É sério?… Ok!”

Silver Donald Cameron: Essa é uma das críticas que você recebe, aliás, não é? Das pessoas dizerem: “Bem, somente é possível a você viver nesse mundo sonhador sem dinheiro porque você está completamente rodeado de coisas que o dinheiro já comprou para outras pessoas”.

Mark Boyle: Sim, há muitas críticas, na real. De fato, essa é uma delas. E, sim, eu aceito a crítica, como faço com todas as críticas. Há sempre utilidade nessas críticas. A questão é que não é que você precise de dinheiro para viver neste mundo. O problema é que criamos um mundo conveniente para muitas pessoas, o que envolve nós termos de usá-lo. Quanto mais você entra em contato com estudos antropológicos e toda a história de como o dinheiro foi criado nas diferentes partes do mundo, mais interessante e negra a coisa fica. E, claro, dada a forma como vivemos hoje, você quase tem de pagar para estar na Terra. O que é uma coisa bizarra, se você considera que nenhuma outra espécie, como nós, precisa de permissão de planejamento para viver na área rural. Para construir um simples abrigo, sabe? Não pedimos isso para um pássaro, [e ele cita dois outros animais que não consegui entender… alguém?]. Por que pedimos para nós mesmos? Por que não podemos ser parte dessa paisagem? Na história em que vivemos hoje, claro, há uma hipocrisia inerente. Isso pode ser percebido. E acho que é somente porque vivemos em uma história bizarra. A ideia de viver sem dinheiro é muito mais antiga do que nós. 95% do nosso tempo aqui na Terra foi sem dinheiro. Foi nos últimos 5% que passamos a pensar que o dinheiro era e é tudo.

E aqui o vídeo


Esta transcrição, traduzida do vídeo ao final com Mark Boyle, faz parte do Mordenize, jornada para achar um jeito de lidar com o dinheiro que me faça sentido — esperando que isso possa ajudar você também. Um conteúdo novo toda terça e sexta. Considere apoiar, a partir de R$ 1.

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