Por que o ‘Dia do Dinheiro de Graça’,
na realidade, te enriquece [tradução]

Esta tradução, de artigo de Donnie Maclurcan* no Shareable, faz parte do Mordenize, jornada para achar um jeito de lidar com o dinheiro que me faça sentido — esperando que isso possa ajudar você também. Um conteúdo novo toda terça e sexta. Considere apoiar, a partir de R$ 1.

Em um mundo onde acumular riqueza é a norma vigente, dar dinheiro a um completo estranho — sem qualquer vínculo mesmo — parece ser uma ideia radical. Ainda assim, para as centenas de pessoas que já tomaram parte do Dia do Dinheiro de Graça, desde seu humilde início em 2011, existe um entendimento de que é preciso compartilhar mais neste mundo — hoje mais do que nunca.

Mais do que isso, nossa experiência com o Dia do Dinheiro de Graça (todo 15 de setembro) confirma que as pessoas se sentem bem mais confortáveis dando do que recebendo. Em 2014, por exemplo, Jennifer Hinton disse que ela e três amigas levaram mais de uma hora para distribuir 35 euros, em Atenas, na Grécia.

E é aí que o Dia do Dinheiro de Graça entra ao oferecer uma oportunidade libertadora — enquanto a data é, certamente, uma chance para pessoas superarem a inibição de contato com estranhos, ela também traz a chance de expandir a nossa habilidade de receber. Ao lutar contra os julgamentos que fazemos sobre o dinheiro e sobre o nosso próprio valor, vemos mais claramente a influência invasiva das histórias dominantes sobre a natureza humana. (Se somos essencialmente gananciosos e separados uns dos outros, como nos seria possível dar dinheiro assim para um completo estranho?) Com o amor e a vulnerabilidade no coração das trocas no Dia do Dinheiro de Graça, podemos coletivamente seguir cicatrizando as fendas que surgem em uma cultura baseada na escassez.

Mas poucos estão dispostos a pular dentro assim na vulnerabilidade de receber de um completo estranho. Então, nós encorajamos os participantes do Dia do Dinheiro de Graça a usar uma técnica simples (que também serve para ampliar o experimento): sugerir a quem recebe que fique com metade do dinheiro recebido e que passe adiante a outra metade para alguém. Essa técnica massivamente aumenta a disposição das pessoas a tomar parte da iniciativa, reforçando que as pessoas sentem a necessidade de ver a doação como legítima, que, por sua vez, legitima o ato de receber.

Sob vários ângulos, não é surpreendente que as pessoas fiquem desconfiadas, confusas e até, algumas vezes, ofendidas quando a elas é oferecido “dinheiro de graça”. A economia dominante ainda sustenta que agimos motivados por desejos racionais de maximizar nosso autointeresse. Essa premissa orienta uma cultura perniciosa, que reforça sua própria crença ao colocar no auge do sucesso aqueles que foram mais bem-sucedidos em maximizar seu autointeresse. Assim, muitos escutam as palavras “dinheiro de graça” e imediatamente pensam, “ah, suspeito esse esquema”. Mas o fato é que a ganância esteve ausente em cada Dia do Dinheiro de Graça até agora. Ninguém tentou jogar com a iniciativa para fazer dinheiro para si. Ao invés disso, a generosidade tem sido abundante — de pessoas dando as últimas notas da carteira até um casal que deu $ 35 mil em terras para quem aparecesse na sequência na fazenda orgânica deles.

A nossa maior ferida é a de não saber receber generosidade dos outros. Talvez parte da razão de muitos participantes do Dia do Dinheiro de Graça relatarem falta de disposição das pessoas em receber seja porque assumimos a conotação cultural de que receber ajuda, de quem quer que seja — especialmente, de estranhos —, é algo ligado a fraqueza. Nesse sentido, como vivenciado por este homem que gravou sua tentativa de dar dinheiro, oferecer o dinheiro se transforma em um insulto — uma acusação de que alguém não pode dar conta de si mesmo —, mais do que de fato é a intenção — um gesto de amor e de boa vontade.

Amelia Bryne, de Estocolmo

Nesse sentido, [a grega] Hinton contou que a resposta que mais ouviu quando tentava dar dinheiro às pessoas era: “Por favor, dê para alguém que precise mais do que eu”. Certamente, essa resposta pode se originar, em parte, da generosidade pelos outros e da ética do cuidado, que o próprio Dia do Dinheiro espera ajudar a espalhar. Mas, talvez, haja uma parte dessa resposta que emane de uma crença mais profunda: a de que não valemos esse amor e essa ajuda — especialmente, não de pessoas que nunca nem ajudamos. Talvez seja um produto do individualismo cruel promovido pela ideologia neoliberal — em que é esperado das pessoas que sejam bem-sucedidas por elas mesmas, para elas mesmas. Talvez séculos de capitalismo baseado no mercado tenha enraizado tão fundo o modelo transacional em nossas psiquês que obter algo por nada pareça uma pegadinha impossível. E, talvez, seja por isso que ideias como “pague pelo seguinte” e saiba mais a respeito no site pareçam deixar as pessoas mais confortáveis com receber.

Pegar para si excessivamente (ganância) é algo fortemente relacionado ao materialismo. E evidências mostram que o materialismo está correlacionado à insegurança pessoal. Inseguros se sentem incapazes de receber plenamente as riquezas que lhes foi dada. Ao passo que pessoas ajudadas, amadas e se sentindo abundantes tendem a doar naturalmente e com imensa generosidade.

Assim, o Dia do Dinheiro de Graça é um convite para explorar o dar e o receber. Em particular, este ano, o que será que você pode fazer para encorajar a disposição das pessoas a receber? Talvez seu sorriso possa quebrar o gelo do cinismo nelas. Talvez elas possam sentir o seu coração. E, se tanto, que oportunidade incrível para o crescimento, porque, como diz a professora espiritual Tiziana DellaRovere, a expressão “dar para receber” poderia mesmo ser invertida: receba para dar. Ao aumentarmos nossa capacidade de receber amor, nos tornamos capazes de dar mais dele a outros de uma maneira saudável.

Vamos continuar a compartilhar com outros a noção de que receber não é sobre ser fraco nem sobre ser ganancioso. É sobre honrar o entendimento de que todos somos dignos de amor, respondendo graciosamente ao presente, ao desejo de dar de quem presenteia. Recompondo, assim, nossa confiança na humanidade para que possamos continuar a experimentar a riqueza da nossa interconexão aqui neste planeta finito.

*Donnie Maclurcan é diretor executivo do Post Growth Institute, organização ligada ao Free Money Day ( \m/ )


Esta tradução, de artigo de Donnie Maclurcan* no Shareable, faz parte do Mordenize, jornada para achar um jeito de lidar com o dinheiro que me faça sentido — esperando que isso possa ajudar você também. Um conteúdo novo toda terça e sexta. Considere apoiar, a partir de R$ 1.