Ganância de quê?

“Quanto você precisa comer para compensar um sentimento de não pertencimento? Quanta pornografia você precisa consumir para compensar um déficit de intimidade? De quanto dinheiro você precisa para compensar um profundo senso de insegurança?”

(Tradução de artigo de Charles Eisenstein, cujo original está aqui.)

Muitas pessoas reagiram ao meu comentário no Facebook outro dia de que ganância é mais um sintoma do que uma causa do nosso sistema atual, com todas as suas iniquidades. Sou perguntado, qual a causa da ganância? Primeiro, vou dizer o que penso ser ganância: é o desejo insaciável por algo que alguém não precisa realmente, ou em quantidades além da qual alguém necessitaria.

Quando somos apartados da realização das nossas necessidades básicas, passamos a procurar substitutos para temporariamente aliviar nossos anseios. Desterrados de conexão com a natureza, conexão com a comunidade, de intimidade, de autoexpressão significativa, de um meio ambiente forte e saudável, de conexão espiritual e do sentimento de pertencimento, muitos de nós consome em demasia, se alimenta em demasia, compra em demasia e acumula em demasia. Quanto você precisa comer para compensar um sentimento de não pertencimento? Quanta pornografia você precisa consumir para compensar um déficit de intimidade? De quanto dinheiro você precisa para compensar um profundo senso de insegurança? Nenhuma quantidade é suficiente.

As causas da nossa separação de todas essas coisas permeiam cada aspecto de nossa cultura. Ontem mesmo eu estava lendo um artigo sobre práticas indígenas de maternidade/paternidade. O autor descrevia como as crianças raramente choravam, porque as necessidades delas eram consistentemente e imediatamente atendidas: constantemente sendo seguradas dia e noite, sendo oferecidas ao peito conforme pediam até que tivessem entre 3 e 4 anos, e assim por diante. Me evocou memórias da minha infância — extremamente amorosa, porém, segundo nossos padrões culturais — , em que eu invariavelmente ficava muito sozinho, faminto por atenção. Muitos de nós no Ocidente passa muito tempo sozinho: sozinhos no berçário da maternidade, sozinhos no berço em casa, sozinhos no carrinho de passear, chorando para ter nossas necessidades atendidas e, eventualmente, nos adaptando ao fato de não tê-las atendidas. Nos embrutecemos e nos acostumamos a um mundo em nunca será suficiente, onde temos de lutar e nos agarrar a tudo por causa do medo da perda. Até o peito, o arquétipo da experiência de plenitude, nos foi muito negado, limitado ou tirado antes de que estivéssemos prontos.

Talvez esse jeito de criação seja necessário em nosso contexto social. Do contrário, passaríamos pela vida confiando, sem defesas, relaxados, sendo facilmente explorados. Somos preparados desde o nascimento para uma economia competitiva, uma economia em que um pisa no outro. Você pode ver como essa insegurança profundamente programada pode se manifestar como uma inata tendência à ganância. Faz a ganância parecer um estado natural e a generosidade, uma manifestação árdua e antinatural.

Vários aspectos do nosso sistema econômico refletem essa programação. Por exemplo, considere a usura, que descrevi em “Economia Sagrada” como o pilar do nosso sistema. O credor é fundamentalmente alguém que tem mais dinheiro do que ele precisa agora (por isso ele tem os fundos para emprestar), mas ao invés de dizer, “Eu não preciso agora, use”, ele diz, “Eu só vou deixar você usar se eu terminar com muito mais”. Se encaixa perfeitamente com a mentalidade de escassez e controle. Se encaixa com uma experiência de vida que ensinou, “Basicamente, não há suficiente para todo mundo. Você tem de se virar para ter, assegurar, controlar aqueles que não são você para que eles continuem a atender as suas necessidades. Porque, se você não fizer isso, suas necessidades não serão atendidas”. Isso porque a maioria de nós não viveu a contento a experiência de ter nossas necessidades atendidas sem esforço.

Essa psicologia do interesse, em conjunto, forma o parque de diversões em que banqueiros, CEO’s, gerentes de fundos de pensão, políticos e até pequenos poupadores operam. Certamente, alguns deles levam a ganância a extremos grotescos, mas mesmo sem as manobras ardilosas de um JP Morgan e de um Goldman Sachs, o imperativo financeiro de converter todo o capital natural e social em dinheiro continua. Os megabancos e fundos hedge são os mais espertos e implacáveis jogadores, mas o resultado — ecocídio e empobrecimento — está escrito dentro das regras do jogo.

Quando descrevo a experiência da primeira infância, não tenho intenção de simplisticamente culpar a ganância apenas com base nisso. Todos os aspectos da nossa cultura conspiram para nos despir de nossa interconexão e senso de pertencimento/comunidade. Deixe-me nomear alguns mais:

- Doutrinação religiosa de auto-rejeição;

- Educação que mantém crianças fechadas num imóvel, que incentiva a competição e as acostuma a fazer coisas pelas quais não se importam em troca de recompensas externas;

- Ideologia higiênica que fomenta o medo e a rejeição ao mundo;

- Imersão em paisagens compostas por produtos, construções e imagens padronizadas;

- Os efeitos alienadores de se viver entre formas inorgânicas e ângulos retos;

- Direitos de propriedade que nos confinam a maior parte do tempo em nossas casas, espaços comerciais e uns poucos parques.

- Imagens midiáticas que nos fazem sentir inferiores e que não valemos a pena;

- Estado de vigilância e cultura policial que nos deixam sentindo desconfiados e inseguros;

- Um sistema financeiro baseado na dívida, em que o dinheiro é sistemicamente escasso: nunca há dinheiro suficiente para pagar as dívidas;

- Uma cultura legal de responsabilidades em que toda pessoa é entendida como uma potencial oponente;

- Um sistema de crenças patriarcais que oprime o feminino interior e exterior, confina intimidade e faz do amor um negócio;

- Chauvinismo racial, étnico e nacional que transforma alguns de nossos irmãos humanos em Outros;

- Uma ideologia da “natureza como recurso”, que nos aparta de nossa interconectividade a outros seres e nos deixa nos sentindo sozinhos no universo.

- Desmantelamento cultural, que nos converte em consumidores passivos e indefesos de experiências;

- Imersão em um mundo de estranhos, cujos rostos não reconhecemos e cujas histórias não sabemos;

- Talvez o mais importante, uma metafísica que nos diz sermos indivíduos distintos e separados em um universo de “outros”.

Eu poderia nomear outras centenas de aspectos desses. Eles compõem a água em que viemos nadando, colorindo nossa concepção básica de self e de mundo, nossa experiência básica do que é ser humano. De modo algum representam a totalidade da experiência de ninguém. A verdade profunda de interconexão, de interser, sempre abre seu caminho de um jeito ou de outro, desvelando a ilusão da separação. E essas aberturas vão ocorrer cada vez mais enquanto o mundo de separação sucumbe.

Agora mesmo minha mulher passou por mim e me deu o beijo mais terno do mundo. Eu me senti completamente em casa naquele momento. Você já teve uma experiência de conexão íntima e sentiu suas vontades desvanecerem? Sentiu a lógica do controle se desintegrar?

Nós podemos ir à guerra contra os gananciosos, mas isso não resolverá nada. Irá, na verdade, exacerbar o problema, porque fortalecerá o campo de Separação, que, em sua base, é uma guerra contra o outro, uma guerra contra a natureza, uma guerra contra nós mesmos, uma guerra de cada um contra todos.

No lugar da guerra, qual a versão sistêmica daquele beijo terno? O que transformará a atmosfera de escassez a que estamos tão acostumados, que até parece ser a própria realidade? Porque a “atmosfera de escassez” está em todo lugar, tudo deve mudar. O livro “Economia Sagrada” descreve a dimensão econômica daquele beijo na forma de várias peças de quebra-cabeça de propostas econômicas — a reversão da usura, a restauração dos comuns, a eliminação da renda econômica, a instituição de uma renda básica universal, a internalização dos custos, a localização econômica e assim por diante. O que essas propostas têm em comum é serem desenhadas a partir de uma nova, e ao mesmo tempo antiga, história que não mais nos entende como seres separados. E elas contribuem para um mundo que não mais nos impulsiona à separação.

Mas a ganância é um sintôma de uma enfermidade que transcende para muito além a economia. Como a lista acima sugere, nenhum aspecto da nossa sociedade ficará intocado em meio à revolução do amor que está em curso.