Ou como a plataforma, para mim, não é sobre oferecer hospedagem mais barata, mas sobre ajudar a restaurar nosso senso perdido de comunidade

Denize Guedes
Aug 28, 2015 · 7 min read

Este texto faz parte do Mordenize, jornada para achar um jeito de lidar com o dinheiro que me faça sentido — esperando que isso possa ajudar você também.
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Em junho deste ano, coloquei a quitinete onde moro, no centro de São Paulo, no Airbnb. Eu já havia experimentado me hospedar (na casa da Flavia, em Brasília, estadia que superou todas as minhas expectativas) e vinha namorando a ideia de também me tornar anfitriã desde então (fiquei na Flavia em setembro de 2014). Acabei por me decidir ao voltar de Paris, para onde viajei em maio com o apoio de um montão de gente que viu valor em eu pedir ajuda na rua (sim, na rua, com chapéu no chão e tudo) para participar da OuiShare Fest, o maior evento da #EconomiaColaborativa.

Foi na OuiShare Fest, inclusive, que ouvi algo que considerei didático sobre a plataforma: “No Airbnb, você vê as fotos das casas, dos apartamentos, dos imóveis em si. No Couchsurfing, você vê fotos de pessoas. Em um, a ênfase está claramente na conveniência e, em outro, na convivência”, dito mais ou menos com essas palavras — itálicos meus — por uma *pessoa* do Couchsurfing, em um dos painéis da programação do evento.

Faz todo o sentido — especialmente quando se considera que no Airbnb você abre a porta da sua casa colocando dinheiro no meio e que, no Couchsurfing, você faz a mesma coisa, só que sem colocar dinheiro nenhum no meio. E tudo bem, nenhum julgamento de certo ou errado aqui. Apenas o entendimento de que o primeiro tende a ser pautado pela conveniência/comodidade e o segundo, pela convivência/interação.

Ok, se eu, Denize, prezo muito pela colaboração e tenho várias questões com dinheiro, haja vista este Mordenize, o meu natural seria abrir a porta da minha casa pelo Couchsurfing, certo? Certo. Mas a razão que me fez abrir justamente pelo Airbnb foi… o dinheiro. Pois é. Mas por quê? Porque eu precisava de uma alternativa de renda sem ser ligada a um trabalho tradicional — o que é tema para outra postagem, isso de eu não querer ter mais um trabalho tradicional. E, dentro das possibilidades, o Airbnb era uma alternativa bastante coerente com a maneira como tento me posicionar no mundo.

Coerente, sim. E isso também ficou claro para mim na OuiShare Fest. Um dia depois da fala da moça sobre o Couchsurfing, em um painel com o incrível do Charles Eisenstein — que cito muito por aqui e, por sinal, foi o principal motivo de eu ter querido ir a Paris. Pois ele disse isto, mais ou menos com estas palavras:

Quem sabe o Uber e o Airbnb não sejam tentativas imperfeitas de restaurar nosso senso perdido de comunidade? Quem sabe já não estejam nos revigorando?

E é isso. Desde junho, já hospedei pessoas incríveis. Pessoas que tive a chance de conhecer por causa do Airbnb. Muitas me deixaram bilhetinhos carinhosos de agradecimento. Outras me deixaram recados e desenhos no quadro da sala/quarto. Um casal me deixou um pacotinho de pães de mel. Uma possível hóspede me disse coisas super queridas na nossa troca de mensagens… São coisas que aqueceram meu coração. E espero ter aquecido o coração deles|as também. São coisas que restauraram, de certa forma, um pouquinho da pequena fração que nos cabe do senso de comunidade da nossa espécie, tão esquecido. A essas pessoas sou muito grata, também por me possibilitarem viver desse jeito diferente, que nem sei bem qual é.

Por isso, fiquei bem triste hoje ao receber minha primeira avaliação negativa na plataforma. Esta é a sétima, mas caiu feito uma bomba sobre as outras seis bastante (e estou sendo modesta) elogiosas. Reproduzo:

A Denise e simpatica mas nao posso mentir a respeito da experiencia. A cama, o colchao do futon muito duro fiquei com dor nas costas. A tv o controle remoto nao funciona, tudo muito barato, a cortina do banheiro molha tudo, os moveis a mairia feitos com caixotes. A cortina do apartamento muito fininha, entra uma claridade incrivel pela manha, nao se descansa. como disse tudo muito barato pelo preco proxima vez pago um pouquinho mais e fico num lugar com mais conforto. Acho que parece ela nao se preocupa muito com o conforto do hospede. O lugar e perto do metro e tem porteiro a noite toda isto e bom mas somente isto. I don’t Recommend!

E meu nome é com “z”… =/

Juntei meus caquinhos a tempo de não começar a chorar e respondi assim:

Agradeço o feedback extremamente franco e direto. Estou alterando na descrição do apartamento a palavra “confortável” em relação ao futon e vou chamar a atenção dos próximos hóspedes para ter certeza se estão dispostos a dormir em um futon — visto que, claro, um futon não é uma cama nem um colchão. Como está dito nas funcionalidades do apartamento e na descrição dele que se trata de um futon (o que também se pode ver na foto, incluindo a espessura), imaginei que fosse o suficiente para alguém decidir. Eu durmo bem nele, de verdade. E já tive tanto hóspedes que relataram ter dormido muito bem, assim como quem preferiu procurar outro lugar. E está tudo bem.

Quanto à claridade, também agradeço o feedback e vou incorporar à descrição. Realmente entra muita claridade e, por isso, ofereço dois protetores de olhos. Como moro no apartamento quando não tenho hóspedes, e sou uma pessoa que gosta de acordar com a luz do dia, é assim que o apartamento é. Não ofereço um quarto de hotel ou pousada, ofereço a minha própria casa. E está tudo bem se pessoas decidirem não ficar lá por causa da claridade.

Sobre os caixotes, não se trata de eu ter optado por móveis baratos. Trata-se da maneira como me posiciono no mundo. Não sei se leu na descrição e se reparou quando esteve lá, mas eu tenho uma composteira doméstica. Tenho enorme preocupação ambiental com os recursos que demandamos do planeta. Apenas como informação, nossa espécie vem conseguindo seguidamente, desde 1987, esgotar os recursos da Terra além da capacidade que ela tem de se regenerar. É como se vivêssemos no cheque especial do planeta (sendo que não temos um planeta B para mudar para lá)… Além de eu gostar da estética dos caixotes (algo pessoal, claro, ninguém é obrigado a achá-los bonitos; embora alguns hóspedes já os tenha elogiado), eles são opção de uso de recursos já existentes e desprezados. Mas vou também deixar mais claro na descrição, embora eles apareçam bem nas fotos.

Quanto ao controle da TV, sim, o botão “Power” não funciona. Os demais estão em ordem. Isso foi informado pessoalmente. Adoraria ter recebido o feedback na mesma hora, pessoalmente. Acrescentarei na descrição também.

Quanto à cortina do banheiro, na minha experiência, não acontece de molhar tudo. Tanto que destaco isso na descrição, uma vez que não disponho de box. Vou chamar a atenção dos próximos hóspedes, não quero desapontá-los com uma informação que não compete. Entendo, a partir de agora, que depende da experiência de cada um no banho.

Sobre eu não me preocupar com o conforto do hóspede, fico muito triste, essa é a verdade. Não estou no Airbnb pelo dinheiro apenas. Não mesmo. Estou porque vejo na plataforma uma forma diferente de conectar pessoas, uma forma de revigorar nosso senso perdido de comunidade. Tanto que fiz questão de colocar no meu perfil que sou uma entusiasta da economia da colaboração. A senha do meu wi-fi tem até a palavra “colaboracao”… Me preocupo, sim, com meus hóspedes. Gostaria de ter conversado melhor com você na sua chegada, de ter sentido melhor se poderia ter sido de mais ajuda, mas você estava muito corrida.

Peço desculpas se sua experiência não foi boa e agradeço mais uma vez os feedbacks para que eu possa lidar melhor daqui em diante. Mas também deixo registrado que a minha experiência, como anfitriã, também não foi de acordo com a expectativa. Em relação ao cumprimento das regras da casa e de eu não ter recebido qualquer retorno das mensagens enviadas durante a hospedagem (aquilo era eu me preocupando com você =/ ).

Enfim, não sou um hotel: sou uma pessoa comum colocando a sua casa comum à disposição de pessoas comuns. Tudo o que eu não desejo experimentar é uma relação meramente comercial.

Daí minha tristeza, sincera.”

E foi isso. O perfil já está lá alterado. Eu já estou mais firminha. Este texto, já bastante longo. E espero, com a reprodução da avaliação e da minha resposta, ter justificado o título e o subtítulo dele. O negrito no final da minha resposta à hóspede, negritado somente aqui, também é no sentido de enfatizar como vejo — especialmente a parte que fala que tudo o que não desejo na plataforma é experimentar uma relação meramente comercial. Ainda mais em casa, um lugar sagrado.

Porque, gente, #NaoEhSohPelos92Reais <== o valor da minha diária.

Para quem chegou até aqui, obrigada pela leitura, obrigada. ❤

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Denize Guedes

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Em crise existencial no capitalismo, escrevo “A melhor próxima coisa agora” como estratégia para atravessá-la. ❤ denizeguedes.com

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