Quando as ideias fazem sexo — e os corpos que as propagam, um deles sendo o meu, também

Texto 3 da PARTE 1 do livro “”, minha estratégia de travessia da maior crise existencial em que já me vi mergulhada no capitalismo. Acompanhe o processo .

Denize Guedes
Nov 7, 2016 · 12 min read
pexels.com

Interpessoal, agora me dou conta. Interpessoal e intersubjetivo era o looping que precisei pôr fim para iniciar o processo de salvamento. Mesmo que eu não soubesse que estava fazendo isso ao me despedir daqueles encontros sexuais — com papos intelectuais antes, no intervalo e/ou depois do sexo, cada um dos três que ocorreram a seu modo.

A minha vergonha está no nível 9, mas, ainda assim, vou guiar você por este próximo melhor instante de vida. O nível 10 é reservado ao meu pai, a quem advirto: “Seu Antunes, se estiver lendo / , pare aqui, feche a aba e vá se ocupar de outra coisa. De verdade, por favor. Vaza, papito.” Ok, agora, um aviso importante: sempre que se deparar com [ _____ ], o preenchimento fica a cargo da sua imaginação. Sim, conto com as suas ideias. Pronto, vamos lá.

Estou na garagem do prédio dos meus pais, de volta no Celtinha 2004/2005, nosso carro, quando tomo um susto no meio da baliza ao lembrar: “Você precisa cancelar a assinatura do Doodle Play Música, Deniseee! Já, agora! Amanhã termina o trial e eles vão começar a cobrar do cartão de crédito. Amanhã, um dia antes do seu aniversário, lembra? Por que você não cancelou nas outras vezes em que lembrou? Por quêee? Cancela já, agora-agora!” Pelos retrovisores, avalio que o Celtinha está bem posicionado o suficiente e desligo o motor. Puxo a bolsa lá de trás, boto em cima do banco do passageiro — o que empurra as sacolas plásticas com mais anti-inflamatório para o Dog, mais fraldas e absorventes geriátricos descartáveis para a minha mãe, mais venlafaxina para mim, mais bateria para os aparelhos auditivos do meu pai — e saio em busca do celular. “Aaai, você precisa subir, Denise, o Dog deve estar explodindo de xixi já, o turno de saída da noite é seu, a dona Maria também já tá há tempos deitada no sofá na mesma posição… Aqui!… Tá, agora, é descobrir como faz pra cancelar. Hum, ‘Configurações’?”

Eu tinha assinado o Doodle Play Música para usar com a pessoa significativa & bem-sucedida sem ser interrompida por comerciais — o que acontece com quem não paga no Superplay, o streaming de música que eu uso-uso. Como o Doodle Play Música tem um trial gratuito de três meses, achei que era um bom negócio. A ideia era pôr para tocar enquanto eu fizesse nele as massagens tântricas que vinha aprendendo no curso extensivo da Cia Crescer. Nada de música indiana, nada de new age, nada de sons da natureza. Eu imaginava a coisa toda era ao som de The XX. Não rolou. Quer dizer, não rolou ao som de The XX. Não sei com você, mas comigo o real tem sempre essa força de sair algo diferente do imaginado. O que é interessante, uma vez que tudo o que a nossa espécie materializa ganha vida primeiro é na imaginação. Um bote, por exemplo. Antes de existir, a ideia de um bote precisou ser concebida na cabeça de alguém. Mesmo que na cabeça de diferentes alguéns, em diferentes partes do mundo, materializando diferentes botes. Na tarde em que rolou, eu só de calcinha sobre o corpo nem de cueca dele, muito óleo de semente de uva nas mãos para lubrificar e pressionar as carnes dele, lubrificar e me escorregar nas carnes dele, lubrificar e, só a ponta dos dedos, quase nem tocar as carnes dele, fomos ao som de respiração mesmo. “A respiração — lenta, profunda e conectada uma à outra — está na base do tantra”, expliquei. E foi assim, no tempo presente dos ruídos de inspirar e expirar, devagar e inteiro, meu e dele, ora juntos, ora nem tanto, que explorei cada canto daquele corpo, tão contrário ao meu, nas quatro massagens: soltura muscular, deslizamento, sutil e lingam — esta última, uma exclusividade do genital masculino. Ou seja, zero participação real do Doodle Play Música.

— Oi, como é que tá o Dog? — tomo outro susto, agora com as batidinhas na janela da dona do Máskara, um salsichinha preto diabético, voltando do passeio — Ai, desculpa, assustei você?

— Oooi, imagina, Maria Adélia, tudo bem — digo, abaixando o vidro — Ah, o Dog tá igual, não enxerga nada-nada. Tenho até de subir pra sair logo com ele, é muito xixi que ele faz agora.

— Eu sei, é o anti-inflamatório… Olha, eu não me conformo, eu-não-me-con-for-mo — e desaba em um choro condoído; o Máskara, no colo dela, já lambendo o seu rosto — Te contei que fiz promessa pro Dog?

— Ôoo, Maria Adélia, contou, contou — subo o vidro e vou saindo atrapalhada do carro; a chave, a bolsa e as sacolas em uma das mãos, o celular na outra — Tá sendo um choque muito grande pra gente também, ainda mais com toda a fragilidade lá em casa desde o AVC, né? — rolando um abraço do jeito que dá.

— E a dona Maria, como tá? — já enxugando as lágrimas, o que faz o Máskara latir — Para com isso, Máskara! Parece bobo, gosta de ver a gente chorar!…

A pessoa significativa & bem-sucedida também tinha me perguntado da minha mãe quando reapareceu. Também tomei um susto. Fazia uns dois meses que a veia no lado esquerdo do cérebro dela tinha entupido, mas ele dizia ter ficado sabendo naquele instante da mensagem — [ _____ ] ano(s) depois de a gente se vir normal, por acaso, na rua; [ _____ ] anos depois de a gente se vir sem roupa, de propósito, no então apartamento dele; [ _____ ] anos depois dele me vir chorando por dizer na minha cara não querer mais saber de mim; [ _____ ] anos depois dele não me vir chorando por dizer via e-mail não querer mais saber de mim. Ok, a parte significativa da pessoa já deu pra você imaginar, né? Ei, mas não pensa em , não! Ai, eu mesma já pensei… Eu sei, eu sei… Pera, pensa que eu, assim como bilhões de pessoas neste planeta, como você, talvez, fui fortemente influenciada pela ideia de , o que feeerra com a nossa cabeça e vi filmes demais do tipo “” e “” — bem mais do que uma vez, cada. Não fosse o advento do|a [ ___________________________ ], eu mal saberia que ele tinha [ ________________________ ]; tinha [ __________________________ ]; tinha [ ________________________ ]; tinha [ ____________________ ]; e, quando parei de acompanhar, tinha [ _______________________________________ ]. A parte e comercial bem-sucedida da pessoa também já deu pra você conceber, né? O fato é que ele tinha reaparecido. Na mesma cidade que a minha. Morando em uma cobertura. Fez convite e tudo para eu ir lá conhecer, ver a vista. “Sei”, eu disse.

Encostada na porta do Celtinha, estou imersa no celular, a bolsa e as sacolas plásticas no chão, entre os meus pés. “Nossa, até que enfim… ‘Cancelar assinatura’!” Mal toco na tela, a chave do carro escapa da minha mão. Tento pegar com a outra, por reflexo, e jogo o celular longe, em um canto meio escuro da garagem. “Genia, geeenia!… Fora que você tá demorando muito, Denise… No mínimo, era pra ter subido com a Maria Adélia e o Máskara já!”, vou brigando comigo mesma no caminho de resgate do celular. “Ah, não, travou a tela!… Bom, pelo menos, não trincou nada… arranhou… Que ideia! Onde você tá com a cabeça, Denise?… Onde você tava com a cabeça quando apareceu na porta dele?… Depois de anos! Com uma mala! Para passar a noite!… Ouvir seu pai dinamarquês que é bom, nada, né?” E fico ali, de cócoras, esperando o celular reiniciar, em uma decisão consciente de permanecer distante um pouco do Celtinha e de todas as coisas, só lembrando daquele conselho do Gerardo — cujo status foi de “hóspede do ” para “pai dinamarquês” em 41 dias, tempo que ocupou o , no início do ano. “‘Do not have sex before one year.’ Um ano?! Esperar um ano para fazer sexo com alguém com quem você já fez sexo? Que escala de tempo é essa? E quem falou em sexo, em primeiro lugar? O ponto é que ele virou uma pessoa toda ao contrário de mim. Ou será que sempre foi?… ‘That’s not the point. And you know it, dear. To me, the point is that he’s only looking for affection.’ Ok, ele tá procurando afeto. Mas quem não tá?! ‘You, darling Denise. You. You are looking for love.’ O quê? Amor? Eu? ‘My advice: do not have sex before one year.’”

Eu não me achava procurando o amor. Achava que estava ok, cuidando agora da minha mãe, respirando no tempo presente, o único tempo que existe. Se acontecesse amor, que legal. Se não acontecesse amor, que legal também. Sempre se leva a experiência vivida — e sexo, certamente, é uma experiência. Só que sexo era uma ideia de experiência bloqueada na minha cabeça para a pessoa significativa & bem-sucedida. Vide histórico de ciladas passadas — então, eu só lhe contei duas; eu sei, Estocolmo, Estocolmo… As únicas ideias desbloqueadas para ele eram: tomar um café, almoçar, uma coisa dessas do tipo ― e bem longe da tal da vista. Eram. Até aquele conselho. Porque foi só o meu pai dinamarquês — de 77 anos, com quem descobri poder falar sobre… tudo — conceber a ideia para ela ser automaticamente desbloqueada dentro de mim. Mesmo que depois de um ano. Pronto, sexo podia. Não sei com você, mas comigo sexo seeempre complica as coisas. Eu, desbloqueada, na época: “Hum, olhando aqui no calendário, já tem uns três meses que ele reapareceu. Ah, só dinamarqueses devem esperar um ano. Não, nem dinamarqueses devem esperar um ano! Três meses tá de bom tamanho já. Deixa eu ver, fico esses cinco diazinhos fora no … A dona Santa disse que, se precisar, pode dormir com a minha mãe mais uma noite… Ah, acho que vou precisar… X. Sexo, sexo, sexo!” Eu mal me reconhecia. Mas como não queria admitir isso sem nem tê-lo encontrado, ficava intelectualizando a coisa. “Ideologicamente, Denise, nesses anos todos, você veio para o extremo da ponta de cá, da esquerda, e ele, parece, para o extremo da ponta de lá, da direita. Mas, ah, tudo bem, é igual aquela frase que você anotou uma vez, ‘as ideias são promíscuas, elas fazem sexo.’ Quem sabe as suas ideias e as ideias dele não acham um chão comum para fazer sexo, né? Aliás, de quem será isso? Por que você não pesquisou nas outras vezes em que lembrou?”

― Isso é , em “”! Incrível, garota, você é de uma esquerda meio esquisita, mas há esperança — disse ele, assim que eu citei a coisa das ideias fazerem sexo, logo nos meus primeiros minutos na cobertura, falando sem parar que eu estava, nervosa demais que eu estava, nem sei como eu não tinha explodido no elevador, nervosa demais mesmo que eu estava — Eu tenho o livro, vou pegar — e saiu animado em direção à escada para o mezanino, cujas paredes são tomadas por livros.

Tudo o que eu conseguia pensar ali naquele terraço, tendo observado os movimentos dele indo e voltando, era em como eu ainda gostava do jeito dele de andar, do jeito dele de se mexer, do jeito dele de se mexer inteiro, uma coisa bem primal mesmo. E ele nem parecia ter mudado nesses anos todos. Que loucura, eu precisava de uma água, de um vinho, de alguma coisa.

— Vou só ler um trecho e já pego alguma coisa pra gente beber, tá? — avisou ele, correndo o indicador direito por uma página, por outra, mais outra — Aqui!… É meio comprido, tem problema? — olhando nos meus olhos e desviando logo, o que vi revelar algum nervosismo, ufa.

— Não, você é de uma direita meio esquisita, mas pode ler — eu disse, de costas para a vista, apoiando o corpo no parapeito do terraço e colocando as mãos no bolso de trás da calça jeans então justa o suficiente nas minhas carnes — Quem sabe eu não descubro alguma esperança em você? — até ali, o que eu tinha descoberto mesmo era que, fora o jeito de se mexer, a voz dele também ainda me era muito agradável, uma coisa bem primal mesmo.

— Sei, talvez eu seja mais de esquerda do que você — começando a ler sem me dar chance de resposta — “A evolução pode acontecer sem o sexo; mas é muito, muito mais vagarosa. Assim acontece com a cultura. Se a cultura consistisse, simplesmente, em aprender hábitos dos outros, ela logo estagnaria. Para que a cultura se torne cumulativa, as ideias precisam encontrar-se e acasalar-se.” Hum, tá, pula esse pedaço… Ó: “Imagine se o homem que criou a ferrovia e o homem que inventou a locomotiva não pudessem se conhecer ou falar um com o outro, nem mesmo por terceiros. O papel e a máquina de imprimir, a internet e o telefone celular, carvão e turbinas, cobre e estanho, a roda e o aço, software e hardware.” Presta bem atenção agora, ó — olhando para mim — “Vou sustentar que houve um momento na pré-história humana em que pessoas com cérebros grandes, com cultura e capazes de aprender começaram, pela primeira vez, a trocar coisas umas com as outras e, quando começaram a fazer isso, a cultura subitamente se tornou cumulativa e a grande e impetuosa experiência do ‘progresso’ econômico humano começou. A troca está para a evolução cultural como o sexo está para a evolução biológica” — lendo esta última frase como quem sublinha, fechando o livro em um estalo.

— E?… — eu ainda zonza com a voz dele invadindo o meu sistema, as minhas configurações.

— E que o livre mercado, a livre troca, é a melhor arma contra os ricos!

Crash, choque, crash. Foi ali que primeiro trincou, que se formou a rachadura por onde um monte de confusão me invadiu. “Pera, em nível de confusão, ‘livre mercado ser arma contra os ricos’ não estaria para ‘esperar um ano para fazer sexo com quem já se fez sexo’? E ele mora em uma cobertura. Total nível rico, pra mim. Fora a loucura desse nosso encontro: tipo, Vida sem dinheiro meets Livre mercado. Ahãaa, eu sendo essa fragilidade emocional de carnes amalgamadas em um esqueleto igualmente frágil? Era líquido e certo que ia dar merda, que aquilo era um iceberg. Só não via quem não queria. Eu, no caso.” Foi ali que primeiro soou o alarme de salvamento também. Estocolmo, Estocolmo, Estocolmo… O problema é que eu não costumo fazer nada de primeira. Parece que eu preciso lembrar e tomar susto, lembrar e tomar outro susto, lembrar e tomar outro-outro susto, para, enfim, três encontros intelectossexuais depois, agir. Looping. E, de novo, looping com ele. O looping interpessoal mais revisitado da minha história. Mas ainda bem que chega uma hora em que é preciso sobreviver. Desta vez, sobreviver e evoluir. Mesmo que eu tenha usando muito óleo de semente de uva para escorregar nele e, enfim, dele — mais por causa das minhas necessidades de conexão e de apreciação nunca atendidas o suficiente do que pelo crash com o livre mercado, reconheço. E sabe que o meu pai dinamarquês bem me advertiu, já depois do primeiro encontro, para eu não esperar colher rosas onde elas não nascem? “You cannot pluck roses where no roses grow”, escreveu, lá da Suécia, onde mora. Elas nascem, porém. Já vi de longe, já vi. A questão é que elas nunca nascem… pra mim. Chega. De uma vez por todas, chega!… Fácil admitir tudo isso? Não, né? Digitei e dei backspace várias vezes até resolver manter no texto. Talvez eu sofra de otimismo, um otimismo emocional perturbador.

Para o seu governo, eu ainda estou de cócoras na garagem, imersa de volta no celular, apesar do leve formigamento que toma conta dos meus pés, tendo refeito algumas vezes o caminho do cancelamento, abrindo agora, enfim, o e-mail de confirmação do término do que nunca houve em realidade entre mim e o Doodle Play Música. Ah, sim, teve um outro morador que chegou e uma outra que saiu, mas acho que ambos preferiram fingir não me ver, assim como não ver as coisas do lado de fora do Celtinha. Eu também preferi fingir que fingia não vê-los. E, ah!, seu Antunes, se estiver lendo / ouvindo até aqui, por favor, finja que não leu nem ouviu? Pode ser?

Mais adiante, depois de ter me aboletado no meu bote salva-vidas imaginário, eu leria em “” que “intersubjetivo é algo que existe na rede de comunicação ligando a consciência subjetiva de muitos indivíduos” e que “muitas das forças mais importantes da história são intersubjetivas: leis, dinheiro, deuses, nações”. A pessoa significativa & bem-sucedida tinha me perguntado naquele primeiro encontro, bem antes do sexo, foi muita conversa antes do sexo, se eu estava lendo “Sapiens”. Não. Até ali, não. Ali, eu só estava sendo sapiens mesmo.

— Tá tudo bem? — nem chego a assustar dessa vez, embora a Raphaela, moradora do apartamento debaixo do nosso, tenha até colocando a mão no meu ombro esquerdo — Aconteceu alguma coisa? — o saco de lixo dela com fraldas da sua bebê, dá para ver.

— Não, não aconteceu — digo, ficando de pé — Mas tá tudo bem.


Originalmente publicado | | |

Às segundas, compartilho algo do andamento do livro,

Denize Guedes

Written by

Em crise existencial no capitalismo, escrevo “A melhor próxima coisa agora” como estratégia para atravessá-la. ❤ denizeguedes.com

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