Por que concordo que o mundo precisa fazer uma grande curva em U
Este conteúdo, feito especialmente para a parcinha de Fervo e de vida, Priscila Cotta, faz parte do Mordenize, jornada para achar um jeito de lidar com o dinheiro que me faça sentido — esperando que isso possa ajudar você também. Toda terça e sexta. Considere apoiar, a partir de R$ 1.
“Vivemos em um tempo de profunda ruptura. Em que algo está acabando, morrendo. E algo diferente está querendo nascer”, Otto Scharmer
Reparou que escrevi “concordo”? É porque vou aqui apenas tentar reverberar, de modo geral, a teoria U — formulada pelo autor da frase tão verdadeira acima, professor do MIT e condutor do U. Lab, Otto Scharmer. Mas reverberar bem do meu jeito, no pulso das minhas sinapses e do meu coração, tentando também fazer pontos de contato com um outro pensamento que igualmente emerge neste tempo grávido não sabemos — claramente, não — de quê.
A primeira vez em que ouvi falar sobre teoria U foi pela Andy de Santis, eu e Pitty (a Priscila =)) em reunião com ela. Lembro de ter ficado intrigada com o U, de ter feito uma nota mental para pesquisar esse negócio e ok. Nem precisei, porém: poucos dias depois, em um encontro na antiga Laboriosa89, fiquei tocada pela paixão com que duas pessoas falavam do U.Lab, um Mooc (curso online aberto e massivo, na sigla em inglês) para transformação de negócios, da sociedade e do “eu” com base na… teoria U.
Pronto, esse U estava me puxando feito aqueles imãs em U que aparecem em desenho animado, sabe? Pois, entre outras referências que saí buscando, caí no vídeo abaixo, com Otto, que explica um bocado. E fui capturada de vez ali, com algumas palavrinhas mágicas — que quem me acompanha vai entender: “Acredito que a mais significativa ruptura da nossa geração está ainda por vir; e ela tem a ver com a transformação do próprio capitalismo”, dizia Otto.
(Pausa para extravasar meu entusiasmo: \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ )
O percurso U
Como a teoria é elaboradíssima — e eu nem a estudei a fundo assim para entrar nos detalhes —, optei aqui por me ater ao que estou chamando de percurso U. Por si só, uma jornada muito rica que está de mãos dadas, ao meu ver, com outras empolgantes construções teóricas. Mais abaixo, exploro uma.
Bem, são muitos os sintomas da agonia de um mundo que parece cada vez mais perto do colapso, de um mundo que morre. (Por outro lado, podemos entendê-los também como contrações da agonia de um mundo que cada vez mais quer existir, de um mundo que quer nascer, não?) Eles estão aí manifestados nas crises climática, hídrica, energética, econômica, migratória, política, alimentar. Também no agravamento das desigualdades, da concentração de poder e de riqueza, dos fundamentalismos, do terrorismo. Também na crise do “eu” (com tanta depressão, burnouts, suicídios…).
Imagine, então, que cada um desses sintomas são “só” a parte visível de vários icebergs. Sendo a parte submersa de cada um deles as suas bases, as suas causas. Pois o percurso U se propõe, corajosamente e levando o medo junto, a mergulhar nas águas que abraçam a parte oculta de cada iceberg — sejam eles nos negócios|organizações, na sociedade ou no “eu” — com três atitudes básicas: a mente aberta, o coração aberto e o desejo aberto.
Imagine ainda que a ponta do iceberg seja a ponta esquerda do U. Que a base do iceberg, láaa no fundo, o ponto do percusso em que entramos em contato profundo com quem realmente somos, com o que realmente viemos fazer aqui (sim, neste pequeno ponto azul chamado Terra). E que o futuro que quer emergir, aquele mundo que se contrai para nascer, é a ponta direita do U.
Ó, para ajudar a imaginar isso:


Vem comigo num passo a passo? Tá! .o/
Então, começando lá na ponta esquerda do U, a ponta do nosso iceberg imaginário (nem tanto, a metáfora é usada pela própria teoria ;-)), precisamos:
- Sair da parte visível, onde apenas ficamos no downloading de padrões do passado e atuando com base neles. Suspender esse same old, same old, de um sistema econômico do ego (ego-system economy, como Otto coloca).
- Já submersos, procurar ver com frescor (a mente aberta). O que requer deixar de dar ouvidos para a voz dos julgamentos (VoJ).
- Mais em direção ao fundo, já no campo do coração aberto, sentir a partir do campo que contém todos e o todo. Porque não é mais tempo de agir maximizando autointeresse. Importa o interesse de todos, o interesse do todo. Importante não dar ouvidos para a voz do cinismo (VoC).
- Já na crucial base do iceberg, estar presente e sentir desde esse lugar de presença. E, com o desejo aberto, perceber quem somos e qual é o nosso trabalho aqui. Importante não dar ouvidos para a voz do medo (VoF, em inglês). Deixar ir o que for de ir. Deixar vir o que for de vir.
- Já iniciando a volta à superfície, cristalizar a sua visão e a sua intenção de vida. Aquilo que emergiu por meio de você. Vindo dos lugares mais profundos, verdadeiros, amorosos e potentes do ser.
- Aí é hora de proclamar ao mundo esse entendimento mais profundo e prototipar ações — linkando head (conhecimento), heart (aquela coisa sutil que diz pra você que, “Meu, é isso que faz sentido!”) and hands (o aprendizado da prática que fica gravado no corpo).
- De volta à tona, chegando à ponta direita do percurso, agir a partir da mentalidade do todo, que emerge por meio de nós. Não mais da mentalidade dos padrões do passado, do autointeresse. É criar e ser um sistema econômico do eco (eco-system economy, como Otto coloca) ← Bingo!, a transformação do capitalismo.
É, galerê, eu não falei que era um percurso fácil… E só coloquei em passos aqui para efeitos didáticos. Porque, reconheço, posto que sinto em mim, os padrões do passado moldam (ainda) em muito quem e o que somos. Enquanto indivíduos. Enquanto sociedade.
O U no entrelaçado (da minha cabeça e do meu ❤)
Bem, mas deu para sentir como esse percurso é toda uma proposta de transformar como nos conectamos conosco mesmo, uns com os outros e com o sistema como um todo? Construindo o futuro do qual queremos fazer parte?
É um nível mais profundo da nossa humanidade, em que entendemos, por exemplo, os sintomas citados no texto como meros reflexos das questões dentro de nós mesmos. Simples assim. Chega de apontar dedos.
Quem fala de algo muito semelhante é Charles Eisenstein — sim, aquele que sempre trago por aqui, salve, salve, #CharlitoRules. Nos termos dele, esse nível mais profundo da nossa humanidade é O mundo mais bonito que nosso coração sabe ser possível. Ahhh, ele sabe, não sabe? ❤ ❤ ❤
Sentimos, em nosso coração, que é para a vida ser mais do que isso que nos é oferecido. Que não é para odiarmos as segundas-feiras e vivermos pelas sextas-feiras. Que não é para milhares de pessoas tentarem cruzar fronteiras e morrer aos montes no caminho. Que não é para uma ursa polar estar raquítica de fome porque as geleiras derretem e mudam toda a forma como sua espécie tem de conseguir comida — e um urso polar aparecer na propaganda da Coca-Cola “querendo” carregar a porra da tocha olímpica. Que não é para 67 pessoas deterem a riqueza correspondente à de 3,5 bilhões de pessoas. Que não é para mais gente estar morrendo por suicídio do que por homicídios e desastres, combinados. Que não é para animais serem tratados como coisas que vão acabar na nossa mesa, cheias de hormônios e antibióticos. Que não é para [ preencha aqui com o que dói no seu coração à vontade…].
Assim como a transição proposta por Otto — que fala da passagem de uma ego-system economy para uma eco-system economy —, Charles também propõe definições para a sua ideia de transição. Em linhas gerais, estamos transitando do que ele chama de História da Separação — onde vale o nosso autointeresse, indivíduos separados que somos — para uma História da Reconciliação — reconhecendo nossa interdependência, nosso interser, o entrelaçado do qual fazemos parte e dependemos todos. E esse meio entre uma história e outra, cheio de contrações de dor e de esperança, é o Espaço entre as Histórias.
Euzinha diria que, de uma ponta à outra do U, é o The Space in Between Stories do Charlito. Afinal, é nele que podemos aprender a nos conectar de forma diferente conosco, uns com os outros e com o sistema como um todo.
E, enquanto espaço entre o velho que morre, que não faz mais sentido, e o novo que quer emergir, que sentimos fazer sentido, tudo o que ele pede de nós é… coragem. Coragem para agir a partir do coração — com ajuda das mãos e da mente. O que não quer dizer que não vai ter medo.
Você vem?
Para saber mais:
Verbete da Teoria U no Projeto Draft
Introdução (em inglês) do livro “Leading from the emerging future”
❤ U ❤
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