24–52 | De qual palavra você precisa para viver? Eu preciso de ESCASSEZ e de EXCESSO (mas não glorifico a fome chamando-a de jejum e nem glamorizo a gula chamando-a de degustação).

Não há qualquer benefício na fome. Nem na gula, que além de fazer mal ao glutão, ainda zomba do faminto. Regra geral, o excesso é sempre perverso e a escassez pode ser fatal. Entretanto, nos meus catorze anos sorrateiros, entre leituras pobres e vícios feios*, descobri que precisava de alguma escassez e de algum excesso para viver. Tanto de um regime rigoroso, quanto de um lauto cardápio.

A escassez e o excesso de que preciso, primeiro, devem ser voluntários. Em seguida, devem estar no singular, não dou conta de mais de um de cada. Depois, devem ocupar espaço e tempo distintos, não posso pretender juntamente a restrição do regime e o desregramento do cardápio. E, por fim, todos os débitos e todos os créditos da escassez e do excesso devem ser somente e intransferivelmente meus.

As disciplinas de abstinência me preparam para as asperezas do caminho, para as noites mais sombrias, para as tempestades mais intensas, para os desertos mais inférteis, para os abismos mais profundos. Mas são as experiências de descontrole, são as operações do desejo, da volição e do prazer, que me salvam nos dias chatos, monótonos e monocromáticos, sem graça, enfim, nos dias perfeitos.

D. Figueiredo | dercinei@email.com

*Mário de Andrade no poema “A Escrivaninha” (1923): “Duas pessoas num só terror Meus quatorze anos sorrateiros: Leituras pobres, vícios feios Quanto passado sem valor!”