2. IR A UMA RAVE

Estaria mentindo se dissesse que eu nunca havia ido numa rave. Na verdade já tinha ido outras duas vezes. Uma dessas fui porque havia bandas e outra por estar interessado na pessoa que me convidou. Mas dessa vez foi diferente, fui selecionado pra tocar, juntamente com muitos outros projetos do selo Desmanche no festival Terra Oca. Desde o dia que recebi o convite, decidi que iria fazer disso uma experiência completa. Jamais imaginei que um dia iria tocar numa rave, que loucura! Na real, imaginei isso de vários lugares que toquei. Méritos do Desmanche que tá fazendo acontecer.

O festival teve quatro dias de duração, prometi pra mim que iria tentar ficar no máximo um dia inteiro, mas acabei me empolgando e fiquei um dia e meio. Segui para o local do evento, que foi no Rio Preto, relativamente bem longe da cidade. Na sexta-feira, o dia que iria tocar. Cheguei lá por volta das 20:00 e eu tocaria as 23:00. Logo tratei de guardar meus equipamentos, pegar minha consumação e começar a beber, afinal, havia pouco tempo para conseguir me embriagar e eu ainda fico um pouco nervoso antes de tocar. A única vez que toquei sóbrio errei em quase todas as músicas.

Rio Preto — Não sou lá apreciador assim da natureza, mas é bonito.

O primeiro a começar a sequencia de apresentações do Desmanche foi o Ramonzera com seu ehoro. Como ele havia acabado de tocar durante muito tempo com a Transamazônica, perguntei se ele queria que eu começasse para que pudesse descansar, mas como sempre ele não quis. Acabou tocando para poucas pessoas. Quanto a apresentação, outra vez foi demais, já até consigo curtir a música do 666 que antes causava desconforto.

ehoro — 0\b 666

Logo após foi minha vez de começar, demorei um pouco até montar todos os meus artefatos, mas creio ter sido ok, tínhamos tempo. Essa foi a primeira vez que aconteceu esse tipo de imprevisto, toquei quase a apresentação inteira sem me ouvir, então imaginei que tinha sido ruim.. algumas pessoas disseram que foi bom, acreditei. O som do palco que nos reservaram estava ótimo mesmo.

Take Care — Foto: João Victtor

Depois da minha apresentação foi a vez do Benvindo, que tocou juntamente com o Rômulo. Eu ainda estava relativamente sóbrio, percebi que iria demorar a ficar embriagado e com o preço da cerveja.. resolvi fumar um cigarro alternativo, quando voltei eles tocaram mais duas e terminaram. Não sei se tocaram pouco, se perdi a noção do tempo chapado ou se minha demora os atrapalhou, espero que não. Na sequencia veio o How Near e depois dele Bart Beats, apresentações que sempre faço questão de assistir inteiras, já que os mesmos não costumam tocar com frequência.

How Near — Na brisa.

Agora foi a vez da Tuer Lapin, que parece ficar melhor a cada apresentação, ouso dizer que já é uma das melhores bandas em atividade nessa nossa região. Uma honra fazer parte do mesmo cast desses caras. Depois veio a Soda Acústica pra encerrar o #desmanchismo, assisti bem pouco da apresentação deles. Eu já estava há mais de cinco horas ali naquele espaço, precisava sair.

Tuer Lapin — Comportados.

Já era manhã de sábado, tratei novamente de me alimentar na barraca Galática do casal vegano, que aliás, durante todo o festival fiz questão de experimentar tudo o que eles tinham disponível. Comi coxinha de jaca, hamburger de grão de bico e uma esfiha maravilhosa que repeti várias vezes. Só não comi o brownie pois não gosto de doce. Além da barraca, havia também no restaurante um prato vegetariano, que comi no almoço, creme de abóbora e tapioca recheada. Pra mim, a alimentação foi um dos pontos altos do festival, nem aqui na cidade tenho tantas opções, aproveitei demais.

Agora sobre o restante do sábado, foi totalmente loucura. Entrei no rio um pouco e logo sai. Era hora de aproveitar o outro palco do festival, onde interruptamente os djs se apresentavam. Ai que aconteceu algo totalmente não planejado por mim, acabei me rendendo e dancei inúmeras vezes durante todo o dia, minhas pernas estão doloridas até agora. Talvez tenha encontrado algo que eu consiga dançar, afinal, pouco importava como você fazia. Embora eu muito provavelmente tenha dançado de forma totalmente patética, espero que ninguém tenha registrado isso. Não conhecia nenhum daqueles djs, mas havia um que todos comentavam e aparentemente era o mais esperado, Dj Rica Amaral, quando ele começou a pista lotou e obviamente eu também estava lá tomado por uma dança louca. Talvez na minha ignorância, achei todos os sons parecidos, com algumas variações, claro. O que não é demérito algum, curti todos igualmente.

Rica Amaral — Ou também a hora que mais dancei.

Já era noite e eu novamente me encontrava na pista dançando. Minhas pernas já estavam doendo, falei pro Rogério que não aguentava mais, precisava descansar. Voltamos para onde estávamos acampados, sentei numa cadeira e acabei apagando. Já estava há mais de vinte e quatro horas acordado. Quando acordei todo torto na cadeira, levantei, fui pegar uma cerveja e caminhar. Parei e me sentei sozinho numa mureta, tempo depois uma mulher sentou ao meu lado, olhei ao redor e havia bastante espaço, achei que queria puxar conversa, cumprimentei e ela nada falou, pensei que tivesse falado baixo e cumprimentei de novo, novamente sem resposta, desencanei e fiquei na minha.

Caminhei mais algum tempo, fui deitar na rede e dormi mais um pouco. Depois ao acordar, ainda antes da madrugada, bateu a bad.. dinheiro acabando, sem cigarros e lá não aceitava cartão. Decidimos que iriamos partir pela manhã do domingo, o que resultou na duvida de como voltaríamos, aparentemente esquecemos desse detalhe. Lá não havia sinal de celular ou internet, como fazer? Infelizmente nesse ano meu velho carrinho se tornou irregular e não pude ir nele. Eu até tinha como voltar, a produção do evento disponibilizou micro-ônibus para os artistas, mas eu não iria deixar um amigo na mão. Pela manhã partimos para a portaria do evento na expectativa de alguém chegar de taxi e voltarmos nele. O que não aconteceu.. por sorte após algum tempo o Rafael passou e me ofereceu carona, salvou demais. Cheguei em casa por volta das 08:00 já com vontade de escrever, porém o cansaço não deixou, assisti um documentário sobre El Patron até dormir.

Certamente não me tornarei uma dessas pessoas que fazem das raves um estilo de vida, nada contra, essa foi uma experiência muito boa, pude até entende-los. Tirando alguns detalhes.. não levei chinelo, o Rogério perdeu a carteira, cerveja ruim, não aceitar cartão, não ter planejado a volta. Mas é normal, aconteceria em qualquer lugar. As coisas boas se sobressaíram.. palco dedicado várias horas ao Desmanche, rangos veganos, produção do evento atenciosa. Aliás, algo de interessante que reparei foi que os frequentadores, ao que me parece, tem um zelo pelos locais das raves, comparando com outras festas havia bem pouco lixo no chão, bom demais. Estar longe da cidade, sem telefones, internet (tirando o fato do cartão) é algo especial. Como disse, não sou grande apreciador de estar no meio da natureza, não nos damos bem, voltei me coçando todo. Mas curtir uma festa longe disso tudo foi bem bonito. Realmente não pretendo me tornar frequentador assíduo de raves, mas numa próxima oportunidade que tiver, não exitarei em ir.

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