22–52 | De qual palavra você precisa para viver? Eu preciso de CICATRIZ (afinal, não se é feliz sem cicatriz).

Já disse e repito: não confio em quem não tem cicatrizes no corpo ou na alma. Há cicatriz que é um sinal de dor e vergonha, uma espécie de marca de Caim. Há cicatriz que é quase uma medalha. Marca ou medalha, toda cicatriz tem uma história. E eu tenho profundo interesse por boas histórias (não necessariamente felizes), e por quem propõe tristes comédias e dramas ridículos, e tudo o que há entre eles e além.

Como não enxergo a alma das pessoas, sou atraído pelas cicatrizes de seus corpos, e desavergonhadamente pergunto: “Onde é que você arrumou isto?”. Ato contínuo, passamos a comparar cicatrizes e memórias devidamente editadas ou inventadas, como são todas as memórias. Mas não os memoriais, de longas pessoas, de sentimentos fundos, de paixões leves, de sonhos e pesadelos, de quem não somos e do que não vivemos.

Ainda que a cicatriz possa ser o previsível resultado de alguma imprudência, negligência ou imperícia, curiosamente, quem tem cicatriz não a buscou. Mesmo assim – mais feia que uma tatuagem, e menos precisa que uma foto ou filme – a cicatriz é o melhor registro da superação de um medo, de um limite, de um perigo. É uma declaração: eu vivi. Ou é outra declaração: eu sobrevivi. (Porque só tecido vivo cicatriza.)

D. Figueiredo | dercinei@email.com

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