Volta Redonda: muito além da Cidade do Aço
por Chico D’Angelo
A história da cidade de Volta Redonda está diretamente ligada à criação da Companhia Siderúrgica Nacional, na década de 1940, mas não se restringe a ela. O antigo Arraial de Santo Antônio da Volta Redonda foi, no século XIX, importante porto de escoamento da produção cafeeira da região, em virtude da ligação fluvial estabelecida até a cidade de Barra do Piraí.
Entre 1926 e 1954, Volta Redonda foi distrito de Barra Mansa. O distrito teve a sua economia inicialmente vinculada ao café, ao gado leiteiro e a pequenas indústrias e cooperativas agrícolas. A partir da construção da CSN, em 1941, a população cresceu exponencialmente e a indústria do aço passou a ser o motor da economia. A emancipação em relação ao município de Barra Mansa, em 1954, foi a consequência natural deste processo de crescimento.
O que, entretanto, pouca gente de fora da região sabe, é que Volta Redonda tem um potencial turístico e cultural que precisa ser cada vez mais divulgado, até mesmo como possibilidade de incremento da economia criativa da região do Vale do Paraíba.
A cidade é dotada de equipamentos culturais de enorme potencial. A Biblioteca Municipal possui, além do acervo bibliográfico em processo de digitalização, salas de estudos, auditório e telecentro. O Espaço de Artes Zélia Arbex — que homenageia a importante artista plástica da região — tem 200 metros quadrados de área construída, todo em vidro e estrutura metálica, e capacidade para expor mais de uma centena de obras de arte em suas três galerias. O espaço sediou em diversas ocasiões o Salão Nacional de Humor, evento que reúne, desde 1985, chargistas, caricaturistas e cartunistas de todo o Brasil.
Destaque especial merece o Memorial Zumbi dos Palmares, inaugurado em 1990, com o objetivo de ser um centro de referência de manifestações artísticas, debates e ações afirmativas da população afrodescendente. O terrível passado escravista do Vale do Paraíba marcou a região com grande intensidade. A cultura negra, com toda a potência e beleza que possui, é fortíssima em todo o vale — que concentra quilombos da maior relevância em seus limites — e o Memorial confirma isso.
O Mapa da Cultura do Estado do Rio de Janeiro destaca ainda, em Volta Redonda, trabalhos como os do grupo de dança afro N’zinga, que busca dar visibilidade à mulher negra; a força coletiva do Espaço Criativo Casa — que funciona como centro cultural dos mais importantes para a cena da música independente do interior do Rio de Janeiro -; e os encontros de rappers, grafiteiros e mobilizadores da cultura urbana nas rodas de rima do corredor cultural da Vila Santa Cecília.
No campo da cultura popular, Volta Redonda tem forte tradição no universo da Folia de Reis. Mais de uma dezena de grupos de foliões, palhaços e músicos percorrem os bairros da cidade no ciclo do Natal, contando as histórias sobre a natividade de Cristo. O encontro entre as folias, geralmente realizado na segunda semana de janeiro, costuma atrair significativa quantidade de turistas para a região.
Estes exemplos que listamos — apenas alguns de um quadro cultural muito mais amplo — provam que Volta Redonda, tão presente no imaginário brasileiro em virtude apenas da Companhia Siderúrgica Nacional, vai muito além da cidade do aço. A cultura, espaço poderoso de invenção de formas de vida, viceja como um rio caudaloso às margens do Paraíba do Sul e pode ser um campo de soluções criativas — inclusive no campo da economia — em tempos de crise.

Chico D’Angelo é deputado federal e ex-presidente da Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados
